91.ª
SEMANA EUCLIDIANA – SÃO JOSÉ DO RIO PARDO/SP.
Oficina
para a Área II – Ensino Médio:
Euclides
na Rua do Ouvidor: o Rio e os (pré-) modernismos.
Prof.ª
Ms. Anabelle Loivos Considera.
(Faculdade
de Filosofia Santa Dorotéia – Nova Friburgo/RJ;
Universidade
Salgado de Oliveira – São Gonçalo/RJ;
Universidade
Federal Fluminense – Niterói/RJ.)
Ementa: Trata-se de uma proposta de literatura comparada, em que pesem as
aproximações e os afastamentos entre Euclides e todos os intelectuais
cariocas e fluminenses que contribuíam para a viragem cultural (pré-)
modernista, em finais de século XIX e início do século XX. Vamos dar um
passeio pela Ouvidor de Machado de Assis e pelos becos da Lapa de Lima
Barreto, para então tentar situar Euclides neste rescaldo intelectual
carioca, que foi responsável direto pelas manifestações que mais tarde se
fariam na Semana da Arte Moderna paulistana.
A Rua do Ouvidor – turunas
e quixotes pelas “quebradas”
cariocas.
O primeiro nome da Rua
do Ouvidor foi “Rua do Aleixo Manuel”, em homenagem ao primeiro magistrado
da Capitania, que lá residiu (conforme depoimento de José de Alencar). A
partir de meados do século XVIII, começaram a vir de Portugal os primeiros
“Ouvidores”, que se estabeleceriam, por conta da Câmara, exatamente
“pelas bandas do Aleixo Manuel”, fazendo esquina com a Rua Direita (hoje, 1.º
de Março) e com a Rua da Quitanda, no trecho em que era jocosamente chamada de
Rua do Sucussarará...
O nome “Rua do Ouvidor” começa, então, a se impor e se perpetuar, mesmo
que a administração local ainda tenha insistido, de 1897 a 1916, que a rua se
chamasse “Coronel Moreira César”, morto como comandante do Exército
Brasileiro na 3.ª expedição contra Antônio Conselheiro e seu séqüito, em
Canudos.
Com a vinda da família
real para o Brasil, a Rua do Ouvidor se transformou numa espécie de “centro
mercantil” e cultural da cidade. Com a “abertura dos portos às nações
amigas”, ingleses e franceses, mais do que outros estrangeiros,
estabeleceram-se na Ouvidor, como atacadistas ou importadores, especializando-se
em cambraias, sedas, chapelaria, barretes para os eclesiásticos, perfumes,
objetos de fantasia e de moda para as senhoras, jóias, alfaias de luxo e
livros. Além dos comerciantes, a Rua do Ouvidor passou a abrigar modistas (“maisons” ou, numa linguagem atualizada, “grifes” famosas da época),
cabeleireiros, doceiros, sorveteiros, exibindo seus produtos em armações de
jacarandá, que seriam as precursoras tanto das vitrines modernas quanto das práticas
“banquinhas” dos camelôs – que ainda continuam presentes no cenário do
centro do Rio, até hoje, e da própria Ouvidor...
E foi assim que, de uma
precária viela, com os lentíssimos carros de boi a percorrer o calçamento
desigual e feito em alvenaria, com seus freqüentes empoçamentos e sua paupérrima
iluminação a azeite de peixe, a Rua do Ouvidor passou a oferecer certas
“comodidades” aos novos freqüentadores – a realeza e seus abonados
acompanhantes... Calçamento melhorado, trânsito restrito a determinadas horas
do dia, para os carros de boi, substituição dos lampiões de azeite por bicos
de gás, pelo Barão de Mauá, em 1854,
paralelepípedos (quando na Europa já se usava o asfalto...), a partir de 1857,
e vitrines, cada vez mais vitrines, algumas que só o Imperador podia visitar, já
que tinha o costume de distribuir o generoso quinhão real a quase todas elas...
Talvez, daí, a memória popular ter identificado, à época, todos os franceses
a cabeleireiros “afetados” e todas as francesas a prostitutas.
A primeira identificação
da Rua do Ouvidor com a intelectualidade carioca acontece quando da fundação
do Jornal do Commercio, pelo tipógrafo
francês Pierre Plancher, em 1827. Outros jornais viriam a se instalar por lá,
como o A Nação, do então jovem
deputado conservador Barão do Rio Branco; o Diário de Notícias, do republicanista Rui Barbosa; O
País, de Quintino Bocaiúva, numa linha editorial de incitar o Exército
nacional contra os ministérios civis da Monarquia (o que contribuiria para a
deposição de Pedro II); ou a Gazeta de
Notícias, idealizada por Joaquim Nabuco e depois gerenciada pelo grupo de
Olavo Bilac e João do Rio, que deram ao jornal um cunho de “crônica
social” (misturando, por exemplo, seções de análise da conjuntura política
com “concursos de elegância e beleza masculina do Brasil”...). Houve outros
periódicos e revistas cujo planejamento e concepção também estiveram ligados
à Rua do Ouvidor e aos grupos intelectuais que por ela circulavam: a Folha
Popular, com Emiliano Perneta; A Notícia
Cor-de-Rosa, com Oliveira Rocha; a Semana
Esportiva, da viúva Batler e Filhos; a Revista
da Semana, com Álvaro de Teffé (revista de crônica e fotografia policial,
logo depois comprada pelo Jornal do Brasil);
O Malho, com Kalixto como seu primeiro
caricaturista); ou o semanário Rua do Ouvidor, pioneiro dos concursos de beleza feminina.
Acrescente-se à lista outras revistas de atualidades e vespertinos já
desaparecidos: Correio da Manhã, A
Imprensa, A República, A Ordem, Rio-Jornal,
A Batalha, A Esquerda e
outros títulos que nos dão conta da variedade de pensamentos e de discursos
que a nossa Rua do Ouvidor viu nascer e se esfacelarem, ao sabor dos ventos
culturais e das tempestades políticas no Brasil da belle-époque.
É na Ouvidor que surgem
os primeiros “cafés” do Rio, lojas de chá, biscoitos e outras iguarias
“quentes e geladas”, onde se reuniam pequenos grupos, por afinidades específicas:
mademoiselles, políticos, boêmios,
literatos, empresários, capitalistas, altos funcionários, jornalistas e toda a
sorte de intelectuais. Foram estes grupos e cafés que começaram a conformar a
identidade do modernismo carioca, na origem marcado pela pluralidade de tendências
e motivações. Eis que, na Loja Passos, café mais saboroso do Rio, segundo os
seus freqüentadores de então, reúniam-se turunas e quixotes,
como Sales Torres Homem e o Barão de Mauá (este, amigo pessoal de Pedro II, e
aquele crítico feroz do Imperador, mas que acabaria mais tarde incorporado ao
quadro do poder monárquico, como Ministro...), além do Visconde de Abaeté, um
dos mais famosos boateiros do Rio antigo... Havia, ainda, os sorvetes da Deroche
e as empadinhas da Confeitaria Castelões, em que não raro se via Carlos Gomes,
queixando-se do pouco caso do Brasil com seus músicos, e sonhando vender suas
partituras à Itália... Na Confeitaria Paschoal reunia-se o QG literário de
Olavo Bilac (depois transferido para a Colombo, na Rua Gonçalves Dias),
composto pelo Príncipe dos Poetas e outros jovens escritores, sempre em rusgas
com o grupo dos “antigos” fundadores do “Club Rabelais”, que preferiam
se reunir na Cailtau – onde se tomava chope alemão de tonel.
Comia-se “pratos
honestos”, a 600 réis apenas, no Grande Restaurante Chinês, ou no Café
Cascata – que ficava num prédio em cujo andar superior teve escritório o
Senador e General Francisco Glicério, um dos chefes do Partido Republicano
Federal e mentor da resistência aos remanescentes do florianismo ao governo de
Prudente de Moraes. Havia, ainda, a Cabaça Grande e o Minho, onde o Barão do
Rio Branco saboreava vetustas peixadas. Na esquina da Ouvidor com a Gonçalves
Dias, ficava o Café Papagaio, predileto dos “turunas” ligados a Lima
Barreto. Lá se ouviam com freqüência as composições de Chiquinha Gonzaga e
Ernesto Nazaré, além de o lugar funcionar, no carnaval, como “refúgio de
Momo” – uma espécie de rancho ou bloco carnavalesco. Conta-se que o nome do
café foi dado em reverência a um papagaio chamado Bocage, que era considerado
uma mascote do grupo, uma vez que dizia de cor os palavrões mais impublicáveis
e os versinhos mais pornográficos que lhe ditavam os boêmios, tendo logo se
transformando em atração da casa – e em caso de polícia: a ave foi
apreendida, “em nome da moral e dos bons costumes”... Os melhores charutos
cubanos eram vendidos na Loja do Bernardo, entre cujos fregueses se destacava o
Duque de Caxias. O Hotel Europa servia de rendez-vous
aos barões do café do interior, assim como outras pequenas pensões nas imediações,
onde o idioma oficial era o francês... Muitos nobres fazendeiros acabaram por
“constituir residência” nos hotéis da capital, para melhor gerenciar suas
posses e experimentar a hospitalidade franco-carioca.
O primeiro elevador do
Brasil foi instalado numa famosa joalheria, na Rua do Ouvidor, a Mappin &
Webb: de procedência inglesa, o elevador, além de muito lento e com
engrenagens complicadíssimas, possuía alavancas em formato de braços, para
que seus cabineiros pudessem movimentá-lo no caso de pane. Uma frustrada
tentativa de assalto a uma outra joalheria na Ouvidor também entraria para os
anais do anedotário carioca: os ladrões cavaram um túnel que daria exatamente
embaixo do assoalho da loja dos irmãos Domingos e César Farani; mas desistiram
da empresa ao ouvirem ruídos “estranhos”, que vinham da joalheria –
talvez um dos famosos “serões noturnos”, patrocinados pelos irmãos solteirões,
para os quais eram convidados somente artistas estrangeiros de teatro e
destacados homens das letras brasileiros, entre eles os que brilhavam na política
e no jornalismo. O dono do primeiro automóvel do Rio também deu umas
“voltinhas” pelas imediações da Ouvidor. José do Patrocínio trouxera de
Paris um Peugeot, com o qual atravessou a Rua 1.º de Março, causando comoção
nos transeuntes. Mal sabia ele que, dias depois, seu amigo Bilac, tão pouco íntimo
do traquejo com o volante quanto ele, acabaria protagonizando o primeiro
acidente automobilístico do país, como nos conta Ruy Castro:
(...)
Patrocínio afastara-se da Rua do Ouvidor e só às vezes zanzava pelos
cafés com seu jeito gingado de andar, tomando uns copos. Não se sabia como,
havia alguns meses, no Natal de 1902, dera um pulo até Paris. Na volta,
trouxera um carro.
Era
o primeiro automóvel do Rio – um Peugeot preto que soltava os traques mais
explosivos e constrangedores. Desembaraçado o carro no cais do porto, Patrocínio
girou a manivela e entrou nele, de quepe e guarda-pó, sob aplausos e apupos da
multidão. A custo de vários desmaios e mortes do motor, atravessou a Rua
Primeiro de Março a dez quilômetros por hora e conseguiu levar a furreca até
sua casa, no Engenho de Dentro. Dias depois, convidou Olavo Bilac a dar uma
volta. E este, peralta como ele só, também quis dirigir a geringonça.
O
próprio Patrocínio mal sabia fazer o carro andar em linha reta, mas achava-se
com ciência para instruir Bilac. Os dois passaram por cima um do outro no
assento e trocaram de lugar. Patrocínio mostrou-lhe como dar a partida e Bilac,
sem controle dos pés e das mãos, pisou na tábua até o fundo, com o ímpeto
de quem esmaga uma lacraia. O carro soltou dois ou três puns ribombantes,
disparou em ziguezague pela até então pacata ruela suburbana e, cem metros
depois, achatou-se contra a única arvora à vista. Por milagre, nenhum dos dois
se machucou. Só o carro levou a breca.
Somente o seu prestígio
de poeta e a férrea amizade de Patrocínio puderam livrar Olavo Bilac de
envolver-se em um inquérito policial... E o episódio entrou para a história
dos casos burlescos do grupo da boemia carioca, com tons hollywoodianos, quando
se leva em conta a versão de Bilac para o fato – “romanceada” por Ruy
Castro:
Quanto
a Bilac, exibindo um galo na testa, adorou acrescentar o caso a sua mitologia
particular e contou-o dezenas de vezes na Colombo. Na sua versão, a árvore que
transformara o carro em sanfona brotara de repente do chão, germinada num átimo
por Zeus, para impedir que ele, Aquiles do valente, vencesse os deuses em
velocidade. Mas, dizia Bilac, os deuses estavam com os dias contados: os automóveis
eram os Pégasos modernos e um dia seria possível a qualquer um ir ao Olimpo de
manhã e voltar ao Rio a tempo de pegar o fim de tarde na Colombo. E quando isso
acontecesse, todos se lembrariam: o primeiro acidente automobilístico no Brasil
fora provocado por um poeta.
Na alfaiataria Raunier
& Cabral, vestiam-se os ministros e os políticos mais destacados. Houve uma
tal Casa Alemã, que também pertencia ao staff
da alta costura, mas que acabou depredada pelo povo, quando o Brasil entrou na
Segunda Guerra Mundial, em 1942. Na sobreloja do Magazine América & China,
o Mestre-Escola Saturnino da Veiga (pai de Evaristo da Veiga) manteve um colégio
primário, na primeira metade do século XIX, só fechando as portas mais tarde
para virar livreiro, com os filhos. O Jockey Club também manteve um salão na
Rua do Ouvidor, para comodidade de seus associados. Em 1851, donas de casa
puderam presenciar a inauguração da primeira loja de máquinas de costura
Singer, na Ouvidor, e, em 1853, perto de um malcheiroso salão onde se
comercializavam escravos, um tal Dr. Whitemore “tapava dentes furados com ouro” e vendia um “elixir antifétido para conservar a boca em boa estado”, além de
outras “maravilhas” trazidas dos Estados Unidos da América.
O telefone teve uma de
suas sua primeiras ligações efetuada na Ouvidor, sob o mecenato de Pedro II:
em 1877, já se podia estabelecer comunicação entre o Paço Imperial, o Jornal
do Commercio e a estação dos Bombeiros. A novidade foi tão bem vista, que
logo as autoridades imperiais se esforçaram por instalar aparelhos de telefone
nas repartições públicas e nas estações ferroviárias que ficassem
distantes até 70 Km do Rio de Janeiro. Parecia que todos os caminhos levavam à
Rua da Ouvidor, cujo prestígio já era inquestionável, como afirma Rui
Barbosa: “A Ouvidor é o desfiladeiro do
nosso espírito, rua legendária da liberdade, nosso Fórum, nosso Monte
Aventino, onde o povo diariamente se reúne e delibera”.As passeatas e os grupos nela se reuniam para, dali, seguirem para os comícios
políticos. Monarquistas, abolicionistas, republicanos e simpatizantes
fervilhavam à porta dos cafés e redações de jornais, não raro se
enfrentando por causa desta ou daquela frase dita por este ou aquele baluarte
dos liberais ou dos conservadores... No Café do Brito bebericavam e pitavam os
monarquistas; no de Londres, os republicanos. O célebre pintor Manet, de
passagem pelo Rio, em 1849, bem pode ter testemunhado uma dessas muitas “arruaças”
que a rua mais mundana, jornalística e literária do Rio ofereceu à
posteridade.
Neste ambiente
totalmente carioca, precursor do modernismo cultural que balançaria a capital e
as estruturas de poder que ali se desenvolveram, achamos as principais livrarias
e editoras daquele momento: os Laemmert, que chegaram ao país por volta de
1850; Luís Batista Garnier, vindo da França em 1844, que construiu um edifício
cujo andar térreo foi todo adaptado para a exposição de livros – e que Rui
Barbosa visitava quase todos os dias, depois da sessão do Senado Federal; a
Livraria Francisco Alves e a Confeitaria Cailtau, pioneira da nossa literatura
didática; ou então a Casa Crashley, importadora de livros e revistas
estrangeiros, que tinha em Machado de Assis um dos seus fregueses mais diletos.
Em 1896, o italiano
Pascoal Segreto instalou na Ouvidor o primeiro “kinetoscópio” ou “animatógrafo”
ou, ainda, “omniógrafo” – como era conhecido o cinema nos seus primórdios,
na última década do século XIX, exibindo imagens pitorescas, como as de uma
mulher “agindo em variadas posições”
e uma briga de galos ao vivo. A “mágica” era conseguida projetando-se
imagens extraídas de fotos que, postas em seqüência veloz, adquiriam
determinados movimentos. Segreto deu também impulso ao ramo dos espetáculos de
palco, patrocinando a famosa ilusionista “Inana” (cujas espalhafatosas
apresentações gravaram para sempre, na memória popular, o famoso bordão “Olha a Inana!”...) e a importação dos primeiros fonógrafos
ingleses, “a repetirem discursos e músicas
que impecavelmente eram enlatados, como se não tivessem vida”.
As duas primeiras salas de cinema inauguradas na Ouvidor, em 1910, foram a
“Ouvidor” e a “Kab-Kab”, seguidas pelo “Palace”, dos Irmãos
Labanca. O Jornal do Brasil registrou assim uma das primeiras exibições
cinematográficas feitas no Rio, em 1897: “Como um caso estupendo, conta a
Bíblia que Josué fez parar o sol e, entretanto, o Cinematógrafo Super Lumière,
no Paris-Rio, fá-lo dançar maxixe. Imagine-se o astro rei caído nos requebros
exagerados da nossa dança, como qualquer turuna da Cidade Nova. É impagável!”.
Vários movimentos literários
tiveram berço na Rua do Ouvidor, como o simbolista, surgido na redação da Folha
Popular, onde Emiliano Perneta, seu chefe, deu o primeiro emprego a Cruz e
Sousa. A própria Academia Brasileira de Letras é filha da Ouvidor, tendo
nascido na redação da Revista Brasileira,
em 1896 (e reaparecendo na Travessa do Ouvidor, depois de 1890, com a colaboração
de Machado de Assis, Sílvio Romero, José Veríssimo, Visconde de Taunay e
Joaquim Nabuco). Mas a abertura da Avenida Rio Branco, nos primeiros anos do século
XX, viria a tirar da Rua do Ouvidor o status
de “rua líder”, que conseguiu manter por quase um século inteiro. O
“Rio-do-bota-abaixo”, do Prefeito Pereira Passos, convivia agora com
picaretas e remodelações urbanísticas, obras faraônicas no cais do porto
(sinalizadas na imprensa, com grande alarde), seguindo o projeto saneador que as
elites (políticas e até intelectuais) sonhavam para a cidade: fazê-la ser, ao
feitio parisiense, uma espécie de cidade-luz dos trópicos, com capacidade de
atrair investimentos externos. O poeta Oscar Lopes, num soneto satírico, assim
lamentava a decadência da rua que se tornara o reduto da intelectualidade
carioca: “Cabeça da cidade que seria cortada ao meio por uma espada feroz”.
E à Ouvidor restou funcionar, de madrugada, como via de escoamento da produção
agrícola e dos carretos bovinos; pela hora do almoço, como lugar de sesta para
os comerciantes, que punham nas calçadas suas cadeiras e aguardavam pelos
fregueses; e à tarde, como passarela para a elegância dos privilegiados e para
a miséria dos menos favorecidos, numa mistura de retratos vivos de uma nação
que construía, a passos bêbedos, a sua própria identidade, em tempos
modernos.
Euclides na Rua do Ouvidor: o(s)
(pré-)modernismo(s).
É lugar-comum
atribuir-se a origem e o desenvolvimento do movimento conhecido por Modernismo
à esfera da intelectualidade paulista. São Paulo, a partir deste ponto de
vista hegemônico, seria mais do que simplesmente a cidade responsável por
sediar a Semana de Arte Moderna de 22, mas aquela que teria dado curso a uma série
de rupturas artístico-culturais que inaugurariam a modernidade no pensamento
brasileiro.
Em parte, através desta
visão unilateral, que punha o grupo paulista como símbolo do vanguardismo estético
e político, acabou-se colaborando para uma certa desqualificação do Rio de
Janeiro – então, Capital Federal – em relação a São Paulo. Não são
raros os clichês que giraram (e, de alguma forma, continuam circulando) na
tentativa de patentear a falta de vocação para a liderança da cidade do Rio:
1. o clichê do “clima” – cidades tropicais seriam avessas à ordem política,
intelectual e cultural; 2. o clichê do “esbanjamento” – sem disciplina
econômica, o Rio seria um centro de desordem administrativo-financeira; 3. o
clichê do “desvio cultural” – os cariocas só pensariam em samba, praia e
carnaval. Essa “dispersão” das forças produtivas não combinaria, segundo
os intelectuais paulistas, com o papel de cidade-sede do país, que o Rio de
Janeiro vinha protagonizando desde 1763, ainda nos tempos do Brasil-Colônia.
Não vamos tratar, aqui,
da lendária “rivalidade” entre Rio e São Paulo, mas tentar desmistificar
essa visão estereotipada segundo a qual: 1. o Rio de Janeiro não é uma cidade
séria – ou, em última análise, questionar os porquês de a cultura do riso,
da ironia e do humor ser desconsiderada como forma de pensar a cidade e seus
espaços de interação social; 2. não
teria havido modernismo no Rio de Janeiro, mas tão-somente em São Paulo, como
postulavam os ideólogos do grupo paulista Verde-amarelo – dentre eles Plínio
Salgado, Cassiano Ricardo e Menotti Del Picchia. Em suma, averiguaremos de que
forma São Paulo se impôs como versão apolínea da urbe, enquanto ao
Rio coube a imagem dionisíaca, que fatalmente se confunde com uma tal
marginalidade que nenhum projeto cultural hegemônico pode comportar.
Se, como dizia o poeta de
Vila Isabel, Noel Rosa, “São Paulo dá café, Minas dá leite e a Vila dá
samba”, vamos buscar valorizar certos aspectos desta “cultura
marginal” carioca que foram decisivos para a conformação do conceito de
nacionalidade, sem prejuízo do trabalho vanguardista desenvolvido pelo grupo de
São Paulo. Compreenderemos, portanto, o quanto o grupo do Rio envolveu-se no
processo de modernização da própria cidade, na efervescência cultural da belle
époque, atuando em frentes aparentemente contraditórias – ora com uma
visão cética sobre a modernidade, ora ironizando-a, justamente por não poder
encará-la como “coisa séria”, conforme sugeriam os paulistas.
Isto nos levará a pensar
não em modernismo, mas em modernismos, e sem necessariamente estipulá-lo(s)
como invenção exclusiva da Semana de 22. Depois disto, nos encontraremos com
Euclides da Cunha, nos cafés da Rua do Ouvidor, paradigmaticamente inserido
(ainda que “por empréstimo”)
neste sentido moderno “à carioca”, de caráter fragmentário e alternativo:
acolhendo a dinâmica acidentada do cotidiano daquela rua e daquela cidade, que
lhe permitiram metaforizar-se como mais um “quixote” à procura de sua(s)
causa(s), e tendo a literatura como missão.
Os
cafés da Ouvidor – intelectualidade e resistência.
Freqüentar os cafés da
Rua do Ouvidor e imediações significava, para os intelectuais que se reuniam
naqueles tempos de burburinho (últimos anos do século XIX e primeiros do século
XX), uma forma de resistência aos planos da elite política, que queria
“modernizar” o Rio à força de um discurso saneador, como vimos. Exatamente
por não haver contemplado os intelectuais e as camadas populares da população,
esse discurso não deu conta de instaurar, sozinho, o clima moderno que se
exigia da Capital Federal, antes mesmo de 1922. Escritores, artistas, políticos,
ativistas, “quixotes” e “turunas”, então, compartilhavam, nas animadas
mesas e tertúlias da Ouvidor, de um
sentimento de exclusão que lhes foi extremamente produtivo. Debruçaram-se
sobre canecos de chope e sobre o submundo da cidade, na tentativa de captar o
“ethos” carioca – e, quem sabe, o sentido mais original do “ser
brasileiro”.
Num primeiro momento,
homens de letras e de copos como Lima Barreto e João do Rio chegam mesmo a
manifestar-se severamente contra a tal “modernidade”, que destrói lugares
afetivos (como quando da abertura da Avenida Central, que descaracterizaria
parcialmente o traçado da Ouvidor). Toda a obra desses escritores, por exemplo,
é uma ode à paisagem citadina, descrevendo com vivacidade e nostalgia os becos
(“quebradas”), os murais e vitrais dos bares, as sonoridades de cada
esquina, os trapeiros, tatuadores e artistas mambembes. Lima Barreto traduz bem
essa identificação do artista com as ruas: “A cidade mora em mim e eu
nela.”
É um brado de inconformismo e espontaneidade, em nome de uma realidade
cotidiana que se mantinha incógnita para a República modernizadora.
Os literatos cariocas,
então, acabam por refutar a idéia de um movimento estético organizado,
pulverizando suas linhas de atuação – talvez por considerarem negativa a
imagem de uma literatura protocolar, ligada à vida oficial e burocrática.
Na opinião destes intelectuais, qualquer projeto “sistemático” de renovação
artística eliminaria, por extensão, a dose de rebeldia que o fazer literário
demanda. Daí, não ter havido exclusividade na condução das propostas
“modernistas” no contexto do Rio de Janeiro: numa acepção baudelaireana, o
conceito de “artista moderno”, para os cariocas, foi identificado com a
capacidade de interação entre “idéias” e “ruas”, “arte” e
“povo”.
Neste sentido, não
procede falarmos de uma “inauguração” do modernismo nesta ou naquela
cidade, muito menos de “pré-modernismo” ou “vazio cultural”, antes de
22; o que devemos intuir é um processo dinâmico, que começa bem antes de 22,
justamente porque já estava inscrito na tradição cultural e no pensamento
filosófico brasileiro, para os quais os homens de letras da Ouvidor contribuíram
enormemente. Se, em São Paulo, as crônicas de Juo Bananére já davam conta
dessa dinâmica social, muito antes dos Andrades, por que não dizer que o
entrecruzamento de experiências, no Rio, de um Lima Barreto e de um Euclides
(cada um a seu modo) já configuraria a própria construção do imaginário
moderno?
Imaginemos, portanto, uma
outra República, que, no Rio, se oferecia como alternativa à de Floriano
Peixoto e sua desconcertante crise de legitimidade: trata-se da “República
das Letras”, que tinha seus “ministérios” bem constituídos, de acordo
com a preferência do freguês. Ia-se à Livraria Garnier, e lá estava Machado
de Assis, cultivando sua roda de poucos e seletos amigos;
os simbolistas ou nefelibatas reuniam-se em torno de Cruz e Sousa; os boêmios,
em torno dos tonéis de chope alemão e de Paula Nei. É claro que, como todo
“governo paralelo”, esses grupos sofreriam perseguição política, em menor
ou maior escala, nesta ordem (José do Patrocínio é deportado; Bilac
refugia-se em Minas Gerais; Paula Nei desaparece dos cafés depois da morte de
Pardal Mallet, seu amigo e polemista). Porém, toda repressão supõe uma reação,
ainda que subterrânea – o que não foi o caso do grupo do Rio. A República
das Letras instituiu-se para valer, nas rodas dos cafés, nas livrarias, nas
confeitarias, nas revistas, nos salões da Rua do Ouvidor e na Academia
Brasileira de Letras. Seu estatuto tinha, como parágrafo único, a delimitação
do espaço de luta e de criatividade do intelectual, que já intuía não ser
bem aquela outra (a de Floriano) a República
de seus sonhos.
Esta visão cética e
desencantada da realidade está presente nas obras de autores tão distintos
quanto Machado de Assis e Euclides da Cunha. Enquanto este faz de seus escritos
um libelo contra o “atraso” dos sertões e das selvas, através do ensaio
científico misturado à descrição quase épico-poética do “cautério das secas”, aquele investe na linguagem sardônica de
quem se emparelha com a subjetividade e o intimismo, para extrair do caos
circundante a própria criatividade. Dados ao positivismo ou ao simbolismo,
estes e outros escritores que circulavam pela Rua do Ouvidor estavam, cada qual
a seu modo, imersos numa indagação crucial, quanto ao papel de seu fazer literário
frente às questões prementes da nossa nacionalidade.
A histórica questão que
põe, de um lado, “homens de ciência” e, de outro, “homens de arte” não
representou empecilho para a modernidade carioca. Na verdade, essa dicotomia nos
foi legada pela própria tradição do pensamento ocidental, historicamente
marcado pelo veto às formas de narrativa ficcionais como leituras reflexivas,
tanto quanto o discurso científico. Ao longo do século XIX, a ciência
apresentou-se como a linguagem única, capaz de traduzir a formação de nossa
nacionalidade, deixando à literatura a pecha do mero entretenimento. Sem a
legitimação do pensamento científico, qualquer discurso passava a cair no
vazio, não tendo força representativa para designar o quanto nós, brasileiros
éramos “modernos” e estávamos na dianteira da formação do nosso próprio
imaginário de “maturidade cultural”. Alguns de nossos melhores romances
naturalistas enxergam e ampliam essa necessidade de sermos (ou, ao menos,
parecermos...) crescidos, sérios, ou, em uma palavra, “científicos”.
Daí, observarmos duas
diferentes concepções de “modernidade”, convivendo lado a lado, e dando
margem a que os escritores optassem por uma ou outra ou, até, que escolhessem
pelo “entrelugar” – o que aconteceu com Euclides da Cunha. No caso da obra
euclidiana, coexistem os discursos da moderno-ciência
e da moderno-estética, no embate titânico
entre o engenheiro e o homem de letras. O autor de Os Sertões transita entre o grupo dos intelectuais que se postam à
frente de uma causa, defensores que são do progresso político da nação e críticos
dos que se eximem de fazê-lo, a bem do discurso onírico da literatura; mas não
deixa de caminhar com os que acreditam no poder da palavra como forma de mediação
entre um presente imediato e um projeto que contemple, para o futuro do
pensamento sobre a civilidade e a nacionalidade, os caminhos do sujeito histórico
(e, por que não dizer, do sujeito
enunciador dessa mesma história, reinventando o discurso científico-positivista,
ao inseri-lo como possibilidade na categoria ficcional).
Ao finalizar seu
“livro-vingador” com o aforismo “Canudos
foi um crime. Denunciemo-lo.”, Euclides nos dá conta de seu mal-estar (e
isso não era exclusividade sua...) com o universo da ciência positivista,
consoante a qual tivera toda a sua formação intelectual. O escritor não
precisou nem tanto aprofundar as suas conversas nos cafés cariocas para avaliar
que o modelo científico que a República lhe apresentava não conseguia
explicar, muito menos legitimar os eventos trágicos que sucederam nos sertões
baianos, naqueles idos anos do final do século XIX. Seria pré-moderno o
discurso euclidiano? Talvez, muito mais do que isto: trata-se de uma experiência
da modernidade à luz da tragédia, da heroicidade e do tom desencantado que o
pensamento nietzcheano, por exemplo, já se propunha a apontar, também por
aquele momento. Neste sentido, Euclides se faz “turuna” e “quixote”, num
esforço prometéico pela modernização social do Brasil: “Ou progredimos ou desaparecemos.” – dita, malandramente, a voz
do escritor-mosqueteiro, que ainda ecoa nas ruas do Ouvidor de nossa memória.
BIBLIOGRAFIA:
ABREU, Regina. O
enigma de Os Sertões. Rio de Janeiro: Rocco/Funarte, 1998.
CASTRO, Ruy. Bilac
vê estrelas. São Paulo: Companhia das Letras, 2001. (Col. Literatura ou
Morte.)
COHEN, Alberto A.
(Alberto Alves.) Ouvidor, a rua do Rio.
Rio de Janeiro: AA Cohen, 2001.
CUNHA, Euclides
da. Os sertões (campanha de
Canudos). Edição crítica por Walnice Nogueira. Galvão. São Paulo:
Brasiliense, 1985.
GERSON, Brasil. História
das ruas do Rio: e da sua liderança na histórica política do Brasil;
notas, introdução e fixação do texto por Alexei Bueno. 5.ª ed. remodelada e
definitiva. Rio de Janeiro: Lacerda Editores, 2000.
SANTANA, José
Carlos Barreto de. Ciência e Arte:
Euclides da Cunha e as Ciências Naturais. São Paulo: HUCITEC, 2001.
SEVCENKO, Nicolau.
Literatura como missão; Tensões sociais
e criação cultural na Primeira República. 2ª. ed. São Paulo:
Brasiliense, 1985.
VELLOSO, Mônica
Pimenta. Modernismo no Rio de Janeiro; turunas e quixotes. Rio de
Janeiro: Editora Fundação Getúlio Vargas, 1996.
|