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AMÉLIA FRANZOLIN TREVISAN
Dia 28 de setembro, deu-se o falecimento,
aos oitenta e cinco anos, de Amélia Franzolin Trevisan, historiadora de
grandes méritos e responsável pela implantação da mentalidade
preservacionista que tem impedido o desaparecimento de importantes
testemunhos do passado rio-pardense.
Contando com o incentivo do marido, morto
prematuramente, é que concluiu os estudos secundários e mais tarde os
superiores, na área de História, licenciando-se pela Universidade de São
Paulo.
Funcionária do Instituto de Previdência
do Estado de São Paulo e posteriormente do Arquivo do Estado, durante
certo período esteve comissionada na Casa de Cultura Euclides da Cunha,
graças ao empenho do diretor à época, Cléber José Ribeiro.
De origem humilde, em sua Carteira de
Trabalho, a que tive acesso para contratá-la como professora de nossa
Faculdade de Filosofia, está lá registrado seu primeiro emprego:
tecelã.
Pôde desenvolver intensas pesquisas não
só a respeito de Euclides, mas da cidade e da região. Elaborou tese de
mestrado em que estudou com profundidade e inédita base documental, que
buscara no Arquivo do Estado, a importância da presença de imigrantes
açorianos na cidade de Casa Branca. O título de seu trabalho, cuja
revisão final me coube efetuar, é Casa Branca: povoação de ilhéus
– aprovado com distinção por banca da USP.
Amélia Trevisan deu o devido valor a um
documento descoberto na Fazenda Tubaca e encaminhado à Prefeitura
Municipal por Eduardo Dias Roxo Nobre: tratava-se nada mais, nada menos
do que o livro de atas de fundação da freguesia de São José do Rio
Pardo. Poucas cidades poderão exibir igual certidão de nascimento. A
ata de 4 de abril de 1865 trata das primeiras providências para se levar
avante o intento.
O combativo jornal Resenha, de
Paschoal Artese, divulgou o achamento que mudou o curso de nossa própria
história. Infelizmente, já havia sido comemorado, a 19 de março de 1870,
o falso centenário da cidade, com pífios festejos de que fez parte até
um desfile de enferrujados carros de combate trazidos de Piraçununga...
Perguntei a ela o que, então, havia
acontecido a 19 de março de 1870. Sua resposta foi curta e seca:
“Historicamente, nada”.
Amélia Trevisan não só estudou a fundo o
livro de atas, mas estimulou de todos os modos que pessoas da cidade se
interessassem pela própria história da cidade. Dentre estas, merecem
especial referência Eduardo Dias Roxo Nobre, Rodolpho José Del Guerra e
Carmen Cecília Trovatto Maschietto, até hoje empenhadíssimas nessas
questões locais.
Tenho particular orgulho de haver
participado de alguns eventos que ganharam profundo significado na vida
rio-pardense:
1.
A fundação da Hemeroteca Jornalista Paschoal Artese,
inicialmente instalada em dependência da Faculdade de Filosofia em
gestão minha e depois anexada ao Museu Rio-Pardense, no velho prédio
(1886) da Câmara e Cadeia. O seu acervo de jornais, revistas e
fotografias é de incalculável valor.
2.
O projeto de lei de preservação do referido prédio, iniciativa
que contou com a decisiva participação do Grupo Amigos da Cidade.
3.
O projeto de lei, votado e aprovado pela Câmara e promulgado pelo
então prefeito Celso Amato (1982), que concentra as comemorações
relativas à fundação da cidade no dia 19 de março, em atendimento à
tradição religiosa da maioria da população, mas reconhece
oficialmente como data da fundação da cidade o dia 4 de abril de 1865.
Na redação dos dois projetos de lei,
louvei-me na veracidade histórico-documental estabelecida por Amélia
Trevisan. Sempre é bom lembrar que a preservação do prédio da Câmara e
Cadeia contrariou interesses pessoais de alguns vereadores. Um deles,
que preferia a demolição do casarão e o erguimento de um supermercado,
chegou a dizer que naquele local nada de importante ocorrera, ou
seja, que no seu entendimento a cidade não tinha história...
Com a aprovação de meu projeto,
ratificou-se a importância histórica da ata da fundação, que se inicia,
paradoxalmente, com uma prova de falsa erudição Com letras bordadas a
capricho, a frase inaugural do documento é Gloria in excelsis Deo
(Glória a Deus no mais alto dos céus), com excelsis erroneamente
grafado excelcis...
Tenho certeza de que a Prof.ª Amélia
Franzolin Trevisan, agraciada com o título de Guardiã da Memória
Rio-Pardense em 8 de agosto 2005, será merecidamente lembrada de
muitos modos e por muitas pessoas que reconhecem a importância de sua
presença e de sua influência no maneira correta de se lidar com fatos
históricos desta cidade. Curioso é que na mesma sessão de entrega do
honroso título, Manoel Roberto e Celinha recebiam o de Mérito
Euclidiano...
Infelizmente para o euclidianismo, já
temos dois nomes para serem relembrados na S.E. – 2008...

Amélia Trevisan, Negrinha
Bello, Marina Parisi Lauria e Adelino Brandão.
Foto tirada defronte à cabana de Euclides, em maio de 1985

Amélia Trevisan, Zina e
Moisés Gicovate. Foto sem data, tirada em minha casa.

Cerimônia de recebimento do
título de Cidadã Rio-Pardense por Amélia Trevisan, em 12 de agosto de
1980. Aparecem da direita para a esquerda: Luiz Braghetta Magalhães,
vice-prefeito; Luiz Carlos Pinto, delegado de Polícia; a homenageada;
Márcio José Lauria, presidente da Câmara; Richard Celso Amato, prefeito
municipal; José Roberto Vasconcellos, juiz de Direito; Vanildo Costa,
delegado do Serviço Militar. Em pé: Nélson de Ávila Ribeiro, funcionário
da Câmara.
06/10/2007
(emelauria@uol.com.br)
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