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TEXTOS SEMANA EUCLIDIANA 2008

 

EUCLIDES DA CUNHA –VITA BREVIS, MAS INTENSA

 

PROFESSOR MARCO GUMIERI

 

Estudar a trajetória de uma pessoa é uma possibilidade única, pois podemos, como observadores, analisar e acompanhar a vida que se foi e ao mesmo tempo reconstitui-la em nossas mentes.

E esta análise se torna ainda mais interessante quando se trata da vida de um dos nossos maiores escritores e que aos riopardenses, de uma maneira muito especial,  é tão familiar, pois desde os nossos primeiros anos de vida temos contato com o “fenômeno euclidiano”.

 Vale lembrar também, que um dos objetivos desse presente e humilde artigo é ilustrar a futura aula que será ministrada no Ciclo Euclidiano, não se atendo, portanto, a detalhes minuciosos da vida do escritor, que inclusive poderão ser estudados em obras já publicadas e consagradas:

Euclides Rodrigues Pimenta da Cunha - engenheiro, jornalista, professor, ensaísta, historiador, sociólogo, poeta e talvez o nosso primeiro ecólogo, nasceu na fazenda Saudade, no arraial de Santa Rita do Rio Negro (hoje, Euclidelândia), em Cantagalo (RJ). Era filho de Manuel Rodrigues Pimenta da Cunha e de Eudóxia Moreira da Cunha. Ficou órfão de mãe muito cedo, aos três anos de idade, indo morar com a sua tia Rosinda Gouveia. Poucos anos depois foi morar com uma outra tia: Laura Garcez. Então com oito anos de idade, Euclides foi estudar no excelente Colégio Caldeira, do exilado político português Francisco José Caldeira da Silva. Em 1877, juntamente com o pai, o adolescente Euclides mudou-se para Salvador, na Bahia. Em 1879, com 13 anos, voltou ao Rio, ficando sob os cuidados do tio, Antônio Pimenta da Cunha. Neste período estuda em quatro colégios: Anglo-Americano, Vitório da Costa, Meneses Vieira e Aquino. No último foi aluno de Benjamin Constant, que muito o influenciou. Nesta época escreveu artigos no jornalzinho escolar "O Democrata" e também elaborou a sua caderneta de poesias, que titulou "Ondas",  datada de 1884.

Em 1885, com 19 anos, optou  pela carreira de Engenharia,  iniciando o curso na Escola Politécnica do Rio de Janeiro. Logo depois se transferiu para a Escola Militar da Praia Vermelha, lá reencontrando como professor, Benjamin Constant, integrando-se no movimento republicano.

Foi como aluno da Escola Militar que Euclides da Cunha deu mostras do seu grande amor pela República: “ Em 4 de novembro, o ministro da Guerra, Tomás Coelho, visitava a Escola. Os alunos em forma, numa revista de mostra, "fuzis perfilados em continência nos ombros", com sabre engatado na espingarda, saudavam a autoridade monárquica. Ao passar diante do ardoroso jovem republicano, Euclides da Cunha, este atirou a arma aos pés do ministro (ou o sabre?). O fato é conhecido como "episódio do sabre". O ato de indisciplina levou o cadete à prisão, transferido, logo depois, para o Hospital Militar do Castelo, em respeito ao laudo médico que atestava esgotamento nervoso por excesso de estudo. Diante dos juízes, o destemido Euclides confirmou sua fé republicana, sendo então transferido para a Fortaleza de São João, aguardando conselho de guerra, cujo julgamento não se realizou, pela intervenção de muitos. D. Pedro II lhe perdoou. Em 11 de dezembro, foi cancelada sua matrícula.”  ( Conhecendo Euclides da Cunha – Professor Rodolpho José Del Guerra - Obra citada)

 Com o cancelamento da matrícula, Euclides vai para São Paulo, onde em dezembro de 1888 inicia a sua colaboração no jornal “A Província de S. Paulo". Em 1889, com a Proclamação da República, é reintegrado na Escola Militar, graças ao empenho dos professores Rondon e Benjamin Constant, sendo posteriormente promovido a alferes-aluno.

Em janeiro de 1890 matriculou-se na Escola Superior de Guerra, concluindo o Curso de Artilharia. Neste mesmo ano, publicou artigos no jornal "Democracia", de orientação republicana, onde criticou os rumos que a iniciante República estava tomando e casou-se com Anna Emília Ribeiro, filha do major Solon Ribeiro, que conheceu na sua casa durante encontros republicanos com seu pai. Numa das visitas deixou a ela um bilhete: "Entrei aqui com a imagem da República e parto com a sua imagem." Em 1891 concluiu o Curso da Escola Superior de Guerra, "de onde saiu com o título de Bacharel em Matemática, Ciências Físicas e Naturais." Em janeiro de 1892 foi promovido a primeiro-tenente e voltou a colaborar com o  jornal "O Estado de S. Paulo".  Em julho foi nomeado assistente de ensino técnico na Escola Militar da Praia Vermelha.

Em agosto de 1893, então com 27 anos e primeiro-tenente, iniciou o trabalho de um ano de prática na Estrada de Ferro Central do Brasil, após lhe ter sido oferecido  pelo Marechal Floriano Peixoto, então presidente do Brasil, e recusado de pronto por Euclides o cargo que quisesse.

Já em 1896, desencantado com a República e seus líderes, abandonou a carreira militar, sendo efetivado na Superintendência de Obras Públicas do Estado de São Paulo, como engenheiro-ajudante de 1ª classe.

Neste período foi autorizada a construção da ponte metálica em São José do Rio Pardo. Ganhou a concorrência o engenheiro Artur Pio Deschamps de Montmorency, brasileiro, nascido no Rio de Janeiro, em 1858, que concluiu os estudos de Engenharia Civil na Universidade de Gand (Bélgica), em 1879, com 21 anos, "com sólidas credenciais de competência e idoneidade". No entanto, a sua obra não resistiu muito, vindo a cair em 1900. Euclides da Cunha era o responsável pela fiscalização desta obra, no entanto, licenciou-se para atender o convite do seu amigo Júlio de Mesquita, diretor de "O Estado de S. Paulo", para seguir como repórter de guerra para Canudos, no sertão da Bahia. Lá acompanhou o final da guerra. Percebeu então que Canudos não era um foco monarquista, como havia pensado e até escrito anteriormente no próprio “O Estado de São Paulo” sob o artigo “A Nossa Vendéia”. Com o que acompanhou naquela guerra Euclides voltou determinado a vingar o extermínio de Canudos e o fez escrevendo Os Sertões.

 E foi exatamente neste período que Euclides encontrou o local ideal  para redigir o seu livro vingador. A bela ponte metálica alemã de São José do Rio Pardo ruiu 50 dias depois de inaugurada – no dia 23 de janeiro de 1898. Euclides, o engenheiro-fiscal, embora em licença desde agosto de 97, sentiu-se abalado, culpado. Cinco dias depois, dia 28, estava em São José, com o diretor Gama Cochrane e o engenheiro Carlos Wolkermann. Vieram a fim de verificar "in loco" o desastre e tentar salvar a ponte metálica. Euclides pediu ao seu superior que o deixasse reconstruir aquele monumento.

Em fevereiro de 1898, Euclides já estava residindo em São José – iniciando o período rio-pardense de sua vida que duraria até 1901. Nestes três anos em São José, Euclides trabalhou as suas duas grandes obras,  ponte e  o livro Os Sertões hoje centenários. Em São José, destacou-se entre os seus seletos amigos Francisco Escobar, que foi intendente deste município. Após intensos trabalhos as suas duas obras praticamente foram terminadas juntas. A ponte foi inaugurada no dia 18 de maio de 1901. E em dezembro de 1902 Os Sertões é lançado, alcançando grande sucesso de crítica. Em 21 de setembro de 1903 Euclides foi eleito membro da Academia Brasileira de Letras e, em 20 de novembro, tomou posse no Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo.

Em 15 de janeiro, o engenheiro-escritor foi nomeado engenheiro-fiscal das obras de saneamento de Santos. Pediu exoneração em 22 de abril. Em agosto de 1904, Euclides partiu para uma nova missão:  foi nomeado chefe da Comissão do Alto Purus. Regressou somente em 1906 e entregou o relatório ao Ministério do Exterior. Em 18 de dezembro, Euclides tomou posse na Academia Brasileira de Letras. Em 1909, Euclides prestou o concurso de Lógica do Colégio D. Pedro II, passando em 2º lugar. Tomou posse em 14 de julho. No entanto, sua carreira como professor acadêmico pouco durou, pois no dia 15 de agosto foi assassinado por Dilermando de Assis.

Obra: Os sertões, epopéia e ensaio (1902); Relatório da Comissão Mista Brasileiro-Peruana do Alto Purus (1906); Castro Alves e seu tempo, crítica (1907); Peru versus Bolívia (1907); Contrastes e confrontos, ensaio (1907); À margem da história, história (1909); Cartas de Euclides da Cunha a Machado de Assis, correspondência (1931); Canudos, diário (1939). Obra completa, org. Afrânio Coutinho, 2 vols. (1966).

 

DEL GUERRA, Rodolpho José – Conhecendo Euclides da Cunha – Ano 100 (1898-1998) – Coleção Municipal – Vol. II – 1998 – São José do Rio Pardo.

 GICOVATE, Moisés – Euclides da Cunha – Uma vida gloriosa – 3ª edição.

 

 

 

"ANÁLISE DE TEXTOS GEOGRÁFICOS DE OS SERTÕES"

PROFA. ROSÂNGELA APARECIDA GOMES PEREIRA

"A CAATINGA O AFOGA (AO VIAJANTE); ABREVIA-LHE O OLHAR; AGRIDE-O E ESTONTEIA-O; ENLAÇA-O NA TRAMA ESPINESCENTE; REPULSA-O COM AS FOLHAS URTICANTES."

EUCLIDES DA CUNHA

Entre os ambientes que caracterizam o nosso extenso território, o da caatinga constitui um dos mais singulares. Resultado da falta de uniformidade na precipitação e distribuição das chuvas, sua paisagem possui aspectos que a destacam daquelas de clima desértico em todo mundo. Para o naturalista que a contempla, há beleza nessa paisagem agressiva e rude; mas há, também muita tristeza, pala dificuldade que o homem da região, o sertanejo, encontra em domina-la e em retirar dela o seu sustento.

"... a secura da atmosfera atinge a graus anormalíssimos.

Não a observamos através do rigorismo de processos clássicos, mas graças a higrômetros inesperados e bizarros (higrômetros singulares)."

Euclides da Cunha

O clima do sertão é de grande instabilidade; excetuando-se a vila de Monte Santo, onde as oscilações do termômetro são menores, os contrastes impressionam: dias tórridos e noites geladas, com variantes cruéis de dias e noites igualmente quentes.

A secura da atmosfera foi atestada por "higrômetros singulares ou bizarros": os cadáveres insepultos de um soldado e um cavalo mortos na guerra, que depois de três meses estavam ainda em perfeito estado, apenas ressequidos como múmias.

"As mais das vezes cortado, fracionando-se em gânglios estagnados, ou seco, à maneira de larga estrada poenta e tortuosa, quando cresce, empazinado, nas cheias, captando as águas selvagens que estrepitam nos pendores, volve por algumas semanas águas barrentas e revoltas, extinguindo-se logo em esgotamento completo, vazando ... (Vaza-Barris)."

Euclides da Cunha

Estas terras (sertão) são recortadas por alguns rios transitórios que empazinam no tempo das chuvas (inverno), e perdem seu traçado nas secas (verão) transformando em esparsas poças de água. Destes o mais importante é o Vaza-Barris. Em uma de suas curvas está Canudos, o arraial, "um acervo de enormes casebres."

"O planalto central do Brasil desce, nos litorais do sul, em escarpas inteiriças, altas e abruptas ..."

Euclides da Cunha

Uma visão panorâmica do planalto central mostra que no Sul as maiores altitudes predominam no litoral; em Minas, as montanhas mais altas se interiorizam; à medida que se avança para o Norte, na Bahia, a par de algumas serras e montanhas esparsas, nota-se um aplainamento geral. A estrutura geológica e os agentes externos explicam esta diferenciação dos relevos.

 

 

C A N U D O S

(POEMA DRAMATIZADO PARA ALUNOS INICIANTES)

AUTOR: NICOLA S. COSTA

 

1° ATO

 

Cena 1: um velho vestido com roupão branco surrado, descalço, com cajado, barbas (ou não) e cabelos longos, está de costas para o público quando as luzes se acendem sobre o palco. O velho encara o público e diz:

* Neste cenário estranho

o drama aconteceu.

Aqui existiu Canudos

aqui nasceu e morreu .

* Nasceu e morreu depressa,

sem ter tempo prá viver.

Foi um sonho desvairado

que a vida fez logo morrer.

* Hoje só resta o silêncio

e uma lembrança terrível.

Mas não nos cabe perguntar

como isso foi possível.

* É hora de sabermos todos

com começo, meio e fim.

Fui testemunha de tudo

a História foi assim:

(fica num dos lados do palco)

Cena 2: Peregrinos e peregrinas caminham numa direção e outros peregrinos e peregrinas vêm na direção oposta. Cumprimentam-se e conversam.

- Peregrino 1: Ei, irmãos, prá onde vão?

De onde vem, nesta estrada ?

- Seguindo por este caminho

- nunca irão dar em nada.

-

- Peregrino 2: Viemos de muito longe,

- os caminhos sabemos de cór.

- Prá quem nada espera da vida,

- parado é muito pior.

-

- - Peregrino 3: E o que estão procurando

- neste lado do sertão?

- Água, comida, pousada,

- ou Terra da Promissão?

-

- - Peregrino 4: Nada deixemos lá atrás,

- nada queremos à frente.

- Queremos curar nossos males

- que a vida anda doente.

-

- - Peregrino 5: E que remédio existe

- se o Senhor nos esqueceu?

- Acaso podemos curar-nos

- e nem tudo se perdeu?

-

- - Peregrino 6: Deus não esqueceu de nós,

- afinal chegou nossa hora.

- Prô fundo deste sertão

- é que caminhamos agora.

-

- - Peregrino 7: Essa direção é ruim,

- o mar é prô outro lado.

- Caminhem prá lá, irmãos,

- esse caminho é o errado.

-

- - Peregrino 8: Esta não é a estrada errada,

- é a estrada certa, irmão.

- Lá o sertão vai virar mar

- e o mar vai virar sertão.

-

- - Peregrino 9: Que palavras esquisitas,

profecia de estranhar.

- Quem teria esse poder

- de ligar sertão e mar?

-

- - Peregrino 10: Perto do rio Vaza-Barris

- existe o arraial de Canudos.

- Ali enxergarão os cegos

- e também falarão os mudos.

-

- -. Peregrino 11: É terra de muitos milagres?

- É terra da Redenção?

- Naquela grande miséria

- Deus pôs a sua mão?

-

- - Peregrino 12: É tudo isso, companheiro,

- e muito mais do que pensa.

- Ali todos vivem em paz

- e sem nenhuma desavença.

-

- - Peregrino 13: Quem é que Deus escolheu

- para tão nobre missão?

- Quem é esse iluminado?

- Quem é esse bom cristão?

-

- - Peregrino 14: O nome desse homem é Antônio,

- de apelido Conselheiro.

- Pelos conselhos que dá

assim o chama o povo inteiro.

-

-Peregrino 15: Nós também não tínhamos rumo

e íamos na direção do mar.

Pedimos licença aos irmãos

Para podermos os acompanhar.

 

Peregrino 16: Louvado seja Jesus Cristo !

Louvado seja o Conselheiro !

Muitas almas estão salvas

E livres do cativeiro.

( Música dos peregrinos. Cada grupo canta uma quadra alternada)

Já sabemos o caminho

E a razão para existir.

Brilha a estrela no sertão

Quem quiser é só seguir.

- Nos ensine esse caminho

- por ele queremos seguir.

- Para encontrarmos a estrela

- que nos fará existir.

-

- Lá vamos nós desejando

- nova vida descobrir.

- Quem quiser acompanhar

- já é hora de partir.

-

- Partiremos todos juntos

- prô lado oposto do mar.

- Somos coxo caminhando

- cegos querendo enxergar.

-

- A ave do tempo voa

- e acaba a força do chão.

- Vamos voar prá plantar

- outro tempo no sertão.

-

- Queremos voar também,

- a ave não volta atrás.

- Queremos plantar também,

só quem planta colhe a paz.

(Todos saem. Black-out}

-

- Cena 3 - Os peregrinos chegam juntos a Canudos onde são recebidos por 3 canudenses:

-

- - Canudense 1: Sejam bem-vindos, irmãos,

em nome do Conselheiro.

- Sempre há lugar prá todos,

- aqui cabe o mundo inteiro.

-

- - Peregrino 1: Obrigado pela acolhida

- e pela compreensão.

- Trouxemos alguns bens

- que damos de coração.

-

- - Canudense 2: Aqui tudo é de todos,

- ninguém tem mais que ninguém.

- As coisas aqui nada valem,

- a alma é o único Bem.

-

- - Peregrino 2: Foi longa a caminhada,

- é hora de repousar.

- Me acompanhem, companheiros,

- é hora de descansar.

-

- - Canudense 3: Um momento, por favor,

- aí vem o Conselheiro.

- Louvado o Bom Jesus!

Louvado Deus altaneiro!

(O Conselheiro aparece cercado por homens e mulheres. Dirige-se aos recém-chegados com firmeza.)

-

- Estávamos à sua espera,

foi bom terem chegado.

Assim o Senhor quis

Assim estava destinado.

- Vim para anunciar a luz.

- um tempo feliz e novo.

- Vim trazer a esperança,

vim prá conduzir o povo

- Viver em paz desejamos

- em nome de Jesus Cristo

- O resto não interessa,

- só queremos saber disto.

-

- Vem aí o final dos tempos,

- os dias estão contados .

- Só os puros se salvarão,

- só os bons serão chamados.

-

- Seguindo as leis de Deus

- aqui todos ficaremos.

- E juntos, em comunhão,

- o caminho encontraremos.

-

- Aqui é o final da estrada

- e o começo da salvação.

- O sertão vai virar mar

- e o mar virar sertão.

-

- Perto do mar vivem homens

- seguindo a Lei do Cão,

- trilhando caminho errado,

- vivendo na perdição.

-

- Derrubaram D Pedro II

- do trono imperial.

- No seu lugar colocaram

- a república do Mal.

-

- Ao Mal resistiremos

- para que reine o Bem.

- Lutaremos para impedir

- que ele escravize alguém.

-

- As Leis do Senhor Altíssimo,

- as leis do Mal esmagarão.

- E em nosso socorro virá

- Deus com sua sábia mão.

-

- Dinheiro aqui nada vale,

- da terra tiramos comida,

- pois Deus nunca pôs preço

- nas coisas que dão a vida.

-

- E nos tempos ruins,

- de seca ou de inundação,

- o pouco repartiremos,

- irmão ajuda irmão.

-

- ~ Somos filhos do sertão,

- da seda e da caatinga.

- O que vem dos lados do mar

- chega aqui e não vinga.

-

- Entre o sertão e o mar

- há séculos de diferença.

- Parece que estamos pertos

- mas há uma distância imensa.

-

- Descansem da longa jornada,

- muitas outras viveremos.

- Muitos dias, muitas noites,

outro tempo encontraremos.

(Saem todos.)

-

- Cena 4: O velho fica no meio do palco e fala:

-

- Quanto mais Canudos crescia,

mais gente se inquietava,

- saía de terras longínquas

- e prá Canudos rumava

-

A Igreja Católica via aflita

tanta gente que partia.

Prá ela a multidão

seguia uma heresia.

Os fazendeiros também

sentiam-se prejudicados,

com o abandono das terras,

com os campos despovoados.

A Igreja e os fazendeiros

contra Canudos tramaram.

Entraram em conversação

e ao governo apelaram.

-

Cena 5: Padres e fazendeiros entram em cena e conversam.

-

- Fazendeiro I: Pois é, senhores padres,

- é difícil acreditar.

- São milhares de pessoas

- querendo nos abandonar.

-

- - Padre I: Querendo não, coronel,

- saindo pelos caminhos.

- Largando tudo e partindo

- por estradas de espinhos.

-

- - Fazendeiro I: Será grande o prejuízo

- e a lavoura arruinará.

- Sem esses trabalhadores

- todo fazendeiro falirá.

-

- - Padre 2: Pior é o desvio da fé

- que todos sofrem nas mentes.

- Viram cegos fanáticos,

- ficam com as almas doentes.

-

- - Fazendeiro 2: Que força estranha será

- que afeta essas pessoas?

- Que grande poder será

- que desvia vidas boas?

-

- - Padre 3: É o demônio, coronel,

- o que poderia ser?

- A ordem e a religião

- estão pondo a perder.

-

- - Fazendeiro 3: Canudos é um perigo

- juntando tantas pessoas.

- Quem saberá distinguir

- pessoas ruins das boas?

-

- - Padre 1: E se eles resolverem

- as propriedades atacar?

- Matando a quem resista

- e se pondo a pilhar?

-

- - Fazendeiro I: Não aceitam a república

- no lugar da monarquia.

- Querem o Império de volta

- no lugar da "anarquia".

-

- - Padre 2: Não querem as novas moedas

- nem o casamento civil.

- Não querem pagar impostos

- pró governo do Brasil.

-

- - Fazendeiro 2: O governo da Bahia

- precisa entrar em ação,

- acabar com o ajuntamento

- e dispersar a população.

-

- - Padre 3: O apoio da Igreja Católica

- será dado a tal missão,

para fazê-los voltar

à ordem e à religião.

-

- - Fazendeiro 3: Somos gratos à Igreja

- pela sua lealdade.

- Igreja e fazendeiros

- estão em fraternidade.

-

- Padre I: Vamos tomar providências

- junto ao governo baiano,

- pois o caso é delicado

- e pode causar muito dano.

-

- (Música dos padres e fazendeiros que cantarão juntos:)

-

- Canudos é um perigo

- para a vida do sertão.

- Devem voltar para trás

- e sair de onde estão.

-

- A ordem e o progresso

- não podem ameaçar.

- E antes que ameacem

- Canudos deve acabar.

-

- Igreja, lavoura e Governo

- nada precisam temer.

- A Canudos levaremos

- Fé, Ordem e Poder.

-

- Em nome dos fazendeiros,

- da Igreja e do Estado,

- Canudos deve acabar,

- ser um caso encerrado. (Saem)

-

Cena 6: Jagunços e jagunças de Canudos estão em cena com redes de dormir, enxadas, pás, rastelos, moringas, pilões, balaios, cabaças, sacos de estopa etc. Os jagunços simulam trabalho agrícola e as jagunças fazem trabalhos manuais.

- - Jagunço I: Como é bom viver aqui

- ao lado do Conselheiro,

- com gente de alma limpa

- que nem a do Padroeiro.

-

- - Jagunça I: Cada um faz sua parte,

- ninguém maltrata ninguém.

- Assim até sinto gosto,

- acho até que sou alguém.

-

- - Jagunço 2: Ouça só esse rumor

- do rio Vaza-Barris.

- Aqui até a Natureza

- parece que está feliz.

-

- - Jagunça 2: Pare um pouco o trabalho,

pare um pouco, irmão.

- Sente, descanse um pouco,

- enquanto prego este botão.

-

- - Jagunço 3: Esta enxada é muito boa,

- com ela guerreio e planto.

- E útil prá semear

- e arma prô nosso santo.

-

- - Jagunça 3: Aqui estão alguns frutos

- que a boa terra nos deu.

- Quem trabalhou e plantou

- a recompensa colheu.

-

- - Jagunço 4: Leve estas para os outros,

- com pouco seu me arranjar

- . Não pode haver desperdício,

- outros podem precisar.

-

Jagunça 4: Aqui tem água fresca,

Farinha e rapadura.

É pouco, mas pode ser muito,

Se bem usado isso dura.

-

- Jagunço 5: Vamos levar essas pedras

- prá Igreja do arraial.

- Ela nos protegerá

- contra os efeitos do Mal.

-

- - Jagunço 6: Eu fui homem do cangaço,

- muitos crimes cometi

- Em Canudos regenerei

- e o perdão consegui.

-

- - Jagunço 7: Fui ladrão e criminoso,

- muitos crimes pratiquei.

- Ao lado do Conselheiro

- noutro homem me tomei.

-

- - Jagunço 8: Cometi muitos pecados,

- era mais bicho que gente.

- Aqui junto ao Conselheiro

- curei minh ' alma doente.

- Jagunça 5: (entrando aflitamente)

Venham todos, por favor,

irmãos, depressa, irmãos.

- Soldados se aproximam

com muitas armas nas mãos.

(Todos se juntam).

-

- Cena 7: Entram soldados armados e mal encarados. O capitão fala:

-

- Capitão: Habitantes de Canudos!

- Ouçam com atenção!

- O governo decidiu

- e ninguém vai dizer não !

-

- Saiam todos de Canudos

- e voltem de onde vieram,

- prás terras que abandonaram,

prôs parentes que os esperam.

(Entra o Conselheiro)

-

- Levem tudo que puderem

- e queimem tudo que existe.

- Saiam daqui bem

- Canudos é muito triste.

-

- - Conselheiro: Se todos gostam daqui,

- por que não podemos ficar?

- Por que o governo baiano

- decidiu nos expulsar?

-

- - Capitão: As terras são do governo

- e isso foi uma invasão.

- Invadir o que não é seu

- isso é coisa de ladrão.

-

- - Conselheiro: Deus é o dono de tudo,

- o homem é o invasor.

- E quem se chama de dono

- está roubando o Senhor.

-

- - Capitão: Deus nada tem com isso,

- deixe de conversa fiada.

- Tratem de ir caminhando

- antes que usemos a espada.

-

- - Conselheiro: Daqui não arredamos pé

aqui queremos ficar.

- Daqui só sairemos

- se Nosso Senhor mandar.

-

- - Capitão: Essa gente só sei pela força,

- não adianta conversar.

- Soldados, preparem as armas,

- preparem para atacar!

-

( O soldados avançam, os jagunços lutam e matam os soldados.)

- - Jagunço I: Vencemos, irmãos, vencemos

- Viva Deus altaneiro!

- Viva o Bom Jesus!

- Viva Antônio Conselheiro!

-

- - Conselheiro: Um momento, ouçam,

- calma, irmãos, calma.

- É preciso não

- a luta cegar a alma.

-

- Foi triste o acontecido

- pois Deus assim desejou.

- Os que morreram subiram

- porque o Senhor os chamou.

-

- Os que ficaram no mundo

outras penas irão pagar.

- Até quando Deus quiser

- e enquanto ele deixar.

-

- Oremos pelos que partiram

- e pelos que partirão,

- pelos que hoje choram

- e pelos que chorarão.

-

- Os soldados vão voltar

- para tentar nos destruir.

- Canudos não vai acabar,

Canudos vai resistir.

(Saem)

-

 

 

- 2° A TO

-

Cena 8: O velho está só no palco e fala ao público.

- - O Velho: O sertão venceu o mar,

- Canudos venceu o Cão.

- Mas o mar se reergueu

- prá esmagar o sertão.

-

- o mar tinha mais forças,

- armas, homens e poder.

- Canudos vai resistir

- prô Cão não poder vencer.

-

- Lá vem os homens do mar

- de novo prá guerrear.

- Agora é tudo ou nada,

vem vindo para arrasar.

(Fica ao lado do palco)

-- Cena 9: Entram soldados sob o comando do coronel Moreira César.

-

- Sou o coronel Moreira César,

- comandante desta expedição.

- Destruir o arraial de Canudos

- é o fim da nossa missão.

-

- Temos canhões e fuzis,

- metralhadoras e balas,

- mil; e quinhentos soldados,

- batalhões, divisões e alas.

-

- Temos água e alimentos

- e muitas cabeças de gado.

- Em breve Canudos será

- um assunto liquidado.

-

- A vantagem do inimigo

- é lutar em sua terra.

- E a sua desvantagem

- é sermos soldados de guerra.

-

- Nós lutamos pela República

Canudos luta por um rei deposto.

- Canudos luta por D. Pedro II

- e nós por Floriano Peixoto.

-

Nós lutamos pela civilização,

Canudos luta pelo retrocesso.

Eles querem a barbárie,

nós queremos ordem e progresso.

-

soldado: Com licença, comandante,

fizemos um prisioneiro.

E ainda um menino

que luta pelo Conselheiro.

- M. César: Até as crianças lutam

seguindo esse "miolo-mole".

Interrogue-o depressa,

depois então o degole.

(Sai com os soldados)

Cena 10: Os jagunços e jagunças de Canudos entram cantando.

Lá vem o Corta-Cabeças,

lá vem os homens do Cão.

Canudos vai resistir,

jagunços de arma na mão.

O nosso bom Conselheiro

é a nossa salvação.

Fora daqui com o Mal,

fora com a lei do Cão.

Logo aqui se dará

a nossa libertação.

O sertão vai virar mar .

e o mar vIrar sertão.

Lá vem o Corta-Cabeças

lá vem os homens do Cão.

O nosso bom Conselheiro

é a nossa salvação.

-

Canudos vai resistir,

jagunços de armas na mão.

Fora daqui com o Mal,

fora com a Lei do Cão.

Lá vem o Corta-Cabeças,

lá vem os homens do Cão.

O sertão vai virar mar

e o mar virar sertão.

Logo aqui se dará

a nossa libertação.

O nosso bom Conselheiro

é a nossa salvação.

Cena II: Os soldados entram e lutam com os jagunços e jagunças. Misturam-se os gritos de "Viva a República!", "Viva o Conselheiro", "Viva a ordem e o progresso!" "Morte aos Corta-Cabeça". Moreira César é ferido e sai arrastado pelos soldados que fogem. Vários deles ficam mortos. Os jagunços vão se apossando das armas dos soldados. Os jagunços cantam:

Morreu o Corta-Cabeças

e os soldados do Cã.

Canudos já resistiu,

jagunços de armas na mão.

O nosso bom conselheiro

foi a nossa salvação.

Expulsou daqui o Mal

junto com a Lei do Cão.

-

Agora já começou

a nossa libertação.

O sertão já virou mar

e o mar virou sertão.

-

Morreu o Corta-Cabeças

e os soldados do Cão.

O nosso bom Conselheiro

foi a nossa salvação.

Canudos já resistiu,

jagunços de armas na mão.

Expulsou daqui o mal

junto com a Lei do Cão.

Morreu o Corta-Cabeças

e os soldados do Cão.

O sertão já virou mar

e o mar virou sertão.

(Saem os jagunços.)

Cena 12: O Velho dirige-se ao público e fala:

De novo o sertão ganhou

e a fúria do mar cresceu.

E com maior força ainda

sobre o sertão se abateu.

Foi preciso muito tempo

para aqui poder chegar,

pois o sertão resistiu

prá não deixar se afogar.

E o encontro foi terrível,

dois extremos se chocaram:

o seco sertão e o salgado mar,

mais uma vez se encontraram.

Um deles foi arrasado

para que o outro vivesse.

Não houve contemplação

e o fim de tudo foi esse.

(Fica ao lado do palco)

Cena 13: Entram soldados comandados pelo general Artur Oscar que fala ao público:

- Sou o general Artur Oscar,

comandante desta expedição.

Destruir o arraial de Canudos

é o fim da nossa missão.

Temos canhões e fuzis,

metralhadoras e balas,

mil; e quinhentos soldados,

batalhões, divisões e alas.

Temos água e alimentos

e muitas cabeças de gado.

Em breve Canudos será

um assunto liquidado.

 

A vantagem do inimigo

é lutar em sua terra.

E a sua desvantagem

é sermos soldados de guerra.

Nós lutamos pela República,

Canudos luta pela desordem.

Eles querem a barbárie,

e nós progresso e ordem.

Vingar nossos companheiros

a qualquer custo queremos.

Não perdoaremos ninguém

e vencedores seremos.

A ordem é destruir tudo

a ferro, faca e canhão.

A ordem é tudo matar

o que vive neste sertão.

Cena 14: Os jagunços e jagunças entram e lutam com os soldados. Repetem-se os gritos da batalha anterior. Os soldados matam todos os jagunços e jagunças.

- A. Oscar: Vencemos, soldados, vencemos!

- A República venceu!

- Destruam o que puderem,

- Canudos agora morreu!

-

- Ninguém deve viver

- prá contar o que viu.

- Canudos foi uma visão.

Canudos nunca existiu!

(Saem).

-

- Cena 15: O Velho fica no centro do palco e fala ao público.

-

- Canudos foi arrasado

- a bala, canhão e espada.

- Seu povo foi dizimado,

- ali não sobrou mais nada.

-

- Mas Canudos não morreu

- como pode parecer.

- Com outro nome existira,

- com outro vai aparecer.

-

- Conselheiro foi outro Zumbi,

- Canudos foi outro Palmares.

- Seus chefes e seguidores

- até no destino foram pares.

-

- Nas revoltas do Império,

- nos bandos de cangaceiros,

- já existiam muitos jagunços

- e muitos outros Conselheiros.

-

- Toda vez que no nordeste

- o povo se ergue e luta,

- é o nome de Canudos

- que o povo fala e escuta.

-

- Ninguém sabe onde e quando

- Canudos vai renascer.

- Com outro nome e forma,

- com outro chefe e poder.

-

- Talvez nos humildes casebres,

- talvez nas favelas urbanas,

- talvez nos alagadiços,

- talvez nas pobres choupanas.

-

- Não se iludam com o silêncio,

- que parece até de morte.

- E nessa nudez que a História

- vai tramando a sua sorte.

-

- Já estou vendo novos jagunços

- a pouca distância daqui.

- Outro Canudos está nascendo,

- muito perto, talvez aqui.

-

- Vou por aí procurar

- outro Canudos que começou.

- Nosso drama continua,

- só parece que acabou...

-

(Após a saída do velho entra lentamente Euclides da Cunha que observa tudo com atenção. Numa das mãos segura um exemplar de «Os Sertões" e na outra uma réplica da ponte construída sobre o rio Pardo. Dirige-se ao público e diz o seguinte: ) /

- Após a guerra de Canudos

- para São José do Rio Pardo vim.

- Uma ponte fui construindo

- mas outras estavam em mim.

-

- E uma estranha metamorfose

- foi então tudo transformando.

- O que lá no sertão ficou

- aqui eu fui sublimando

-

- As serras de Belo Monte

- nas serras daqui se tomaram.

- Lá elas viram a guerra,

- aqui com a paz me brindaram.

-

- O rio Vaza-Barris

- no rio Pardo se tornou.

- O sangue que lá correu

- aqui em tinta se transformou.

-

- Os casebres do sertão

- viraram a minha pequena cabana.

- As cinzas por lá ficaram,

- mas eu trouxe todas as chamas.

-

- Solidão senti no sertão

- quando por lá andei .

- Aqui tive um amigo

- pois Escobar encontrei.

-

- Enquanto do papel saía a ponte

- e se transformava em metal,

- ao lado dela eu escrevia

- seu irmão gêmeo, quase igual.

-

- O livro que aqui escrevi

- de nosso passado é produto,

- é alerta para o presente

- e lição para o futuro!

-

- A guerra tirei da amnésia

- para deixar na memória,

- pois o que os homens fizeram.

- não é mais deles, é da História.

-

- Estou em todos os lugares,

- quer saber se me encontrou?

- Se leu meu livro me viu,

- se olhou a ponte me achou! (Sai) ,

-

(O elenco começa a cantar a música final com a letra abaixo enquanto o elenco entra no palco.)

- Canudos renascerá

- ninguém sabe onde e quando.

- Esse dia chegará

- parece que já vai chegando.

- Enquanto o dia não chega

- é bom ir se preparando.

- Já escuto a voz no ar

- do Conselheiro no sertão:

- O sertão vai virar mar

- e o mar virar sertão.

 

***