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C A N U D O S
(POEMA DRAMATIZADO PARA ALUNOS INICIANTES)
AUTOR: NICOLA S. COSTA
1° ATO
Cena 1: um velho vestido com roupão branco surrado, descalço, com
cajado, barbas (ou não) e cabelos longos, está de costas para o público
quando as luzes se acendem sobre o palco. O velho encara o público e
diz:
* Neste cenário estranho
o drama aconteceu.
Aqui existiu Canudos
aqui nasceu e morreu .
* Nasceu e morreu depressa,
sem ter tempo prá viver.
Foi um sonho desvairado
que a vida fez logo morrer.
* Hoje só resta o silêncio
e uma lembrança terrível.
Mas não nos cabe perguntar
como isso foi possível.
* É hora de sabermos todos
com começo, meio e fim.
Fui testemunha de tudo
a História foi assim:
(fica num dos lados do palco)
Cena 2: Peregrinos e peregrinas caminham numa direção
e outros peregrinos e peregrinas vêm na direção oposta. Cumprimentam-se
e conversam.
- Peregrino 1: Ei, irmãos, prá onde vão?
De onde vem, nesta estrada ?
- Seguindo por este caminho
- nunca irão dar em nada.
-
- Peregrino 2: Viemos de muito longe,
- os caminhos sabemos de cór.
- Prá quem nada espera da vida,
- parado é muito pior.
-
- - Peregrino 3: E o que estão procurando
- neste lado do sertão?
- Água, comida, pousada,
- ou Terra da Promissão?
-
- - Peregrino 4: Nada deixemos lá atrás,
- nada queremos à frente.
- Queremos curar nossos males
- que a vida anda doente.
-
- - Peregrino 5: E que remédio existe
- se o Senhor nos esqueceu?
- Acaso podemos curar-nos
- e nem tudo se perdeu?
-
- - Peregrino 6: Deus não esqueceu de nós,
- afinal chegou nossa hora.
- Prô fundo deste sertão
- é que caminhamos agora.
-
- - Peregrino 7: Essa direção é ruim,
- o mar é prô outro lado.
- Caminhem prá lá, irmãos,
- esse caminho é o errado.
-
- - Peregrino 8: Esta não é a estrada errada,
- é a estrada certa, irmão.
- Lá o sertão vai virar mar
- e o mar vai virar sertão.
-
- - Peregrino 9: Que palavras esquisitas,
profecia de estranhar.
- Quem teria esse poder
- de ligar sertão e mar?
-
- - Peregrino 10: Perto do rio Vaza-Barris
- existe o arraial de Canudos.
- Ali enxergarão os cegos
- e também falarão os mudos.
-
- -. Peregrino 11: É terra de muitos milagres?
- É terra da Redenção?
- Naquela grande miséria
- Deus pôs a sua mão?
-
- - Peregrino 12: É tudo isso, companheiro,
- e muito mais do que pensa.
- Ali todos vivem em paz
- e sem nenhuma desavença.
-
- - Peregrino 13: Quem é que Deus escolheu
- para tão nobre missão?
- Quem é esse iluminado?
- Quem é esse bom cristão?
-
- - Peregrino 14: O nome desse homem é Antônio,
- de apelido Conselheiro.
- Pelos conselhos que dá
assim o chama o povo inteiro.
-
-Peregrino 15: Nós também não tínhamos rumo
e íamos na direção do mar.
Pedimos licença aos irmãos
Para podermos os acompanhar.
Peregrino 16: Louvado seja Jesus Cristo !
Louvado seja o Conselheiro !
Muitas almas estão salvas
E livres do cativeiro.
( Música dos peregrinos. Cada grupo canta uma quadra
alternada)
Já sabemos o caminho
E a razão para existir.
Brilha a estrela no sertão
Quem quiser é só seguir.
- Nos ensine esse caminho
- por ele queremos seguir.
- Para encontrarmos a estrela
- que nos fará existir.
-
- Lá vamos nós desejando
- nova vida descobrir.
- Quem quiser acompanhar
- já é hora de partir.
-
- Partiremos todos juntos
- prô lado oposto do mar.
- Somos coxo caminhando
- cegos querendo enxergar.
-
- A ave do tempo voa
- e acaba a força do chão.
- Vamos voar prá plantar
- outro tempo no sertão.
-
- Queremos voar também,
- a ave não volta atrás.
- Queremos plantar também,
só quem planta colhe a paz.
(Todos saem. Black-out}
-
- Cena 3 - Os peregrinos chegam juntos a Canudos onde
são recebidos por 3 canudenses:
-
- - Canudense 1: Sejam bem-vindos, irmãos,
em nome do Conselheiro.
- Sempre há lugar prá todos,
- aqui cabe o mundo inteiro.
-
- - Peregrino 1: Obrigado pela acolhida
- e pela compreensão.
- Trouxemos alguns bens
- que damos de coração.
-
- - Canudense 2: Aqui tudo é de todos,
- ninguém tem mais que ninguém.
- As coisas aqui nada valem,
- a alma é o único Bem.
-
- - Peregrino 2: Foi longa a caminhada,
- é hora de repousar.
- Me acompanhem, companheiros,
- é hora de descansar.
-
- - Canudense 3: Um momento, por favor,
- aí vem o Conselheiro.
- Louvado o Bom Jesus!
Louvado Deus altaneiro!
(O Conselheiro aparece cercado por homens e mulheres.
Dirige-se aos recém-chegados com firmeza.)
-
- Estávamos à sua espera,
foi bom terem chegado.
Assim o Senhor quis
Assim estava destinado.
- Vim para anunciar a luz.
- um tempo feliz e novo.
- Vim trazer a esperança,
vim prá conduzir o povo
- Viver em paz desejamos
- em nome de Jesus Cristo
- O resto não interessa,
- só queremos saber disto.
-
- Vem aí o final dos tempos,
- os dias estão contados .
- Só os puros se salvarão,
- só os bons serão chamados.
-
- Seguindo as leis de Deus
- aqui todos ficaremos.
- E juntos, em comunhão,
- o caminho encontraremos.
-
- Aqui é o final da estrada
- e o começo da salvação.
- O sertão vai virar mar
- e o mar virar sertão.
-
- Perto do mar vivem homens
- seguindo a Lei do Cão,
- trilhando caminho errado,
- vivendo na perdição.
-
- Derrubaram D Pedro II
- do trono imperial.
- No seu lugar colocaram
- a república do Mal.
-
- Ao Mal resistiremos
- para que reine o Bem.
- Lutaremos para impedir
- que ele escravize alguém.
-
- As Leis do Senhor Altíssimo,
- as leis do Mal esmagarão.
- E em nosso socorro virá
- Deus com sua sábia mão.
-
- Dinheiro aqui nada vale,
- da terra tiramos comida,
- pois Deus nunca pôs preço
- nas coisas que dão a vida.
-
- E nos tempos ruins,
- de seca ou de inundação,
- o pouco repartiremos,
- irmão ajuda irmão.
-
- ~ Somos filhos do sertão,
- da seda e da caatinga.
- O que vem dos lados do mar
- chega aqui e não vinga.
-
- Entre o sertão e o mar
- há séculos de diferença.
- Parece que estamos pertos
- mas há uma distância imensa.
-
- Descansem da longa jornada,
- muitas outras viveremos.
- Muitos dias, muitas noites,
outro tempo encontraremos.
(Saem todos.)
-
- Cena 4: O velho fica no meio do palco e fala:
-
- Quanto mais Canudos crescia,
mais gente se inquietava,
- saía de terras longínquas
- e prá Canudos rumava
-
A Igreja Católica via aflita
tanta gente que partia.
Prá ela a multidão
seguia uma heresia.
Os fazendeiros também
sentiam-se prejudicados,
com o abandono das terras,
com os campos despovoados.
A Igreja e os fazendeiros
contra Canudos tramaram.
Entraram em conversação
e ao governo apelaram.
-
Cena 5: Padres e fazendeiros entram em cena e
conversam.
-
- Fazendeiro I: Pois é, senhores padres,
- é difícil acreditar.
- São milhares de pessoas
- querendo nos abandonar.
-
- - Padre I: Querendo não, coronel,
- saindo pelos caminhos.
- Largando tudo e partindo
- por estradas de espinhos.
-
- - Fazendeiro I: Será grande o prejuízo
- e a lavoura arruinará.
- Sem esses trabalhadores
- todo fazendeiro falirá.
-
- - Padre 2: Pior é o desvio da fé
- que todos sofrem nas mentes.
- Viram cegos fanáticos,
- ficam com as almas doentes.
-
- - Fazendeiro 2: Que força estranha será
- que afeta essas pessoas?
- Que grande poder será
- que desvia vidas boas?
-
- - Padre 3: É o demônio, coronel,
- o que poderia ser?
- A ordem e a religião
- estão pondo a perder.
-
- - Fazendeiro 3: Canudos é um perigo
- juntando tantas pessoas.
- Quem saberá distinguir
- pessoas ruins das boas?
-
- - Padre 1: E se eles resolverem
- as propriedades atacar?
- Matando a quem resista
- e se pondo a pilhar?
-
- - Fazendeiro I: Não aceitam a república
- no lugar da monarquia.
- Querem o Império de volta
- no lugar da "anarquia".
-
- - Padre 2: Não querem as novas moedas
- nem o casamento civil.
- Não querem pagar impostos
- pró governo do Brasil.
-
- - Fazendeiro 2: O governo da Bahia
- precisa entrar em ação,
- acabar com o ajuntamento
- e dispersar a população.
-
- - Padre 3: O apoio da Igreja Católica
- será dado a tal missão,
para fazê-los voltar
à ordem e à religião.
-
- - Fazendeiro 3: Somos gratos à Igreja
- pela sua lealdade.
- Igreja e fazendeiros
- estão em fraternidade.
-
- Padre I: Vamos tomar providências
- junto ao governo baiano,
- pois o caso é delicado
- e pode causar muito dano.
-
- (Música dos padres e fazendeiros que cantarão
juntos:)
-
- Canudos é um perigo
- para a vida do sertão.
- Devem voltar para trás
- e sair de onde estão.
-
- A ordem e o progresso
- não podem ameaçar.
- E antes que ameacem
- Canudos deve acabar.
-
- Igreja, lavoura e Governo
- nada precisam temer.
- A Canudos levaremos
- Fé, Ordem e Poder.
-
- Em nome dos fazendeiros,
- da Igreja e do Estado,
- Canudos deve acabar,
- ser um caso encerrado. (Saem)
-
Cena 6: Jagunços e jagunças de Canudos estão em cena
com redes de dormir, enxadas, pás, rastelos, moringas, pilões, balaios,
cabaças, sacos de estopa etc. Os jagunços simulam trabalho agrícola e as
jagunças fazem trabalhos manuais.
- - Jagunço I: Como é bom viver aqui
- ao lado do Conselheiro,
- com gente de alma limpa
- que nem a do Padroeiro.
-
- - Jagunça I: Cada um faz sua parte,
- ninguém maltrata ninguém.
- Assim até sinto gosto,
- acho até que sou alguém.
-
- - Jagunço 2: Ouça só esse rumor
- do rio Vaza-Barris.
- Aqui até a Natureza
- parece que está feliz.
-
- - Jagunça 2: Pare um pouco o trabalho,
pare um pouco, irmão.
- Sente, descanse um pouco,
- enquanto prego este botão.
-
- - Jagunço 3: Esta enxada é muito boa,
- com ela guerreio e planto.
- E útil prá semear
- e arma prô nosso santo.
-
- - Jagunça 3: Aqui estão alguns frutos
- que a boa terra nos deu.
- Quem trabalhou e plantou
- a recompensa colheu.
-
- - Jagunço 4: Leve estas para os outros,
- com pouco seu me arranjar
- . Não pode haver desperdício,
- outros podem precisar.
-
Jagunça 4: Aqui tem água fresca,
Farinha e rapadura.
É pouco, mas pode ser muito,
Se bem usado isso dura.
-
- Jagunço 5: Vamos levar essas pedras
- prá Igreja do arraial.
- Ela nos protegerá
- contra os efeitos do Mal.
-
- - Jagunço 6: Eu fui homem do cangaço,
- muitos crimes cometi
- Em Canudos regenerei
- e o perdão consegui.
-
- - Jagunço 7: Fui ladrão e criminoso,
- muitos crimes pratiquei.
- Ao lado do Conselheiro
- noutro homem me tomei.
-
- - Jagunço 8: Cometi muitos pecados,
- era mais bicho que gente.
- Aqui junto ao Conselheiro
- curei minh ' alma doente.
- Jagunça 5: (entrando aflitamente)
Venham todos, por favor,
irmãos, depressa, irmãos.
- Soldados se aproximam
com muitas armas nas mãos.
(Todos se juntam).
-
- Cena 7: Entram soldados armados e mal encarados. O
capitão fala:
-
- Capitão: Habitantes de Canudos!
- Ouçam com atenção!
- O governo decidiu
- e ninguém vai dizer não !
-
- Saiam todos de Canudos
- e voltem de onde vieram,
- prás terras que abandonaram,
prôs parentes que os esperam.
(Entra o Conselheiro)
-
- Levem tudo que puderem
- e queimem tudo que existe.
- Saiam daqui bem
- Canudos é muito triste.
-
- - Conselheiro: Se todos gostam daqui,
- por que não podemos ficar?
- Por que o governo baiano
- decidiu nos expulsar?
-
- - Capitão: As terras são do governo
- e isso foi uma invasão.
- Invadir o que não é seu
- isso é coisa de ladrão.
-
- - Conselheiro: Deus é o dono de tudo,
- o homem é o invasor.
- E quem se chama de dono
- está roubando o Senhor.
-
- - Capitão: Deus nada tem com isso,
- deixe de conversa fiada.
- Tratem de ir caminhando
- antes que usemos a espada.
-
- - Conselheiro: Daqui não arredamos pé
aqui queremos ficar.
- Daqui só sairemos
- se Nosso Senhor mandar.
-
- - Capitão: Essa gente só sei pela força,
- não adianta conversar.
- Soldados, preparem as armas,
- preparem para atacar!
-
( O soldados avançam, os jagunços lutam e matam os
soldados.)
- - Jagunço I: Vencemos, irmãos, vencemos
- Viva Deus altaneiro!
- Viva o Bom Jesus!
- Viva Antônio Conselheiro!
-
- - Conselheiro: Um momento, ouçam,
- calma, irmãos, calma.
- É preciso não
- a luta cegar a alma.
-
- Foi triste o acontecido
- pois Deus assim desejou.
- Os que morreram subiram
- porque o Senhor os chamou.
-
- Os que ficaram no mundo
outras penas irão pagar.
- Até quando Deus quiser
- e enquanto ele deixar.
-
- Oremos pelos que partiram
- e pelos que partirão,
- pelos que hoje choram
- e pelos que chorarão.
-
- Os soldados vão voltar
- para tentar nos destruir.
- Canudos não vai acabar,
Canudos vai resistir.
(Saem)
-
- 2° A TO
-
Cena 8: O velho está só no palco e fala ao público.
- - O Velho: O sertão venceu o mar,
- Canudos venceu o Cão.
- Mas o mar se reergueu
- prá esmagar o sertão.
-
- o mar tinha mais forças,
- armas, homens e poder.
- Canudos vai resistir
- prô Cão não poder vencer.
-
- Lá vem os homens do mar
- de novo prá guerrear.
- Agora é tudo ou nada,
vem vindo para arrasar.
(Fica ao lado do palco)
-- Cena 9: Entram soldados sob o comando do coronel
Moreira César.
-
- Sou o coronel Moreira César,
- comandante desta expedição.
- Destruir o arraial de Canudos
- é o fim da nossa missão.
-
- Temos canhões e fuzis,
- metralhadoras e balas,
- mil; e quinhentos soldados,
- batalhões, divisões e alas.
-
- Temos água e alimentos
- e muitas cabeças de gado.
- Em breve Canudos será
- um assunto liquidado.
-
- A vantagem do inimigo
- é lutar em sua terra.
- E a sua desvantagem
- é sermos soldados de guerra.
-
- Nós lutamos pela República
Canudos luta por um rei deposto.
- Canudos luta por D. Pedro II
- e nós por Floriano Peixoto.
-
Nós lutamos pela civilização,
Canudos luta pelo retrocesso.
Eles querem a barbárie,
nós queremos ordem e progresso.
-
soldado: Com licença, comandante,
fizemos um prisioneiro.
E ainda um menino
que luta pelo Conselheiro.
- M. César: Até as crianças lutam
seguindo esse "miolo-mole".
Interrogue-o depressa,
depois então o degole.
(Sai com os soldados)
Cena 10: Os jagunços e jagunças de Canudos entram
cantando.
Lá vem o Corta-Cabeças,
lá vem os homens do Cão.
Canudos vai resistir,
jagunços de arma na mão.
O nosso bom Conselheiro
é a nossa salvação.
Fora daqui com o Mal,
fora com a lei do Cão.
Logo aqui se dará
a nossa libertação.
O sertão vai virar mar .
e o mar vIrar sertão.
Lá vem o Corta-Cabeças
lá vem os homens do Cão.
O nosso bom Conselheiro
é a nossa salvação.
-
Canudos vai resistir,
jagunços de armas na mão.
Fora daqui com o Mal,
fora com a Lei do Cão.
Lá vem o Corta-Cabeças,
lá vem os homens do Cão.
O sertão vai virar mar
e o mar virar sertão.
Logo aqui se dará
a nossa libertação.
O nosso bom Conselheiro
é a nossa salvação.
Cena II: Os soldados entram e lutam com os jagunços e
jagunças. Misturam-se os gritos de "Viva a República!", "Viva o
Conselheiro", "Viva a ordem e o progresso!" "Morte aos Corta-Cabeça".
Moreira César é ferido e sai arrastado pelos soldados que fogem. Vários
deles ficam mortos. Os jagunços vão se apossando das armas dos soldados.
Os jagunços cantam:
Morreu o Corta-Cabeças
e os soldados do Cã.
Canudos já resistiu,
jagunços de armas na mão.
O nosso bom conselheiro
foi a nossa salvação.
Expulsou daqui o Mal
junto com a Lei do Cão.
-
Agora já começou
a nossa libertação.
O sertão já virou mar
e o mar virou sertão.
-
Morreu o Corta-Cabeças
e os soldados do Cão.
O nosso bom Conselheiro
foi a nossa salvação.
Canudos já resistiu,
jagunços de armas na mão.
Expulsou daqui o mal
junto com a Lei do Cão.
Morreu o Corta-Cabeças
e os soldados do Cão.
O sertão já virou mar
e o mar virou sertão.
(Saem os jagunços.)
Cena 12: O Velho dirige-se ao público e fala:
De novo o sertão ganhou
e a fúria do mar cresceu.
E com maior força ainda
sobre o sertão se abateu.
Foi preciso muito tempo
para aqui poder chegar,
pois o sertão resistiu
prá não deixar se afogar.
E o encontro foi terrível,
dois extremos se chocaram:
o seco sertão e o salgado mar,
mais uma vez se encontraram.
Um deles foi arrasado
para que o outro vivesse.
Não houve contemplação
e o fim de tudo foi esse.
(Fica ao lado do palco)
Cena 13: Entram soldados comandados pelo general Artur
Oscar que fala ao público:
- Sou o general Artur Oscar,
comandante desta expedição.
Destruir o arraial de Canudos
é o fim da nossa missão.
Temos canhões e fuzis,
metralhadoras e balas,
mil; e quinhentos soldados,
batalhões, divisões e alas.
Temos água e alimentos
e muitas cabeças de gado.
Em breve Canudos será
um assunto liquidado.
A vantagem do inimigo
é lutar em sua terra.
E a sua desvantagem
é sermos soldados de guerra.
Nós lutamos pela República,
Canudos luta pela desordem.
Eles querem a barbárie,
e nós progresso e ordem.
Vingar nossos companheiros
a qualquer custo queremos.
Não perdoaremos ninguém
e vencedores seremos.
A ordem é destruir tudo
a ferro, faca e canhão.
A ordem é tudo matar
o que vive neste sertão.
Cena 14: Os jagunços e jagunças entram e lutam com os
soldados. Repetem-se os gritos da batalha anterior. Os soldados matam
todos os jagunços e jagunças.
- A. Oscar: Vencemos, soldados, vencemos!
- A República venceu!
- Destruam o que puderem,
- Canudos agora morreu!
-
- Ninguém deve viver
- prá contar o que viu.
- Canudos foi uma visão.
Canudos nunca existiu!
(Saem).
-
- Cena 15: O Velho fica no centro do palco e fala ao
público.
-
- Canudos foi arrasado
- a bala, canhão e espada.
- Seu povo foi dizimado,
- ali não sobrou mais nada.
-
- Mas Canudos não morreu
- como pode parecer.
- Com outro nome existira,
- com outro vai aparecer.
-
- Conselheiro foi outro Zumbi,
- Canudos foi outro Palmares.
- Seus chefes e seguidores
- até no destino foram pares.
-
- Nas revoltas do Império,
- nos bandos de cangaceiros,
- já existiam muitos jagunços
- e muitos outros Conselheiros.
-
- Toda vez que no nordeste
- o povo se ergue e luta,
- é o nome de Canudos
- que o povo fala e escuta.
-
- Ninguém sabe onde e quando
- Canudos vai renascer.
- Com outro nome e forma,
- com outro chefe e poder.
-
- Talvez nos humildes casebres,
- talvez nas favelas urbanas,
- talvez nos alagadiços,
- talvez nas pobres choupanas.
-
- Não se iludam com o silêncio,
- que parece até de morte.
- E nessa nudez que a História
- vai tramando a sua sorte.
-
- Já estou vendo novos jagunços
- a pouca distância daqui.
- Outro Canudos está nascendo,
- muito perto, talvez aqui.
-
- Vou por aí procurar
- outro Canudos que começou.
- Nosso drama continua,
- só parece que acabou...
-
( Após
a saída do velho entra lentamente Euclides da Cunha que observa tudo com
atenção. Numa das mãos segura um exemplar de «Os Sertões" e na outra uma
réplica da ponte construída sobre o rio Pardo. Dirige-se ao público e
diz o seguinte: ) /
- Após a guerra de Canudos
- para São José do Rio Pardo vim.
- Uma ponte fui construindo
- mas outras estavam em mim.
-
- E uma estranha metamorfose
- foi então tudo transformando.
- O que lá no sertão ficou
- aqui eu fui sublimando
-
- As serras de Belo Monte
- nas serras daqui se tomaram.
- Lá elas viram a guerra,
- aqui com a paz me brindaram.
-
- O rio Vaza-Barris
- no rio Pardo se tornou.
- O sangue que lá correu
- aqui em tinta se transformou.
-
- Os casebres do sertão
- viraram a minha pequena cabana.
- As cinzas por lá ficaram,
- mas eu trouxe todas as chamas.
-
- Solidão senti no sertão
- quando por lá andei .
- Aqui tive um amigo
- pois Escobar encontrei.
-
- Enquanto do papel saía a ponte
- e se transformava em metal,
- ao lado dela eu escrevia
- seu irmão gêmeo, quase igual.
-
- O livro que aqui escrevi
- de nosso passado é produto,
- é alerta para o presente
- e lição para o futuro!
-
- A guerra tirei da amnésia
- para deixar na memória,
- pois o que os homens fizeram.
- não é mais deles, é da História.
-
- Estou em todos os lugares,
- quer saber se me encontrou?
- Se leu meu livro me viu,
- se olhou a ponte me achou! (Sai) ,
-
(O elenco começa a cantar a música final com a letra
abaixo enquanto o elenco entra no palco.)
- Canudos renascerá
- ninguém sabe onde e quando.
- Esse dia chegará
- parece que já vai chegando.
- Enquanto o dia não chega
- é bom ir se preparando.
- Já escuto a voz no ar
- do Conselheiro no sertão:
- O sertão vai virar mar
- e o mar virar sertão.
*** |