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MANOEL BENÍCIO E O SEU "O REI DOS JAGUNÇOS"
Alexandre Azevedo
Três anos antes de Euclides da Cunha publicar o livro
que o consagraria como um dos grandes nomes da Literatura Brasileira, o
repórter do Jornal do Commercio, um ex-combatente do Exército
republicando em Canudos, publicou, sob as expensas do próprio jornal em
que havia ingressado (após largar a patente de capitão e,
conseqüentemente, a quarta expedição, por não concordar com as
estratégias dos seus comandantes que marchavam em direção a Belo Monte),
como correspondente-de-guerra, o seu romance-reportagem, "O Rei dos
Jagunços". Tratava-se de Manoel Benício. O ano era o de 1899, o mesmo em
que Euclides da Cunha chegava a São José do Rio Pardo (SP), com a
incumbência de recuperar a ponte metálica que havia emborcado, cinqüenta
dias após à sua inauguração. Ali, o engenheiro-repórter daria também
início a uma das maiores obras já escritas em nossa literatura: "Os
Sertões"(1902). Finalizado seu livro-vingador, Euclides da Cunha não
teve a mesma sorte que Manoel Benício: o jornal O Estado de S. Paulo,
que enviara Euclides da Cunha ao sertão baiano para cobrir o final da
guerra, achou por bem não publicá-lo. Só depois de muito procurar
encontrou a editora Laemmert que custearia metade da edição, ficando a
outra a cargo do próprio autor, despendendo-se dos seus parcos
vencimentos.
Mas ao contrário de seu colega de profissão, o
repórter Manoel Benício não tinha a ambição da imortalidade intelectual,
tampouco a vaidade que, consciente ou inconscientemente, de repente, sem
menos esperar, incrusta na alma de um escritor. Essa confissão está
estampada na "Prenoção" (noção antecipada, vaga, indecisa) do seu livro:
Abastado de provas e documentos, meti ombros à
tarefa, valendo-me às vezes de publicações oficiais que aludiam ao caso
discorrido.
Deste modo organizei a presente obra em linguagem chã
e brasileira, saturada da sintaxe e vocábulos adotados pelos nossos
sertanejos, dando eu ao complexo um tom de romance (guardada a maior
fidelidade histórica), pensando assim amenizar a aspereza do assunto e o
enfaro de descrições enfadonhas de quem não tem estilo.
Tive pouco tempo de escrever e pouca paciência para,
depois de ter escrito a obra, refundi-la em tom melhor – tarefa
fatigante e intolerável aos que escrevem despreocupados da fama em
clássico português.
E só por este lado haverá protestação indestrutível
(M. Benício).
Neste trecho final, ficam evidentes as diferenças
entre os dois repórteres. Manoel Benício, usando de toda sinceridade,
adverte, de antemão, o leitor de que este não encontrará nas duzentas e
tantas páginas que enfeixam a sua obra, uma narrativa saída da pena de
exímio escritor. O seu estilo é coloquial, brasileiro, bem distante
daquele barroco-científico, assim assustadoramente batizada a linguagem
de "Os Sertões". Declarando-se um escritor sem a paciência para a
lapidação do texto, ávido por terminar a obra e dela livrar-se como quem
se livra de uma tarefa extremamente fatigante, Manoel Benício passa bem
longe daquela busca obstinada pela perfeição, que marcou a fase em que
Euclides da Cunha escrevia a sua obra (e, até mesmo depois de concluída,
que com a sua paciência-de-Jó, consertou os oitenta e oito erros
tipográficos que "enfeavam" a sua obra-prima). Se difícil é classificar
"Os Sertões" (para muitos, um romance histórico), a mesma dificuldade
encontramos para "O Rei dos Jagunços". Romance-reportagem seria uma
saída rápida e pela esquerda, como diria o famoso Leão-da-montanha,
porque de romance mesmo pouco há. E que aqui fique bem entendido o
sentido de romance, aquele tipo de texto de maior fôlego que a
literatura tem em prosa e que preza pela qualidade literária. E se o
leitor conseguir a obra, não a lançada em 1899 (mas caso a tenha,
guarde-a bem guardada, pois é uma raridade), mas a 2ª edição, publicada
em 1997 (em comemoração ao centenário da Guerra de Canudos), isto é, 98
anos depois da primeira edição (e aí, fica claro que a crítica
especializada não foi nenhum pouco condescendente com o aspirante a
escritor), verá que a obra tem como subtítulo "Crônica histórica e de
costumes sertanejos sobre os acontecimentos de Canudos". Creio ser mais
uma habilidosa saída do Manoel Benício para se isentar de qualquer
tentativa romanesca. Só que o repórter-escritor tenta, talvez movido por
um momentâneo desejo inexplicável de glória ou fama. Esta tentativa vem
logo após os breves relatos sobre os conflitos entre as famílias Araújo
e Maciel, que aterrorizaram o sertão cearense por longos anos, com
pinceladas biográficas de Antônio Conselheiro. Arrisco ainda a dizer que
o autor inseriu uma pequena novela dentro do que ele chamou de crônica
histórica (o que me faz lembrar das crônicas regiocêntricas do humanista
Fernão Lopes, principalmente da "Crônica Del-Rey Dom Pedro I", em que se
figura o trágico romance entre o príncipe Pedro e plebéia Inês de
Castro, transformada em rainha após à morte), tendo como cenário a
fazenda de um avarento por nome Tomé, pai de três filhas – que
trabalhavam feito escravas –, onde Antônio Conselheiro, acompanhado de
um pequeno séqüito, arranchou-se por alguns dias, mas com a promessa de
que ali construiria um açude, benfeitoria que agradou ao fazendeiro,
dando ao Conselheiro e sua gente permissão para a paragem. E é nesse
cenário que Manoel Benício se esforça para criar algo mais próximo do
literário, próximo mesmo de um romance, em que os personagens (tanto do
lado do Conselheiro, quanto do lado do fazendeiro), envolvem-se,
principalmente, as filhas do velho Tomé com os homens seguidores do
velho Beato. Abaixo, um trecho em que a pena de Manoel Benício deixa
escapar um pouco da sua tinta lírica:
Quando o nosso novel comerciante, e não menos novel
chefe de família, assim lutava sem encontrar meio de bem safar-se, surge
na cidade, depois de longa ausência, a sua prima Francisca, veterana
vivandeira, acompanhada de uma filha menor, que então contava com o
frescor e o desalinho dos 15 anos, criatura cheia de encantos e
arrebatadora sedução. Verdadeiro mensageiro do Cupido, conquistou dentro
de pouco tempo o coração do novel negociante e dele aceitou o nome de
esposa... (p.19).
A trama amorosa criada por Benício não convence
(mesmo porque o intuito do autor era retratar o que viu como repórter),
mas foi uma inteligente maneira que encontrou para distrair um pouco o
leitor, enquanto Canudos (ou Belo Monte) não fosse construído e a guerra
começada. Como o autor propôs ser direto e claro em sua narrativa, há
passagens que fazem com que o leitor (o mesmo que já está um tanto
acostumado com outras leituras sobre a guerra, inclusive com "Os
Sertões") se admire com a objetividade do narrador:
Conselheiro começou a pregar contra a República, não
que soubesse o que fosse república, nem porque fosse monarquista ou
assalariado de conspiração monárquica, mas porque a república ameaçava a
sua religião (p.84).
Mais adiante, quando o major Febrônio de Brito, antes
de aventurar-se rumo a Canudos, comandando a 2ª expedição (a 1ª,
comandada pelo tenente Pires Ferreira não passou de Uauá) e que só
elogios teceu ao governo baiano pelo apoio que recebera deste, viu-se
encalacrado, tendo que recuar, caso contrário, seriam todos destruídos,
passou a atacar o mesmo governo em artigos na imprensa, acusando o
governador Luís Viana de ser conivente com o insucesso das forças
republicanas, o repórter Manoel Benício mais uma vez teceu o seu
comentário equilibrado:
Os que, porém, raciocinavam com calma não viam na
rebeldia dos jagunços mais do que um fenômeno social vulgar a todas as
épocas, em todos os povos, e nunca um movimento político: fenômeno de
recomposição pelo qual um povo, ao cabo dos séculos, não se parece mais
com o que foi (p.107).
Pouco se sabe sobre a vida de Manoel Benício. Nascido
em Pernambuco, radicou-se em Niterói, onde foi tabelião, professor,
militar e repórter. Além do Jornal do Commercio, trabalhou também no
jornal O Tempo, cobrindo a Revolta da Armada (maravilhosa e ironicamente
retratada por Lima Barreto (1881-1922) no seu antológico romance "Triste
Fim de Policarpo Quaresma"). Leia um trecho, retirado deste formidável
romance pré-modernista:
É assim sempre. Às vezes eles chegavam bem perto à
tropa, às trincheiras, atrapalhando o serviço; em outras, um cidadão
qualquer, chegava ao oficial e muito delicadamente pedia: O senhor dá
licença que dê um tiro? O oficial acedia, os serventes carregavam a peça
e o homem fazia a pontaria e um tiro partia.
Com o tempo, a revolta passou a ser uma festa, um
divertimento da cidade... Quando se anunciava um bombardeio, num
segundo, o terraço do Passeio Público se enchia. Era como se fosse uma
noite de luar, no tempo em que era do tom apreciá-las no velho jardim do
Dom Luís de Vasconcelos, vendo o astro solitário pratear a água e encher
o céu.
Alugavam-se binóculos e tanto os velhos como as
moças, os rapazes como as velhas, seguiam o bombardeio como uma
representação de teatro: "Queimou Santa Cruz! Agora é o ‘Aquidabã’! Lá
vai". E dessa maneira a revolta ia correndo familiarmente, entrando nos
hábitos e nos costumes da cidade (p.126).
Prendo-me ainda na questão da classificação do livro
do repórter Manoel Benício (coisa que já deveria ter dada por
encerrada), pois me vem à lembrança a interessante obra do lusitano
romântico Almeida Garrett (1799-1854), "Viagens na Minha Terra", obra
esta divida em três partes: a viagem que o próprio autor fez pelo
interior do seu País, descrevendo de maneira magistral a sua natureza, a
guerra civil da qual participou como um liberal e, por fim, uma novela,
envolvendo um quase possível romance entre os primos Carlos e Joaninha.
Não obtendo uma classificação mais contundente, denominou-a de
narrativa. E assim parece-me ser o livro do Manoel Benício, não uma
crônica, muito menos um romance, tampouco uma novela, mas sim uma
narrativa, tal como as "Viagens na Minha Terra".
Duas expedições foram à pique: a do tenente Pires
Ferreira e a do major Febrônio de Brito. Mal o coronel (vejam que para
cada expedição subia a patente do comandante) Antônio Moreira César
havia deixado a antiga Nossa Senhora do Desterro (cidade natal do grande
poeta simbolista Cruz e Sousa (1863-1898), também conhecido como "O
Cisne Negro"), capital de Santa Catarina (hoje Florianópolis), onde
ganhara a alcunha de corta-cabeças, já estava ele pronto para comandar a
3ª expedição e dar cabo, finalmente, a Canudos. Epilético, escreveu o
repórter sobre o coronel:
Em Lajinha, entre Monte Santo e Cumbe, foi o coronel
Moreira César acometido por dois ataques consecutivos de epilepsia,
dessa terrível enfermidade que, segundo nos consta, começou a sofrer em
Santa Catarina, onde foi tratado pelo dr. Franco Lobo (p.116).
Manoel Benício, que havia largado o posto de capitão
na quarta e derradeira expedição por não concordar com a estratégia
criada pelos seus superiores, também não dispensou críticas, já em sua
obra, à 3ª expedição:
Que desorganização de serviço! Que falta de
previdência e providência do assistente do quartel-mestre-general junto
ao comando da brigada! Pela falta de cumprimento ou de conhecimento dos
deveres de cada um é que se dão tão lamentáveis desastres como esse, e
mais ainda pela impunidade em que ficam os seus autores ou infratores
(p.116).
Com relação a este fato, interessante é a defesa do
major Cunha Matos, homem de confiança do coronel Antônio Moreira César,
ao lançar as suas versões no mesmo jornal em que Manoel Benício havia
reportado a guerra e, posteriormente, publicado o seu livro. Como um
fiel escudeiro, o major, já tenente-coronel, escreveu:
Quase tudo o que se afirma nos dois trechos acima
transcritos é inexato (sobre a violência como foram tratados os
saveiristas quando da chegada do coronel e seus comandados à Bahia),
como não me será difícil demonstrar.
Antes de tudo direi que a força do comando do
malogrado coronel Moreira César não poderia ter cometido as violências a
que se refere o digno informante do Jornal do Commercio, e isto por uma
razão muito simples: É que havendo o paquete Maranhão, a cujo bordo
seguiu a brigada Moreira César para o estado da Bahia, aportando na
capital do mesmo estado na manhã de 6 de fevereiro de 1897, a bordo
ainda continuou, só havendo desembarcado o coronel, para conferenciar
com o honrado governador do estado e com o comandante do distrito
(p.124-5).
E assim começava uma longa defesa ao coronel Moreira
César, ao coronel Tamarindo, livrando-os de qualquer culpa, inclusive
das desconfianças que recaíam sobre eles com relação ao dinheiro
investido na malfadada campanha.
Entre a 3ª e a 4ª expedições, Manoel Benício
aproveita para, enquanto há tempo, tentar novamente algo mais próximo da
literatura. Nesta fase do livro, Antônio Conselheiro indaga aos seus
fiéis escudeiros sobre todos os acontecimentos relativos à Expedição
Moreira César. Assim, Cajaíba, João Abade, Raimundinho Doutor, vão
prestando contas ao líder religioso. Mas notem que a linguagem adotada
por Manuel Benício para retratar a fala do sertanejo nada tem a ver com
aquela em que ele se desculpa ao iniciar a obra: ... e vocábulos
adotados pelos nossos sertanejos:
Depois, voltando-se para o Raimundinho Doutor,
interpelou-o:
- Venha cá. V. na história que nos contou do bonete
chumbado, não falou no que foi feito do dono dele – o soldado?
- Não o vi mais. O que é certo é que toda a carga de
chumbo, embora molhada, pegou-lhe na cabeça, tanto que arrancou-lhe o
bonete e suspendeu-o na ponta de um galho seco.
Estavam na porta do estabelecimento de Vila-Nova e
entraram (p.137).
Mas o que mais impressiona é o fato do Manoel Benício
ter inserido a comicidade em meio aos acontecimentos trágicos: Jararaca,
o homem a quem o Conselheiro havia amaldiçoado por manter um caso
incestuoso com a filha, e que depois fora aceito no grupo, pois
enlouquecera, aparece montado nu em seu burrico, enquanto as mulheres se
despiam para se banhar no rio Vaza-Barris:
Neste momento uma vozeria de gritos assustados e
risadas levantou-se no meio do bando das moças que iam adiante.
Era o caso que o velho Jararaca, num acesso de
loucura, despira-se todo, e, montando num jumento, quase arrastando os
pés no chão, passeava filosoficamente pelos campos.
(...)
Um bando de moças nuas, de formas duras, quadris
arredondados, corpo bem-feito, cabelos úmidos, a lutar com o doido, a
fim de tomar os seus vestidos.
Na luta o pano rasgava-se e a puxadora,
desequilibrada, ia cair para trás, de pernas para o ar, com um pedaço de
vestido nas mãos.
O velho louco, na fúria de defender a presa,
esmagava, com apertos de mãos, seios redondos, provocando gritos de dor
das suas possuidoras. Arrancava-lhe molhos de cabelos no alcance dos
dedos, mordia-lhes a carnação fresca, enquanto todas, como um enxame de
abelhas arapuá ou sanharão, caíam sobre ele já esmagado pelo peso de
tantos corpos nus (p.141-2).
Esta descrição que Manoel Benício faz de personagens,
muito comum entre os escritores da escola naturalista, cujo
representante máximo aqui no Brasil foi Aluísio Azevedo (1857-1913),
autor do aplaudidíssimo "O Cortiço", é mais uma tentativa de torná-la um
pouco mais literária e menos informativa, ainda mais quando se trata da
descrição sensual da figura feminina.
A 4ª e derradeira expedição, comandada pelo general
Artur Oscar se aproximava.
Antônio Conselheiro, o rei dos jagunços, pouco
falava, já não mais incentivava os moradores de Belo Monte com as suas
prédicas. Vivia enfurnado em seu templo, meditabundo, ensimesmado, ainda
mais velho e fraco. Isso fazia com que muitos moradores da cidade
deixassem as suas casas, fugindo por estradas ainda não tomadas pelas
tropas federais. Sobre o estado do Conselheiro, assim o descreveu o
narrador ao ser visto pela professora Macotas naquele templo em que as
mulheres eram proibidas de entrar:
Viu um velho sujo, esquálido, de barbas grisalhas
compridas, sem trato e cheia de falhas; uma cabeleira em cacho derramada
por cima dos ombros, pés chatos em alpragatas, um rosto seco como de uma
caveira no alto do qual dois olhos fixos no espaço, sem toscanejarem,
lançavam um brilho morto que metia medo (p.208).
Após Manoel Benício relatar a investida final contra
Belo Monte, a morte do Antônio Conselheiro, as rendições que se
transformaram em terríveis degolas, etc., o autor deu à sua obra um
desfecho surpreendente. Talvez se Manoel Benício tivesse lapidado um
pouco mais o seu livro, não teria entrado no esquecimento e só reeditado
98 anos depois. Leia os últimos parágrafos de "O Rei dos Jagunços":
A taciturna tapera tomava uma cor sinistra que metia
assombro.
Os caracarás e urubus, que ciscavam, por entre
ruínas, restos duros de esqueletos, levantavam vôo em demanda das
dormidas, um a um.
No alto da Misericórdia um bando de gaviões
assustados fugiu pelos ares, ao tempo que, cavalgando um jumento de
orelhas bambamente grandes, um vulto alto, espingolado, esguio,
arrastando os pés no chão, de chapéu e nu, apareceu como um ser
quixotesco ou fantástico!
O asno, farejando a verdura e a água do Vaza-Barris,
soltou um ornejo longo, relinchante, que atroou o espaço. O homem, como
que despertado pelo relincho da pacientíssima besta, levantou os dois
braços enormes e berrou, também, com a voz rouca e formidável:
- Eu sou Jararaca, o único animal que mata os filhos!
E a sua voz rouquenha e áspera fez voar assustadas as
derradeiras rapinas que ciscavam as ruínas de Canudos, enquanto o asno,
pacientissimamente, descendo pela encosta da colina, encobriu-se, com o
doido ao lombo, nas várzeas do Irapiranga! (p.220).
Para finalizarmos, façamos uma comparação de estilos
entre Manoel Benício e Euclides da Cunha. Primeiro, com relação a
Canudos (Belo Monte). Assim o descreveu Benício:
Canudos era neste tempo uma aglomeração de cabanas e
taperas edificadas sem alinhamento, nem higiene e solidez, limitando de
nascente a sul pelo rio Vaza-Barris e pelo lado do norte e poente por
colinas semeadas de casinholas de taipa.
O terreno é acidentado e o solo coberto de uma terra
roxa e fina que polmeia o espaço quando venta.
A igreja nova estava em obras ainda. Junto às paredes
grossas, feitas de pedra e cal, jaziam materiais diversos: madeiras,
pedras, tábuas, etc. Os últimos acontecimentos apressaram a construção
do templo, cuja solidez devia ser também uma garantia para os moradores
do arraial, em caso de novo assalto. Segundo o plano rudimentar do
mestre-da-obra, a arquitetura seria de estilo gótico e o monumento
largamente espaçoso para abrigar toda a população (p.139).
Agora, o arraial, segundo Euclides da Cunha, trecho
retirado de sua obra-mestra, "Os Sertões":
O arraial crescia vertiginosamente, coalhando as
colinas.
A edificação rudimentar permitia à multidão sem lares
fazer até doze casas por dia; - e, à medida que se formava, a tapera
colossal parecia estereografar a feição moral da sociedade ali acoitada.
Era a objetivação daquela insânia imensa. Documento iniludível
permitindo o corpo de delito sobre os desmandos do povo.
Aquilo se fazia a esmo, adoidadamente.
A urbs monstruosa, de barro, definia bem a civitas
sinistra do erro. O povoado novo surgia, dentro de algumas semanas, já
feito ruínas. Nascia velho. Visto de longe, desdobrado pelos cômoros,
atulhando as canhadas, cobrindo área enorme, truncado nas quebradas,
revolto nos pendores – tinha o aspecto perfeito de uma cidade cujo solo
houvesse sido sacudido e brutalmente dobrado por um terremoto.
Não se distinguiam as ruas. Substituía-as dédalo
desesperador de becos estreitíssimos, mal separando o baralhamento
caótico dos casebres feitos ao acaso, testadas volvidas para todos os
pontos, cumeeiras orientando-se para todos os rumos, como seu tudo
aquilo fosse construído, febrilmente, numa noite por uma multidão de
loucos... (p.154-5).
Sobre o séqüito que acompanhava o Antônio
Conselheiro, segundo Manoel Benício:
Era como um numeroso magote de ciganos, errando por
países estrangeiros. Aleijados, doidos, donzelas, ladrões, doentes,
assassinos, vagabundos, cantadores, mocambeiros, cegos, possessos,
incestuosos, pobres, afortunados, prostitutas, a mais hedionda mescla
que se pode aglomerar por monomania religiosa estendia-se atrás do
Conselheiro, o chefe, o pastor e o pai daquele ambulante Pátio dos
Milagres. Era ele o guia do fantástico comboio humano, e só aos
caçadores era permitido irem na frente do préstito ou flanqueando, à
busca de caça. Homens da sua confiança e estima marchavam a seu lado,
silenciosamente. Sóbrio de comidas, o beato era também de palavras.
Toda aquela multidão o tratava por Meu Pai
(p.36).
Já Euclides da Cunha, menos objetivo e menos direto
que o seu companheiro de profissão, e mais mitigado em sua narrativa,
mostra ao leitor como se formou o séqüito a seguir o Antônio
Conselheiro:
Tornou-se logo alguma coisa de fantástico ou
mal-assombrado para aquelas gentes simples. Ao abeirar-se das rancharias
dos tropeiros aquele velho singular, de pouco mais de trinta anos, fazia
que cessassem os improvisos e as violas festivas.
Era natural. Ele surgia – esquálido e macerado –
dentro do hábito escorrido, sem relevos, mudo, como uma sombra, das
chapadas povoadas de duendes...
Passava, buscando outros lugares, deixando absortos
os matutos supersticiosos.
Dominava-os, por fim, sem o querer (p.137).
Eis como Manoel Benício descreve o beato Conselheiro:
Correm seis anos sem que se tenha notícia de Maciel,
quando, em 1873, no termo de Itapicuru, na Bahia, aparece vestido de
túnica azul de algodão grosso, alpregatas, com uma Missão Abreviada na
mão, os olhos baixos, longas barbas e longos cabelos incultos, pregando
a religião da forma por que entendia os seus mistérios e dizendo-se
enviado de Deus (p.22).
Euclides da Cunha assim o descreveu:
... E surgia na Bahia o anacoreta sombrio, cabelos
crescidos até os ombros, barba inculta e longa; face escaveirada; olhar
fulgurante; monstruoso, dentro de um hábito azul de brim americano;
abordoado ao clássico bastão, em que se apóia o passo tardo dos
peregrinos... (p.136).
Notem que nas duas descrições, é inevitável a
comparação com o Gigante Adamastor, personagem lendário da obra "Os
Lusíadas", de Luís Vaz de Camões (1524?-1580). Leia a estrofe, retirada
da obra-maior do Classicismo português:
Não acabava, quando ua figura
Se nos mostra no ar, robusta e válida.
De disforme e grandíssima estatura;
O rosto carregado, a barba esquálida,
Os olhos encovados, e a postura
Medonha e má, e a cor terrena e pálida;
Cheios de terra e crespos os cabelos,
A boca negra, os dentes amarelos (p.158).
Sobre o sertanejo, uma frase para cada um. Primeiro,
a de Manoel Benício:
O sertanejo só admira e quer bem ao que é forte,
porque o assusta (p.5).
Agora a frase (já um provérbio popular), escrita por
Euclides da Cunha:
O sertanejo é, antes de tudo, um forte (p.99).
VINTE SEMELHANÇAS E DIFERENÇAS ENTRE EUCLIDES DA
CUNHA E MANOEL BENÍCIO, E ENTRE "OS SERTÕES" E "O REI DOS JAGUNÇOS"
1º) Manoel Benício era correspondente-de-guerra do
Jornal do Commercio.
2º) Euclides da Cunha era correspondente-de-guerra do
jornal O Estado de S. Paulo.
3º) Manoel Benício teve a sua obra, "O Rei dos
Jagunços" publicada pelo mesmo jornal em que fora repórter.
4º) Euclides da Cunha não conseguiu que o jornal O
Estado de S. Paulo publicasse a sua obra.
5º) Manoel Benício também trabalhou como
correspondente-de-guerra na Batalha da Esquadra ou da Armada.
6º) Euclides da Cunha construiu, como engenheiro que
era, trincheiras e fortificações durante a mesma batalha.
7º) Manoel Benício viu sua obra publicada em 1899,
mesmo ano em que Euclides da Cunha chegava a São José do Rio Pardo (SP)
para reparar a ponte emborcada e dar início à construção de sua
obra-mestra, "Os Sertões".
8º) Manoel Benício declarou na introdução da sua obra
ter exercido fatigante tarefa, por isso, não lapidaria o que acabara de
escrever.
9º) Euclides da Cunha declarou na introdução da sua
obra que escreveu sua obra nas horas vagas do seu fatigante exercício de
engenheiro.
10º) Manoel Benício adotou uma linguagem coloquial,
brasileira, com pouquíssimos recursos estilísticos.
11º) Euclides da Cunha adotou uma linguagem
rebuscada, batizada de "barroco-científica".
12º) Tanto Manoel Benício quanto Euclides da Cunha
pertenceram ao Exército brasileiro. O primeiro chegou a patente de
capitão e lutou na 4ª expedição; o segundo, deu baixa como tenente, não
tendo participado da guerra de Canudos.
13º) Ambos tornaram-se correspondentes-de-guerra,
acompanhando a Expedição Artur Oscar, porém, não se encontraram. Quando
Manoel Benício deixou a Bahia, chegava a ela, Euclides da Cunha.
14º) Manoel Benício não obteve o reconhecimento
público com a sua obra, ao contrário de Euclides da Cunha que, "dormiu
obscuro e acordou celebridade".
15º) A obra "Os Sertões" é um clássico da Literatura
Brasileira, tendo várias edições e traduzida para inúmeros países.
16º) A obra "O Rei dos Jagunços" teve somente duas
edições: a primeira em 1899 e a segunda em 1997.
17º) Tanto Manoel Benício quanto Euclides da Cunha
teceram duras críticas ao governo republicano, no que diz respeito aos
ataques a Belo Monte (Canudos).
18º) Além de ex-militares e jornalistas, Manoel
Benício e Euclides da Cunha também foram professores.
19º) Manoel Benício deu como subtítulo à sua obra
"Crônica histórica e de costumes sertanejos sobre os acontecimentos de
Canudos". Já Euclides da Cunha, "Campanha de Canudos".
20º) Assis Chateaubriand era o dono do Jornal do
Commercio e Júlio de Mesquita o do O Estado de S. Paulo; o primeiro do
Rio de Janeiro; o segundo, de São Paulo .
BIBLIOGRAFIA
Barreto, Lima. Triste Fim de Policarpo Quaresma.
São Paulo: Editora Ática, 1987.
Benício, Manoel. O Rei dos Jagunços. Rio de
Janeiro: Editora Fundação Getúlio Vargas, 2ª edição, 1997.
Camões, Luís Vaz de. Os Lusíadas (org. Hennio
Morgan Birchal). São Paulo: Landy editora, 2005.
Cunha, Euclides. Os Sertões. São Paulo:
Publifolha, 2000.
Alexandre Azevedo é professor e escritor, autor de mais
de 70 obras.
UM ÉPICO EPISÓDIO
(em decassílabos em oitava-rima)
Que eu canto os ilustres republicanos
D’ oeste paulista de São José,
Com o seu rio Pardo soberano,
Por onde antes navegava o café...
Hoje palco do evento euclidiano,
De mil novecentos e doze até
Então, desse País o mais antigo...
Das gentes daqui Euclides amigo!
Chico Glicério e Ananias Barbosa,
Dois idealistas de bom destaque,
Ao lado d’outros de verso e de prosa,
Como Patrocínio e Olavo Bilac,
U’a dupla da lit’ratura famosa...
Homens que não dispensaram o ataque
Ao governo do tal segundo Império...
Ananias Barbosa e Chico Glicério!
Dedicada está a apresentação
Deste episódio republicano
Ao escritor Adelino Brandão,
Modelo d’aluno, douto euclid’ano,
Fazendo com que, numa só emoção,
Todos juntos, s’encantasse a cada ano,
Na janela da qual fui testemunha,
Desta terra hoje d’Euclides da Cunha!
Com este meu narrativo poema,
Escrito, portanto, à sua memória,
Cuja proclamação é o seu tema,
Pedaço importante de nossa história,
A crise do Império e todo o celeuma,
Este criado por u’a mente notória,
Qu’outro regime queria adotado
Um certo candidato à deputado!
O ano de oitenta e nove corria
Para porem em prática a idéia...
Viva a República, abaixo a monarquia!,
Vicente de Carvalho, Raul Pompéia,
Qual u’a novela de cavalaria,
Também Euclides da "Nova Vendéia",
Ananias e Francisco Glicério,
Paladinos contra todo um Império!
Em oitenta e oito, ainda em seu começo,
A inauguração do Hotel Brasil...
Seu proprietário, um homem avesso
À Monarquia, mas d’intenso brio,
Ananias Barbosa, faz dele o end’reço
Do militar e também do civil
Às novas idéias engajados,
Republicanos já então espalhados!
Por trás de portas, janelas fechadas,
Republicanos, qual nu’a inconfidência,
Sob a luz de candeias prateadas,
Daqui uns; outros de longe residência,
Discutem rotas a serem traçadas,
Idealistas de larga experiência...
Prep’ravam terreno p´ra nova fase,
Tendo o Positivismo como base!
No ano seguinte, dia dez d’agosto,
Hospeda-se aqui Francisco Glicério,
Franzida já a testa em suado rosto,
A voz grave, carregada de mistério,
Confunde-se co’a tarde, o Sol já posto,
Eis momento de pôr fim ao Império!
O boato s’espalha pela noite
Como serpente num giro de açoite!
Desconfiado, Francisco Glicério
Teme que entre eles haja um delator,
Quem sabe o Judas ou mesmo um Silvério,
O Hotel atacado, espalhado o horror,
Pedras nas vidraças, mil vitupérios,
Tiros ecoam, rufos de tambor!
E as pessoas entre um e outro petardo,
Rezando a São José do Rio Pardo!
E as gazetas em letras garrafais
Estampam nas páginas o episódio
Com detalhes, fotos e tudo mais...
Mas também estampado estava o ódio
Na face d’Ananias , onde jamais
‘Stivera, dele não fora custódio!
Seu hotel, erguido com sacrifício,
Agora triste, alquebrado edifício!
Não podendo acreditar no que via,
Janelas quebradas, móveis destr’ídos,
E os vând’los, a mando da Monarquia,
Malditos, como cães enfurecidos...
E a cada golpe o soalho gemia,
Confundindo-se co’os próprios gemidos
Do inconsolado Ananias Barbosa,
Assistindo a uma cena vergonhosa!
No dia seguinte, nova batalha
É travada. Agora os republicanos,
Com os fazendeiros e sua tralha,
Revidam, inconformados co’os danos
Causados por uma turba canalha!
Império ruindo, após anos e anos
No poder... Aberta então a janela
Do Hotel à espera ansiosa por ela!
E do Hotel Brasil em sua janela,
Chico Glicério e Ananias Barbosa,
Qual um retrato d’imponente tela,
Diante da platéia curiosa,
Uns em pé; outros inda em sua sela,
Ouve um inflamado discurso em prosa,
Já tomada toda a via pública
Pelos urros e vivas à República!
E proclamada a República estava
Na Vila de São José do Rio Pardo...
Glicério e Ananias, gente brava,
Co’o o do Coração-de-Leão, Ricardo!
Hoje uma Nação livre, outrora escrava...
E o povo nas ruas, qual felizardo,
Dando ao novo regime boas-vindas,
Como quem oferece flores lindas!
Pobre Monarquia, cujo declínio
Teve início na década de setenta...
Vários os motivos p’r’um extermínio
Lento, pois só na casa dos oitenta,
No derradeiro ano, fim do domínio,
O governo já não mais se sustenta!
Que é do Imperador Pedro Segundo?!
Agora o Brasil já não é seu mundo!
Veriam estrelas d’Europa o céu
E não mais este de Gonçalves Dias...
Pedro Segundo e a Princesa Isabel
Já distantes de Glicério e Ananias...
Mas não ‘stava inda apagado o fogaréu,
E antes que ouvisse da cavalaria
O galopar imperial, Francisco
Tratou logo de selar o seu corisco!
Pois Pedro Segundo, fora do sério,
A perguntar sobre aquele arrogante,
Já conhecido Francisco Glicério,
Que tal como Adamastor, o gigante,
De Luís de Camões, seu batistério,
Tornou-se o obstác’lo, tendo co’o ajudante
Ananias Barbosa, Sancho Pança
A empunhar da República a lança!
Que motivos foram esses então,
P’ra que houvesse mudança de regime?!
As campanhas em prol d’abolição,
Uma enorme mancha, hediondo crime,
Que, co’o escreveu Castro Alves, um borrão,
Num condoreiro poema sublime!
O Império, da sociedade a nata,
Assentando-se em base escravocrata!
Deixemos em paz romântico artista,
Falemos, então, da ascensão burguesa,
Devido ao café do oeste paulista,
Sem poder p’lítico junto à nobreza,
Mais fortes que o bom barão cafezista,
Insatisfeitos, co’o quem ‘smurra mesa,
Sustentando a boa base monárquica,
Sem alguma posição hierárquica!
E reacesa a chama do Ideal
Republicano, um partido é fundado,
Em defesa d’um grupo social:
O do emergente e muito inconformado
Cafeicultor co’o regime imp’rial...
Assim um manifesto é publicado.
E muitos sonhando em ver esse dia
Da derrota final da Monarquia!
E daqui de São José, bem distante,
N’antiga Academia Militar,
O bom professor Benjamim Constant,
D’Euclides da Cunha, mestre sem par,
Com a sua voz grave, altissonante,
Sem perder a ternura do ensinar,
Envolvendo do Exército a chefia,
Desgastada dentro da Monarquia!
E surge uma interessante aliança
Entre o grupo do café e militares,
Imbuídos em uma só esperança
De modernização. Preliminares
Atos tomados, mas desconfianças
Vindas dos ambos soslaios olhares
Fazem com que se tornem temporária
A união da espada co’a força agrária!
Incomodada também ‘stava a Igreja
Com Pedro Segundo e o seu Estado,
Sentindo-se ela naquele ora-veja,
Com respeito ao regime do padr’ado.
E a interferência excessiva, qu’assim seja!,
Nos assuntos sacros. Apavorado
O Clero só fez aumentar a crise
Imperial... Era um Deus-me-livre!
P’ra amenizar a crise imperial,
Algumas medidas foram tomadas.
Reformas de caráter liberal,
Tentaram calar vozes indignadas,
Ampl’ando o direito do voto atual,
Mor autonomia às províncias dadas.
Propostas do Visconde d’Ouro Preto,
Era mais um discurso do "eu prometo!"
Mas retornemos ao tempo três meses,
Agosto do dia onze então voltemos,
A digressão necessária por vezes,
Recurso machadiano que temos...
Como que fiéis soldados franceses,
Patriotismo levado ao extremo,
Chico Glicério e Ananias Barbosa,
Liderando a cidade em polvorosa!
Portanto, qual um soldado em campanha,
Invadem a Câm’ra Municipal,
O retrato do Imperador um apanha,
Outro a Bandeira da República mal
Espera p’ra hasteá-la, que façanha!,
Do prédio, em sua entrada principal!
Bandeira esta pelo Júlio Ribeiro
Criada, positivista brasileiro!
Dez anos depois da Proclamação,
Eis que surge na cidade o engenheiro
Doutor Euclides p’ra a reparação
Da ponte d’aço, orgulho cafeeiro,
Que emborcara após inauguração...
Dos republicanos, um pioneiro,
Mas um tanto arrefecido em seus estudos,
‘Pós reportar a Guerra de Canudos!
"Aqui enfim a minha história finco!",
Teria dito o engenheiro doutor
À porta da cabaninha de zinco,
Símbolo de seu lit´rário labor!
Mal sabia ele que em menos de cinco
Anos a fama, não co’o construtor,
Mas co’o escritor, correria os rincões,
Pois editado estavam "Os Sertões!"
Euclides, Ananias e Glicério
Três nomes que engrandecem a cidade...
O primeiro em pequeno cemitério,
Junto ao filho, morto em sua flor da idade...
O segundo, símbolo do anti-império,
Na placa da rua a perenidade...
De Campinas o filho o terceiro,
Um exemplo maior de brasileiro!
Assim findo essa minha narrativa,
Com esses poucos versos modestos...
Mas daqui minh’alma se fez cativa,
Em meio a homens grandes e honestos...
Por isso inda repito aqueles vivas,
Dos republicanos d’empolgados gestos...
Cidade Livre do Rio Pardo,
São José que no meu coração guardo!
Alexandre Azevedo.
Fim.
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CONCEPÇÃO EUCLIDIANA DE ARTE LITERÁRIA
CÉLIA
MARIANA FRANCHI FERNANDES DA SILVA
Platão escreveu um
diálogo sobre a inspiração poética denominado Íon, no qual
Sócrates prova com argumentos convincentes que os poetas criam seus
poemas não em virtude de uma arte (técne), mas porque entram em
transe, inspirados e possuídos por uma divindade; compõem em virtude de
um dom divino. Platão entende técne como habilidade de fazer
alguma coisa, e, na arte poética, a habilidade de lidar com as palavras.
Sobrepõe-lhe o transe poético, o entusiasmo, a inspiração
entendida como possessão divina.
A concepção de arte
literária de Euclides da Cunha não está longe da de Platão.
Em “A vida das Estátuas”,
artigo de Contrastes e Confrontos, publicado em 1907, Euclides vê
o artista como um vulgarizador das conquistas da inteligência e do
sentimento:
“Extinguiu-se-lhe com
a decadência das crenças religiosas a maior de suas fontes inspiradoras.
Aparece num tempo em que as realidades demonstráveis dia a dia se
avolumam, à medida em que se desfazem todas as aparências enganadoras,
todas as quimeras e miragens das velhas e novas teogonias, de onde a
inspiração lhe rompia, libérrima, a se desafogar num majestoso
simbolismo. Resta-lhe para não desaparecer uma missão difícil:
descobrir, sobre as relações positivas cada vez mais numerosas, outras
relações mais altas em que as verdades desvendadas pela análise objetiva
se concentrem, subjetivamente, numa impressão dominante. Aos fatos
capazes das definições científicas ele tem de superpor a imagem e as
sensações, e este impressionismo que não se define, ou que palidamente
se define como uma nova relação, passiva, de bem-estar moral,
levando-nos a identificar a nossa sinergia própria com a harmonia
natural”.
É a verdade extensa,
de Diderot, ou o véu diáfano da fantasia, de Eça de Queirós, distendido
sobre todas as verdades sem as encobrir e sem as deformar....
O que Euclides está
defendendo é “o consórcio da ciência e da arte” como “a
tendência mais elevada do pensamento humano” – consórcio que se
realiza por meio de uma impressão dominante” que empolga o
artista.
O consórcio ciência -
arte está preceituado também em “Impressões Gerais”, primeiro artigo de
À Margem da História”: “...ao defrontarmos o Amazonas real, vemo-lo
inferior à imagem subjetiva há longo tempo prefigurada. Além disso, sob
o conceito estritamente artístico, isto é, como um trecho da terra
desabrochando em imagens capazes de se fundirem harmoniosamente na
síntese de uma impressão empolgante, é de todo em todo inferior a um sem
número de outros lugares do nosso país.”
A impressão dominante ou
impressão empolgante de Euclides da Cunha corresponde ao
entusiasmo platônico. Assim como para Platão, nos poemas homéricos, o
entusiasmo se sobrepõe à técne – em Euclides a impressão
dominante sobrepõe-se aos dados científicos e, sendo sintetizadora,
consorcia indissoluvelmente ciência e arte.
O risco de cair no
dualismo conteúdo (ciência) e forma (ornato literário) está descartado
pelo termo consórcio, que significa união conjugal, casamento. No
casamento não há dualismo, mas cópula, fusão: “... e eles se tornam
uma só carne.” Para haver fusão, é imprescindível correr riscos,
abdicar da própria individualidade para fundir-se com outra
individualidade, dando origem a uma coisa nova (uma só carne). A
união das individualidades na cópula conjugal é desencadeada pelo amor,
o eros, que é “uma força vital que garante a continuidade das
espécies e a coesão íntima do Cosmos”, “uma possessão divina pela qual
nos elevamos acima de nós mesmos”.
No texto euclidiano é a
impressão dominante que impele ciência e arte a perderem-se uma na
outra, a correrem riscos genéticos, para darem origem a uma novidade, a
um gênero simbiótico. E a impressão que empolga e arrebata Euclides não
está longe do amor, do eros; é o que permite
inferir este trecho expressivo de uma carta a Pethion de Villar:
“Em que pese à sua
feição combatente
(de Os Sertões), tracei-o com uma enorme piedade pelos nossos
infelizes patrícios sertanejos. É um livro destinado aos corações. Devem
compreendê-lo admiravelmente os poetas e os bons, se não vai nessa
conjuntura dispensável redundância.”
Como na compulsão
gamética, o consórcio ciência–arte é quase sempre antagônico ou
paradoxal.
Desde seu plano geral
Os Sertões consorcia antagônica ou paradoxalmente ciência e arte e
por isso pertence a esse gênero simbiótico. A base científica do livro é
sociológica: o isolamento geográfico, habitudinal e psíquico, que
tem como “conseqüências mais notáveis...a individualização e o
atraso. Assim, todo grupo ou indivíduo ‘desconectado’ de outros
indivíduos ou grupo tende a desenvolver-se em pessoas ou comunidades que
se desviam das demais”. O atraso cultural fez dos sertanejos uma
raça fraca, inevitavelmente esmagável por outra forte, uma vez que este
esmagamento é a “força motriz da História”, no dizer de
Gumplowicz. Mas “aquela campanha lembra um refluxo para o passado./ E
foi, na significação integral da palavra, um crime.”. Isto é: por um
lado, o desenlace da Campanha de Canudos já estava cientificamente
previsto, como conseqüência do isolamento e do atraso cultural – mas
essa relação positiva desvendada pela análise objetiva cede espaço a
outra relação mais alta, estabelecida por uma impressão empolgante, que
transubstancia o dado objetivo, sem o deformar, numa emoção
eminentemente trágica; por outro lado, a tragédia, o crime, tem de
conviver amigavelmente com o determinismo científico e com “palavrões”,
como Gumplowicz, Hegel, Maudsley, grés, gnaisse, granito, nevrótico,
psicótico, étnico...
O consórcio ciência e
arte, maximizado no plano geral, fractaliza-se em textos igualmente
antagônicos ou paradoxais. Na Terra topa-se com uma animização da
linha do Equador, que tem o luxo de terminar num decassílabo heróico:
“Entretanto, por elas
(as terras do sertão) passa, interferindo a fronteira ideal dos
hemisférios, o equador termal, de traçado perturbadíssimo de inflexões
vivas, partindo-se nos pontos singulares em que a vida é impossível;
passando dos desertos às florestas, do Saara, que o repuxa para o norte,
à Índia opulentíssima, depois de tangenciar a ponta meridional da Arábia
paupérrima; varando o Pacífico num longo traço – rarefeito colar de
ilhas desertas e escalvadas – e abeirando, depois, em lento descambar
para o sul, a Hiléia portentosa do Amazonas.”
A fractalização
do consórcio ciência e arte minimiza-se numa segunda escala em unidades
frasais:
“O planalto
central do Brasil desce, nos litorais do Sul, em escarpas inteiriças,
altas e abruptas.” Uma realidade
geográfica animiza-se e desce...
A fractalização atinge o grau zero em
sintagmas nominais híbridos, de dados objetivos e impressões subjetivas,
nos quais se tornam mais evidentes as uniões antagônicas ou paradoxais:“Gnóstico
bronco”, “Tróia de taipa”, “Cidadela mundéu”...
As outras obras de Euclides pertencem ao
mesmo gênero simbiótico, exceção feita ao plano geral, uma vez que se
trata quase sempre de coletâneas de artigos esparsos. Mas fractalizado
em escala textual ou frasal, lá está o consórcio ciência-arte, por
exemplo, em À Margem da História:
“É, sem dúvida,(a Amazônia)
o maior quadro da terra; porém chatamente rebatido num plano horizontal
que mal alevantam de uma banda, à feição de restos de uma enorme moldura
que se quebrou, as serranias de arenito de Monte Alegre e as serras
graníticas das Guianas.” Ou: “A Amazônia selvagem sempre teve o
dom de impressionar a civilização distante.”
O consórcio ciência-arte é o diferencial
substantivo do estilo euclidiano, preceituado por ele próprio.
Adjetivamente podem ser-lhe acrescentadas outras características,
igualmente desvendadas pelo próprio Euclides.
Em Contrastes e Confrontos,
lamentando a inautenticidade de nossas manifestações artísticas,
Euclides acrescenta o determinante telúrico à sua preceituação
estilística:
“Não admiram o incolor, o inexpressivo, o
incaracterístico, o tolhiço e o inviável da nossa arte e das nossas
iniciativas: falta-lhes a seiva materna. As nossas mesmas descrições
naturais recordam artísticos decalques, em que o alpestre da Suíça se
mistura, baralhado, ao distendido das landes: nada do arremessado
impressionador dos itambés a prumo, do áspero rebrilhante dos cerros de
quartzito, do desordenado estonteador das matas, do dilúvio tranqüilo e
largamente esparso dos enormes rios, ou o misterioso quase bíblico das
chapadas amplas... É que a nossa história natural ainda balbucia em seis
ou sete línguas estrangeiras, e a nossas geografia física é um livro
inédito.”
O apego à terra fá-lo reconhecer-se como um
“poeta pelo avesso”:
“Arrebata-nos também o sonho, mas, ao
invés de projetarmos a centelha criadora do gênio sobre o mundo que nos
rodeia, é o esplendor deste mundo que nos invade e deslumbra.”
A transfiguração artística, para ele, deve
levar a uma realidade ampliada:
“Somos uma raça romântica. Mas romântica
no melhor sentido desta palavra proteiforme. [...] Romântica no
significado heróico de uma crença exagerada em nossas faculdades
criadoras, a despontar da consciência instintiva de nosso gênio, que nos
arrebata sobre as barreiras da razão teórica, fazendo que falsifiquemos
a realidade, para torná-la maior, glorificando-a.”
Exemplo dessa ampliação Euclides aponta em
Vicente de Carvalho, que, descrevendo a Serra do Mar, teve a “intuição
superior de um poeta capaz de ampliar, sem a deformar, uma verdade
rijamente geológica [...]. É a realidade maior – vibrando numa
emoção.”
Uma visão ampliada deve traduzir-se
naturalmente em estilo grandiloqüente e oratório: “...não foi o velho
genial [Victor Hugo] quem nos ensinou a metáfora, o estiramento
das hipérboles, o vulcanismo da imagem e todos os exageros da palavra, a
espelharem, entre nós, uma impulsividade e um desencadeamento de paixões
que são essencialmente nativos.”
Está descartado, porém, qualquer barroquismo
oco de idéias, pois, falando da literatura portuguesa do século XVIII,
Euclides lamenta que “a fragilidade das idéias facultava aos períodos
vazios o caprichoso das formas mais bizarras.”
Por outro lado, descartado está também o
estilo didático de quem redige “com o sacrifício absoluto da forma à
clareza, ou à exposição desatada em pormenores e minúcias
exemplificadoras.[...]. Quem assim procede “não escreve, leciona.
[...] Não se compraz com os aspectos brilhantes de uma teoria:
analisa, disseca, induz friamente, ensina.”
Em suma, teorizando a respeito de si mesmo
ou de outros autores, Euclides estilisticamente se auto-explica. Vivendo
numa época em que o culto da forma se impunha e a ciência pontificava,
fascinado pela paisagem brasileira, dotado de temperamento sensível ao
brilho das teorias, sendo também um cientista – ele viu na literatura a
possibilidade de sintetizar tudo isso. A seu ver, o artista é aquele
capaz de realizar o consórcio harmonioso entre ciência e arte,
concentradas subjetivamente numa impressão dominante. A impressão
empolgante é para ele uma visão ampliada da realidade, traduzida em
estilo grandiloqüente, que não se identifica com o formalismo vazio de
idéias, mas repele igualmente o sacrifício da forma á clareza.
CUNHA, Euclides da. Os
Sertões (Campanha de Canudos). Edição, Prefácio, Cronologia,
Notas e Índices de Leopoldo Bernucci: São Paulo, Ateliê Industrial,
Imprensa Oficial e Arquivo do Estado, 2000.
PLATON, Ion. Traduction
de Louis Mertz, 1903.
http://antinomies.free.fr/textes/Platon-Ion.rtf., acessado em
1/5/2004, às 15h.
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A AMAZÔNIA DE EUCLIDES DA CUNHA:
Obras Pré-Amazônicas
Prof. Dr. Fadel David Antonio Filho
UNESP – Rio Claro
Explicações Preliminares:
Um dos primeiros problemas com que nos deparamos, ao
selecionarmos Euclides da Cunha para a nossa avaliação, foi como
‘classificá-lo’: literato? geógrafo? jornalista? A abrangência e a
multifacetada visão que expressa nos seus escritos amazônicos é
surpreendente para a sua época, na medida em que suplanta a predominante
postura reducionista e apresenta os aspectos naturais vinculados aos
aspectos sociais e econômicos, num vislumbre de ‘modernidade’ só
alcançado décadas mais tarde, particularmente pelos homens de ciência no
Brasil e, em especial, pelos cientistas sociais, incluindo entre esses
os geógrafos.
Formado engenheiro em 1889, no Rio de Janeiro, na
antiga Escola Militar da Praia Vermelha, que juntamente com a Escola
Politécnica se destacava como um dos centros de excelência de ensino
técnico-científico do país, Euclides da Cunha teve uma sólida formação
cultural1. Neste particular, a cultura geográfica de
Euclides da Cunha, com base no estudo de sua obra, teve nítida
influência dos trabalhos e idéias de geógrafos europeus, notadamente
franceses, como também, no caso da geografia física e da geologia,
influência dos norte-americanos, como William Morris Davis.
Muitos dos escritos de Euclides da Cunha têm como
essência a Geografia, e neste caso o autor apresenta-se como um
autêntico geógrafo. Outras vezes, surge nele um sociólogo ou um
antropólogo social autêntico, com suas colocações sempre emolduradas
pelo estilo e beleza de um literato privilegiado.
Desta forma, reconhecendo a dificuldade em
‘rotulá-lo’ e à sua obra, de modo a situá-lo numa das classificações
propostas para esse trabalho, é justo que o escritor de Os Sertões
seja destacado num tópico à parte, tal a dimensão de sua obra amazônica.
AS RELAÇÕES DE EUCLIDES DA CUNHA COM A AMAZÔNIA:
A obra de Euclides da Cunha sobre a Amazônia
constitui-se num conjunto de artigos, estudos, ensaios, preâmbulos e
relatórios, ainda pouco explorados pelos estudiosos, particularmente no
seu aspecto geográfico. Esta constatação talvez se explique, entretanto
sem justificativa, pelo fato da obra mais conhecida do autor, Os
Sertões, carregar em si uma dimensão literária reconhecidamente
grandiosa e única, o suficiente para ofuscar outros trabalhos, mesmo
quando apresentados na forma de livros, mas que constituem, a maioria
deles, da reunião de seus trabalhos jornalísticos2
escritos em várias fases de sua vida. A bem da verdade, Os Sertões
também constitui-se num grandioso trabalho jornalístico.
Mas, no nosso entender, a produção euclidiana sobre a
Amazônia, principalmente a surgida após o autor ter conhecido a região,
apresenta um ‘avanço’ na sua ideologia quando comparada às posturas
registradas em Os Sertões. O que constatamos é que
Euclides da Cunha, após viver e sentir a Amazônia durante um ano (entre
dezembro de 1904 e dezembro de 1905), num contato direto e mais longo do
que teve com o sertão baiano, expressou nos seus trabalhos menor
influência alienígena.
Entretanto, isso não significa que ele estivesse
totalmente livre de sua ideologia, embebida de filosofias positivistas e
suas derivações de cunho determinista e darwinista. O que se observa é
que, no seu conjunto, os trabalhos amazônicos de Euclides da Cunha
apresentam uma evolução do seu pensamento, apesar de encontrarmos, de
quando em quando, os ‘ranços’ da sua velha ideologia nas frases, nas
colocações feitas e nas conclusões de idéias, que surgem eivadas de
preconceitos, de determinismos e de concepções do darwinismo social.
Por outro lado, para quem conhece a obra e o
pensamento de Euclides da Cunha e comunga uma posição crítica em relação
aos postulados positivistas e neopositivistas, que ainda hoje permeiam
muitas produções científicas e literárias, é surpreendente constatar que
aquele autor conseguiu, não poucas vezes, superar sua postura
tradicional positivista.
Isso é bem evidente nos seus escritos amazônicos e
pós-amazônicos. Como explica TOCANTINS (1978,156), que Euclides da Cunha
tem como:
[...] característica marcante de sua obra
a de libertar-se, algumas vezes, do cerco das idéias
estabelecidas e enveredar pelos caminhos de sua própria
lógica e intuição. E quase toda vez que isto aconteceu o
futuro legitimou seus impulsos criadores.
Aliás, uma das características de Euclides da Cunha é
de apresentar ‘avanços’ e ‘retrocessos’ com relação a sua visão do
mundo. Se em Os Sertões isso é bem marcante, nos escritos
amazônicos esses ‘retrocessos’ são bem menos freqüentes, mas existem3.
Esse fato certamente é um incômodo para os que postulam, para esta fase
da vida do escritor, um novo Euclides da Cunha que conseguiu
superar seus fantasmas ideológicos e racistas que distorciam a realidade
que ele buscava explicar.
Acrescentemos a essas rápidas considerações, o fato
de Euclides da Cunha ter manifestado a amigos, quando ainda se
encontrava na Amazônia, onde fôra em missão oficial do Itamaraty4,
a idéia de escrever um livro "definitivo" sobre a região, tão abrangente
como Os Sertões e cujo título seria "Um Paraíso
Perdido"5. Entretanto, o livro ficou apenas como
um projeto, pois que, como explica SILVA (1976,1), o escritor, apesar de
ter pretendido:
[...] corporificar em Um Paraíso
Perdido suas impressões e estudos sobre a Amazônia, os
trabalhos que deixou sobre o assunto não parecem presos a um
plano predeterminado, como por exemplo o Nordeste aparece em
OS SERTÕES.
Se não foi possível a Euclides da Cunha produzir uma
obra que certamente seria monumental, como Os Sertões,
resta-nos o consolo de saber que o legado euclidianista sobre a Amazônia
é deveras rico e considerável.
Com o cuidado e a cautela de um pesquisador nato que
era, Euclides expressou a amigos, já nos primeiros contatos que teve com
a Amazônia, o desejo de escrever suas observações. Sob este aspecto,
escreve ele que6:
Se escrevesse agora esboçaria miniaturas
do caos, incompreensíveis e tumultuárias, uma mistura
formidável de vastas florestas inundadas e de vastos céus
resplandescentes.
Entre tais extremos está, com as suas
inumeráveis modalidades, um novo mundo que me era
inteiramente desconhecido...
Além disso, esta Amazônia recorda a
genial definição do espaço de Milton: esconde-se em si
mesma. O forasteiro contempla-a sem a ver através de uma
vertigem.
Ela só lhe aparece aos poucos,
vagarosamente, torturantemente. É uma grandeza que exige a
penetração sutil dos microscópios e a visão apertadinha e
breve dos analistas; é um infinito que deve ser dosado.
Para os nossos objetivos, um aspecto deve ser
ressaltado sobre Euclides da Cunha e sua produção sobre a Amazônia. É
que no período estudado, entre 1900 e 1940, o escritor fluminense
aparece como o único que poderíamos ‘classificar’ como um autêntico
geógrafo7, no sentido de um cientista social, tal é a
essência geográfica encontrada em seu pensamento e nos temas por ele
abordados.
A AMAZÔNIA NA OBRA DE EUCLIDES DA CUNHA:
A obra euclidiana sobre a Amazônia compõe-se de
dezessete trabalhos, entre artigos, estudos, ensaios, etc. Dentre estes,
quatro compondo parte do livro Contrastes e Confrontos e
outros sete compondo a primeira parte do livro À Margem da
História, além de um preâmbulo, um relatório e mais um livro:
Peru Versus Bolívia.
Para nossa análise, esses escritos estão organizados
de maneira mais ou menos arbitrária, porém obedecendo apenas à
cronologia do ano de sua publicação, isso devido à dificuldade de
precisarmos com exatidão, em alguns casos, a data completa da
publicação. Também não se considerou no rol dos trabalhos citados acima
certas referências sobre a Amazônia, feitas pelo autor, em geral en
passant, em outros trabalhos, como no livro Os Sertões;
nem a sua correspondência pessoal, apesar de utilizarmos deste material
algumas vezes, na medida do necessário.
Podemos assim distinguir os escritos euclidianos
pré-amazônicos (produzidos antes do autor conhecer de fato a região) e
os pós-amazônicos. Essa separação se faz necessária e interessante, na
medida em que torna possível revelar os dois momentos do pensamento
euclidiano com relação à Amazônia.
A VISÃO PRÉ-AMAZÔNICA DE EUCLIDES DA CUNHA:
Antes de conhecer a Amazônia, in loco, quando
então entra em contato direto com o meio e o homem da região, Euclides
da Cunha expressa em seu pensamento a predominância quase absoluta de um
determinismo geográfico. Sobre isso, é elucidativa a passagem escrita no
seu livro maior, Os Sertões8, na qual, ao se
reportar ao clima amazônico e às condições de adaptabilidade do homem,
este é visto como um intruso, um inadaptado, um vencido, submetido aos
caprichos de um meio ambiente hostil. Sobre o assunto, escreve ele que9:
[...] para o ocidente, no Alto Amazonas
manifestações diversas caracterizam novo habitat. E este,
não há negá-lo, impõe aclimatação penosa a todos os filhos
dos próprios territórios limítrofes.
Ali, no pleno dos estios quentes, quando
se diluem, mortas nos ares parados, as últimas lufadas de
leste, o termômetro é substituído pelo higrômetro na
definição do clima. As existências derivam numa alternativa
dolorosa de vazantes e enchentes dos grandes rios. [...]
A enchente é uma parada na vida. Preso
nas malhas dos igarapés, o homem aguarda, então, com
estoicismo raro ante a fatalidade incoercível, o termo
daquele inverno paradoxal, de temperaturas altas. A vazante
é o verão. É a revivescência da atividade rudimentar dos que
ali se agitam, do único modo compatível com uma natureza que
se demasia em manifestações díspares tornando impossível a
continuidade de quaisquer esforços.
Tal regímen acarreta o parasitismo
franco. O homem bebe o leite da vida sugando os vasos
túmidos das sifônias...
Em seguida, Euclides descreve o fenômeno da
"friagem" e as consequências da brusca e incomum queda da
temperatura sobre a fauna amazônica e sobre o índio e o caboclo da
região.
Na seqüência, o autor exacerba o seu determinismo e
expressa, de maneira inequívoca e contundente, o darwinismo social que
então dominava a sua visão do mundo. Escreve ele ainda em Os
Sertões10 que:
O calor úmido das paragens amazonenses,
por ex., deprime e exaure. Modela organizações toliças em
que toda a atividade cede do permanente desequilíbrio entre
as energias impulsivas das funções periféricas fortemente
excitadas e a apatia das funções centrais: inteligências
marasmáticas, adormidas sob o explodir das paixões;
inervações periclitantes, em que pese à acuidade dos
sentidos, e mal reparadas ou refeitas, pelo sangue
empobrecido nas hematoses incompletas...
Daí todas as idiossincrasias de uma
fisiologia excepcional: o pulmão que se reduz, pela
deficiência da função, e é substituído, na eliminação
obrigatória do carbono, pelo fígado, sobre o qual desce
pesadamente a sobrecarga da vida: organizações combalidas
pela alternativa persistente de exaltações impulsivas e
apatias enervadoras, sem a vibratilidade, sem o tônus
muscular enérgico dos temperamentos robustos e sanguíneos. A
seleção natural, em tal meio, opera-se à custa de
compromissos graves com as funções centrais, do cérebro,
numa progressão inversa prejudicialíssima entre o
desenvolvimento intelectual e o físico, firmando
inexoravelmente a vitória das expansões instintivas e
visando o ideal de uma adaptação que tem, como conseqüências
únicas, a máxima energia orgânica, a mínima fortaleza moral.
Ainda dentro deste mesmo raciocínio, Euclides conclui que devido às
condições do meio e da não adaptabilidade congênita, o homem branco está
fadado a desaparecer. Escreve ele que11:
A aclimatação traduz uma evolução
regressiva. O tipo deperece num esvaecimento contínuo, que
se lhe transmite à descendência até à instinção total. Como
o inglês nos Barbados, na Tasmânia ou na Austrália, o
português no Amazonas, se foge ao cruzamento, no fim de
poucas gerações tem alterados os caracteres físicos e morais
de uma maneira profunda, desde a tez, que se acobreia pelos
sóis e pela eliminação incompleta do carbono ao
temperamento, que se debilita despido das qualidades
primitivas.
Dentro de sua lógica e visão, Euclides da Cunha
credita ao índio amazônico, apesar de considerá-lo "raça inferior",
as condições de adaptabilidade ao meio, suplantando assim o homem
branco. No mesmo parágrafo de Os Sertões, escreve que12:
A raça inferior, o selvagem bronco,
domina-o; aliado ao meio vence-o, esmaga-o, anula-o na
concorrência formidável ao impaludismo, ao hepatismo, às
pirexias esgotantes, às canículas abrasadoras, e aos
alagadiços maleitosos.
Neste mesmo trecho do livro, o escritor compara suas
observações sobre as qualidades do ambiente amazônico, insalubre e
hostil, com outras paragens do Brasil, como manda o determinismo
geográfico, afirmando que13:
Isso não acontece em grande parte do
Brasil central e em todos os lugares do sul.
Sobre este aspecto, exalta as características de
excelência dos climas do sul e as conseqüências "benéficas" que
resultam na formação de uma "raça" de homens superiores. Para
Euclides, o brasileiro do sul, resultado de um meio e de um clima
favoráveis, é "mais vivaz, mais prático e aventureiro". É dele
que surge o que Euclides chama genericamente de "paulista", o
elemento desbravador dos sertões, conquistador de novos espaços para
onde leva a "civilização".
Como observamos, a visão euclidiana nesta fase
pré-amazônica está impregnada de determinismos e do darwinismo social.
Na verdade, o escritor de Os Sertões estava em perfeita
consonância com as correntes de pensamento dominantes de sua época, e
mesmo através de uma postura equivocada (e que ele, certamente, não
tinha consciência disso) buscava explicar a nossa realidade. A idéia da
"raça", como fator de identidade nacional, é em Euclides da Cunha
um dos parâmetros básicos de sua visão do mundo. Vislumbrava ele a
necessidade e a possibilidade de se estabelecer uma autêntica "raça
brasileira", cujo cerne identificava no homem simples do interior do
país, o sertanejo, descendente do indígena e do branco (o "paulista").
Segundo Euclides, eram esses mamelucos e caribocas os verdadeiros
brasileiros, que viviam isolados nos imensos espaços interioranos e que
deveriam ser preservados das influências da civilização europeizada
dominante na faixa litorânea, para no futuro constituírem a raça
"garantidora dos nossos destinos nacionais"14.
Desta fase pré-amazônica há ainda um artigo:
"Fronteira Sul do Amazonas. Questão de Limites",
publicado em 14 de novembro de 1898, no jornal O Estado de S.Paulo15.
Aliás, este artigo é o primeiro abordando um tema amazônico escrito por
Euclides da Cunha. Como foi publicado antes de 1900, faremos apenas
algumas observações gerais, sobre o seu conteúdo, pertinentes à visão do
mundo expressa pelo autor.
O artigo faz um comentário do livro do mesmo título,
de Manuel Tapajós, sobre a ocupação do interior do vale do Amazonas (no
chamado Médio Vale) e da epopéia da conquista e exploração daquele
espaço. Narra Euclides que, em conseqüência da separação da capitania do
Rio Negro do governo do Grão-Pará e Maranhão, foi incumbido o
capitão-general do Pará, Francisco Xavier Furtado de Mendonça, através
da carta régia de 3 de março de 1755, de proceder à fixação das
fronteiras do novo território. Euclides ressalta a excelência do
trabalho de demarcação, conforme descrito no livro comentado, comparando
aquele empreendimento com outras demarcações ou tentativas de demarcação
de fronteiras interestaduais em litígios.
Conseguiu Furtado de Mendonça apresentar um trabalho
técnico claro e seguro, que veio a se constituir no único, mas
suficiente documento usado para definir o litígio entre os limites do
Amazonas e do Mato Grosso quase um século e meio mais tarde.
Diversamente do que ocorreu com outros litígios
fronteiriços interestaduais, cujas partes se argumentaram com base em
numerosos documentos e "não raros contraditórios", o litígio
entre o Amazonas e o Mato Grosso dispensou maiores contendas. O
articulista elogia o livro de Manuel Tapajós, considerando que seu
trabalho foi um serviço ao seu Estado (o Amazonas) e ao próprio país.
Ao analisarmos o conteúdo discursivo de Euclides da
Cunha neste artigo, nos deparamos com expressões e idéias que demonstram
suas concepções positivistas. Por exemplo, ao explicar a separação da
capitania do Rio Negro do governo do Grão-Pará, recorreu ele à idéia de
"diferenciação de funções" dentro de um "inevitável (...)
movimento evolutivo", ao qual estavam submetidas as respectivas
capitais provinciais (Belém e Manaus). A influência do pensamento
spenceriano em Euclides da Cunha, neste caso, é bastante significativa.
Em outro trecho do artigo, ao expressar admiração por
Furtado de Mendonça, devido à rigorosidade científica com que executou
seu trabalho de demarcação, demonstra aí sua postura positivista na
exigência da ‘objetividade’.
Encontramos ainda, no referido texto, expressões e
idéias do darwinismo social, mormente quando se reporta ao processo da
conquista daquelas "terras ainda ignoradas" pelas novas
"forças civilizadoras". Para Euclides, o avanço da civilização
branca (entenda-se ‘européia’) a partir das correntes colonizadoras do
Sul apontava para um "novo tempo".
Ainda com relação à fase pré-amazônica de Euclides da
Cunha, no livro Contrastes e Confrontos16
encontramos quatro artigos. Este livro foi publicado em 1907 e
corresponde a um conjunto de 26 artigos, estudos e ensaios, produzidos
em diferentes épocas, dentre os quais os quatro artigos sobre a Amazônia
ou relacionados a ela. Pelo fato desses artigos, em particular, terem
sido escritos em 1904, meses antes do autor seguir para a Amazônia, o
pensamento ali expresso representa uma visão do mundo ainda calcada em
parâmetros que caracterizamos de ‘pré-amazônicos’. Os artigos são:
a) "Contrastes e Confrontos"17:
Trata-se de um pequeno estudo introdutório, que mais
tarde deu o título ao livro, no qual Euclides da Cunha analisa as
contradições da civilização peruana na orla do Pacífico, salientando o
que restou da "raça forte e pacífica" que "foi colhida à
traição pela brutalidade militar da Espanha". Sobre isso escreve ele
que18:
À unidade da raça autóctone, disciplinada
e íntegra, marchando com um método tão seguro que lhe
permitiu tão altos cometimentos, contrapôs-se a desordem de | |