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“OS FAZEDORES DE DESERTOS E A PERMANÊNCIA DO PENSAMENTO EUCLIDIANO”
Prof.
Guilherme Félice Garcia
"Esquecemo-nos, todavia, de um agente
geológico notável – o homem. Este, de fato, não raro reage brutalmente
sobre a terra e entre nós, nomeadamente assumiu, em todo o decorrer da
história, o papel de um terrível fazedor de desertos. Começou isto por
um desastroso legado indígena. Na agricultura primitiva dos silvícolas
era instrumento fundamental – o fogo.”
A
citação acima se refere aos desertos provocados na região do nordeste
com as queimadas praticadas de modo desastroso que, ao longo do tempo,
foram devastando imensas áreas de "flora estupenda".
Não foi ela extraída de algum manual de entidades ecológicas, entre
tantas nacionais e internacionais que criticam a omissão brasileira na
questão das queimadas havidas na floresta amazônica. Ela é de autoria de
Euclides da Cunha, ao estudar "a terra" em seu livro "Os Sertões", cuja
primeira edição apareceu em 1902.
Em
outro momento de Euclides vemos em “Contrastes e Confrontos” no texto
“Fazedores de Desertos”.
“Atacaram a terra nas explorações mineiras a céu aberto;
esterilizaram-na com o lastro das grupiaras; retalharam-na a pontaços de
alvião; degradaram-na com as torrentes revoltas; e deixaram, ao cabo,
aqui, ali, por toda a banda, para sempre áridas, avermelhando nos ermos
com o vivo colorido da argila revolvida, a£ catas vazias e tristonhas
com o seu aspecto sugestivo de grandes cidades em ruínas...
Ora, tais selvatiquezas atravessaram toda a nossa história.”
Em
“Os Sertões” ele ainda conclui: “ O martírio do homem, ali, é o
reflexo de tortura maior, mais ampla, abrangendo a economia geral da
Vida. Nasce o martírio secular da Terra.
Euclides, já então no início do século, demonstrando certa perplexidade
e amargura, apontava o absurdo das queimadas para abrir espaços para a
atividade pastoril ou, "ao mesmo tempo o sertanista ganancioso e
bravo, em busca do silvícola e do ouro".
Um século se passou e a prática do fogo continuou destruindo
desordenadamente as florestas brasileiras, praticamente extinguindo a
mata atlântica e agora, em proporções assustadoras, a própria selva
amazônica que por mais campanhas que sejam feitas continua nas mãos das
madeireiras, sem que o governo tome alguma providência enérgica ou pelo
menos firme perante a questão. É brutal a omissão oficial a essa
calamidade, cuja fumaça cega transeuntes, fecha aeroportos e dificulta a
respiração de crianças, exatamente na região antes conhecida como o
"pulmão do mundo", qualificativo que fora um orgulho para nós
brasileiros.
À omissão, aliam-se o absoluto desrespeito à vida, pela natureza e pelo
mistério das matas virgens, com as milhares de vidas que sustentam,
extintas, inapelavelmente, pelo fogo.
Pois esses indivíduos que exploram madeira na Amazônia, não costumam
chamar de "pau" uma árvore com dezenas de anos, exuberante, em vias de
ser cortada para ser vendida às serrarias estrangeiras? Não a
transformou em mera mercadoria?
Em nossos dias, fala-se muito em ecologia nos discursos, nas solenidades
simbólicas de plantio de árvores, nas escolas, mas, na prática, a
realidade é dolorosa, assustadora e devastadora.
As autoridades que poderiam reverter esse processo criminoso omitem-se,
fecham os olhos ao se depararem com a fumaça das queimadas e se voltam
para a política barata, ao supérfluo, às questões e interesses
partidários, à vaidade, à tolice, ao lucro de podem ter.
Há projetos de implantar o ensino permanente de ecologia nas escolas, de
ordem que, no futuro, as crianças de hoje, cuidem da natureza, devotem
mais amor por ela. Mas, o futuro já corre sérios riscos. O grave
problema se verifica no presente. As ações devem ser tomadas agora,
energicamente, de tal maneira que sobre algo para ser cuidado no futuro.
Que valha a pena.
Podemos observar que palestras como a do ex-vice presidente americano Al
Gore, que esteve recentemente no Brasil, causam impacto no mundo todo,
então por que no tomamos uma providência concreta sobre a questão?
O desrespeito chegou ao insuportável. O despreparo das entidades
oficiais em enfrentar tais crimes é desanimador. Chega a ser patético.
As entidades não governamentais (ONGs), por sua vez, apenas denunciam e
denunciam, mas não saem a campo em campanhas de protesto e de
conscientização com folhetos explicativos debates na TV que tenham
certo nível de credibilidade.
E
as queimadas abomináveis continuam.
Há mais de vinte anos, a revista "O Correio da Unesco", reportava-se ao
"Avanço do Deserto" na Terra, esclarecendo uma das reportagens:
"Muitos acreditam que os desertos do Oriente Médio e da região
mediterrânea foram criados pelo homem. Há dois ou três mil anos, as
vertentes e as planícies do Líbano, da Síria, o litoral do Egito e da
Tunísia eram cobertos por rica vegetação (lembremos os famosos cedros do
Líbano) e forneciam a Roma grandes quantidades de madeira, cereais,
azeitonas, vinho e outros produtos.
O abate de árvores, a destruição das florestas e da vegetação herbácea e
o pisoteio das pastagens, juntamente com a erosão pelo vento e pela
água, transformaram esses territórios em semi-desertos".
Incluindo as queimadas que em muito aumenta a gravidade da tragédia,
estamos seguindo exatamente essa receita. A de construirmos desertos na
região mais exuberante do planeta: a Amazônia.
Esse quadro desolador no "atacado", se manifesta também no "varejo" em
todas as cidades. Árvores das ruas são cortadas indiscriminadamente, com
a tolerância das autoridades, ora porque "fazem sujeira" com as folhas,
porque dão sombra, porque danificam o asfalto e ora porque
"esteticamente" incomodam o cidadão intolerante e insensato.
E, sem qualquer reflexão, às centenas, as árvores vão sendo cortadas das
ruas sem serem substituídas, permanecendo seu toco como um alerta à
insensibilidade humana.
E
não só Euclides da Cunha se preocupou com o assunto, ao longo do século
XX muitos cientistas, principalmente a partir da década de 1970 se
preocuparam e denunciaram os problemas apontados acima sem que ninguém
lhes desse crédito, como se os cientistas, pessoas que sabem o que dizem
por conta de anos de estudos, fossem simplesmente lunáticos querendo
provocar algum tipo de hesteria coletiva.
Observamos também que em razão do crescimento populacional, aumentaram
as necessidades de consumo no mundo inteiro, o comércio reagiu, partindo
com todas as forças para sua fonte de matérias-primas, ou seja, o meio
ambiente. Mas se tudo isso é inevitável podemos pensar que o avanço
científico e do uso de tecnologias deveria há muito tempo ter corrigido
esse problema entre aumento da população e acesso aos recursos naturais,
então voltamos a perguntar, onde estão as autoridades de país e do mundo
que não atentam para o problema.
Praticamente todos os países do mundo se comprometeram em Kyoto a tomar
providências com relação ao aspecto global, sem que na verdade muitas
dessas ações não saíssem do papel.
Observem este outro trecho de “Fazedores de Desertos”:
“As
conseqüências repontam, naturais.
A temperatura altera-se, agravada nesse expandir-se de áreas de
insolação cada vez maiores pelo poder absorvente dos nossos terrenos
desnudados, cuja ardência se transmite por contato aos ares, e determina
dois resultados inevitáveis: a pressão que diminui tendendo para um
mínimo capaz de perturbar o curso regular dos ventos, desorientando-os
pelos quatro rumos do quadrante, e a umidade relativa que decresce,
tornando cada vez mais problemáticas as precipitações aquosas”.
Vejam quão atual é o trecho de cem anos...
Temos observado vários pontos do planeta com temperaturas inacreditáveis
como em 2003 na Índia em que os termômetros chegaram a marcar 50°C, os
furacões que passaram a assolar a costa sul brasileira a partir de 2003,
2004, façamos uma reflexão do passado e olhemos para o presente ou mesmo
o futuro.
Precisamos sim tomar providências, atitudes concretas, não podemos mais
esperar as decisões governamentais, devemos trocar os velhos hábitos
diários por novas posturas que tenham mais comprometimento com a atual
realidade em que nos encontramos. Com novas tecnologias não podemos mais
compartilhar de velhos hábitos, não podemos ver nossa extinção chegar
sem que façamos algo concreto.
É chegada a hora de olharmos para o futuro e para nossas crianças,
de tal ordem que vivam num mundo mais respeitoso com a natureza. Que,
ainda que numa mera poesia, se inspirem na simpatia que deve existir
entre uma árvore e o homem. Entre os animais e os homens e entre estes e
a água, um elemento vital e que hoje tanto nos preocupa.
No que conta sobre a preservação das águas, são os discursos com as
mesmices de sempre, promessas, decorrendo, ocasionalmente, medidas
paliativas e modestas. No caso da fumaça das queimadas, fecham-se os
olhos. No caso da água, tapam-se as narinas para não sentir o cheiro
putrefato dos rios ou dos peixes mortos pela poluição.
E como sentenciava Euclides em “Os Sertões”
“Ou progredimos, ou desaparecemos”.
Prof. Guilherme
Félice Garcia é Professor dos Ciclos de Estudos Euclidianos e professor
nas cidades de Ribeirão Preto, Ituverava, Franca e São Joaquim da Barra. |
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PROF. JOSÉ CARLOS ROSIN
JÚNIOR
DEFINIÇÃO GEOGRÁFICA DA
MACRORREGIÃO - LIVRO “OS SERTÕES”
Uma das características
importantes do relevo nordestino é a existência de dois antigos e
extensos planaltos, o
Borborema e
a
Bacia do Rio Parnaíba
e de algumas áreas altas e planas que formam as chamadas chapadas, como
a
Diamantina e
a
Araripe.
Dando origem ao
sertão, que
é uma região de clima
semi-árido.
A
vegetação
nordestina é bastante rica e diversificada, vai desde a
Mata Atlântica
no
litoral à
Mata dos Cocais
no Meio-Norte, ecossistemas como os
manguezais,
a
caatinga, o
cerrado, as
restingas,
dentre outros, possuem
fauna e
flora
exuberantes, diversas
espécies
endêmicas,
uma boa parte da
vida no
planeta e animais ameaçados de
extinção.
Caatinga:
vegetação típica do sertão, suas principais espécies são o
pereiro, a
aroeira, o
aveloz e as
cactáceas. É
uma formação de vegetais xerófitos (vegetais de regiões secas), mas é
muito rica ecologicamente.
A
cana-de-açúcar
é o principal produto agrícola da região, produzido principalmente por
Alagoas,
seguido por
Pernambuco e
Paraíba,
também é importante destacar os plantios de
algodão (Ceará,
Paraíba e
Rio Grande do Norte),
tabaco (Bahia)
e
caju (Piauí,
Paraíba e
Ceará),
uvas finas,
manga,
melão,
acerola, e
outros frutos para consumo interno e
exportação.
No sertão predomina a agricultura de subsistência, prejudicada às vezes
pelas instabilidades climáticas, geradas pelo El nino e a La niña.
Definição Geográfica da Macrorregião – do livro
"Contrastes e Confrontos"
A Amazônia é uma região na
América do Sul, definida pela bacia do rio Amazonas e coberta em grande
parte por floresta tropical. A Floresta Amazônica é a floresta
equatorial que forma a maior parte da Amazônia. É uma das três grandes
florestas tropicais do mundo. A dificuldade para a entrada de luz pela
abundância de copas faz com que a vegetação rasteira seja muito escassa
na Amazônia, bem como os animais que habitam o solo e precisam desta
vegetação. A maior parte da fauna amazônica é composta de animais que
habitam as copas das árvores.
O solo amazônico é bastante
pobre, contendo apenas uma fina camada de nutrientes. Apesar disso, a
flora e fauna mantêm-se em virtude do estado de equilíbrio (clímax)
atingido pelo ecossistema. Forma-se no solo uma camada de decomposição
de folhas, galhos e animais mortos que rapidamente são convertidos em
nutrientes e aproveitados antes da lixiviação (Processo físico de
lavagem das rochas e solos pelas águas das fortes chuvas decompondo as
rochas e carregando os sedimentos para outras áreas, extraindo, dessa
forma, nutrientes e tornando o solo mais pobre).
A dinâmica da atmosfera nestas
regiões é dominada pela presença da Zona de Convergência Intertropical e
pelo predomínio de fenômenos do tipo convectivo, produzindo precipitação
intensa durante o período mais quente do dia (início da tarde). As
elevadas temperaturas asseguram uma elevada evapotranspiração. A
convergência dos ventos alíseos, a elevada evaporação e as altas
temperaturas, assegurando umidades absolutas elevadas, permitem o
transporte atmosférico de grandes massas de vapor de água, assegurando
que mesmo nas regiões continentais afastadas dos oceanos a umidade
relativa do ar se mantém elevada e a capacidade de geração de
precipitação convectiva é elevada durante todo o ano.
Na Floresta Amazônica
destacam-se alguns ecossistemas, de acordo com o relevo da região em que
se localizam. Em áreas permanentemente inundadas, com as matas de igapó,
crescem vegetações típicas de trepadeiras e árvores com até 20 metros de
altura. As faixas de várzea, ao longo dos rios, permanecem inundadas
apenas durante um período do ano. As planícies de terra firme, onde há
as formações vegetais de até 60 metros de altura, são livres de
inundações.
Ocorrem ainda na Amazônia as formações de campina, cujos solos são
arenosos, a vegetação é relativamente baixa e há profusão de orquídeas e
bromélias, espécies naturalmente adaptadas à condição de alta
luminosidade. O solo da região é caracterizado pela pobreza de
nutrientes, porém protegido pela cobertura vegetal, de onde se abastece
com nutrientes oriundos da decomposição das folhas, troncos e raízes.
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Euclides da Cunha - “Os Sertões” e suas outras obras
Maria Aparecida Granado Rodrigues
O grande escritor Euclides da Cunha deixou-nos, além de “Os
Sertões”, outras obras que, sem dúvida, são de fundamental importância
sob o ponto de vista literário.
O tema da Semana Euclidiana deste ano é Textos Euclidianos além
de “Os Sertões”, portanto cabe aqui um estudo, embora pequeno, de
algumas de suas obras que são muito importantes para se pensar a cultura
brasileira, algumas delas publicadas depois de sua morte.
A Bibliografia Euclidiana compõe-se dos seguintes livros: “Os
Sertões” (1902); “Peru versus Bolívia” (1907); “Castro Alves e seu
tempo“ (1907); “Contrastes e Confrontos” (1907); “À Margem da História”
(1909); “Contrastes e Confrontos” (1907); “Diário de uma Expedição”
(1939); “Caderneta de Campo” (1975).
Além desses livros, Euclides da Cunha escreveu cartas, poesias e
relatórios.
1
) “Os Sertões”:
Não há como negar que a posição de Euclides da Cunha na Literatura
Brasileira como grande escritor que foi, merecedor de muitos elogios,
está atrelada à criação do livro “Os Sertões” que, sem dúvida, é o maior
de todos.
Primeiramente porque o livro “Os Sertões” foi um alerta
denunciador de um problema que o Brasil vivia e que é atual e creio que
sempre o será, aqui e no mundo todo - o problema da injustiça cometida
por aqueles que detêm o poder contra os pobres, os fracos, os oprimidos,
os operários, os analfabetos, os sem-terra, os sem-saúde, os
trabalhadores dos campos, os abandonados do sertão, pessoas que vivem no
anonimato, seja qual for o regime que estiver vigorando.
Podemos dizer também que o livro “Os Sertões” foi como uma
candeia que colocada à frente, abriu e clareou caminhos para outros
escritores que resolveram assumir posição de luta contra esses mesmos
problemas. Autores como Monteiro Lobato, Raquel de Queirós, Graciliano
Ramos, Jorge Amado e outros que, influenciados por Euclides da Cunha,
resolveram tratar do problema da seca e suas conseqüências, do caboclo
esquecido, ignorante e miserável, situações que sempre colocaram e
colocam patrícios nossos em situação desvantajosa em relação aos demais
brasileiros.
O livro “Os Sertões” segue um rigoroso esquema determinista. O
seu núcleo organizacional é formado por três partes. “A Terra”, “O
homem”; “A Luta”.
Isto quer dizer que Euclides da Cunha partia do pressuposto que
para entender sob o ponto de vista científico o que se passou em
Canudos, era necessário considerar o ambiente, a geografia do lugar (
A Terra ); os aspectos antropológicos, mostrando os cruzamentos das
raças e o aparecimento do tipo do sertão ( O homem ); e as
circunstâncias históricas, culturais, políticas, sociais que interferem
nos acontecimentos, no caso específico, a guerra de Canudos ( A Luta).
A Terra, primeira parte do livro, embora seja de difícil
compreensão, possui uma intensa beleza expressiva. É uma espécie de
tratado sobre a geologia nordestina. É uma descrição intrigante, bela e
difícil que contagia e incomoda. A descrição abrange o cenário físico,
as caatingas, as serras, as águas, o ar, a vegetação.
Não se trata de um livro qualquer daqueles que a gente lê, quase
sempre esquece e não interferem em nada na nossa maneira de ver a vida.
Ao contar sobre a guerra de Canudos, Euclides da Cunha, nos
mostra as chagas de um país dividido. De um lado uma sociedade que
detinha o poder político e econômico, localizada no Rio de Janeiro e em
outras cidades costeiras, Do outro lado, particularmente no sertão
nordestino, cresciam homens e mulheres à, própria sorte, à mercê das
atitudes arbitrárias dos coronéis e dos chefes locais.
Com seu livro máximo, Euclides da Cunha provou que houve incúria
por parte das autoridades na repressão aos canudenses de Antonio
Conselheiro.
“E foi, na significação integral da palavra, um crime.
Denunciemo-lo” ( Nota preliminar).
Aquele povo ali abandonado, num cenário de miséria e abandono,
num lugar perdido entre caatingas e serras chamado Canudos, disparou o
grito do país até então não conhecido. O grito não pôde ser ouvido
porque não foi entendido pelos dirigentes que preferiram suplantá-lo com
armas, preferiram sufocá-lo com balas.
O crime reside na incompreensão de Canudos por parte do litoral.
Lemos em “O Homem” – capítulo V: “Eram, realmente fragílimos, aqueles
pobres rebelados. . . Requeriam outra reação. Obrigavam-nos a outra
luta. Entretanto enviamos-lhe o legislador Comblain; e esse argumento
único, incisivo, supremo e moralizador – a bala”.
Passarei agora a uma pequena análise sobre as outras produções
que nos deixou o nosso incomparável escritor.
2
) “Peru versus Bolívia”:
Livro publicado pela 1ª vez em 1907, em artigos do Jornal do Comércio,
foi imediatamente traduzido para a língua espanhola. O livro é composto
de 8 estudos . Trata de uma discussão de maior importância para os
países interessados, para o Brasil, para toda a América.
O livro nada mais é do que um estudo técnico sobre o litígio de
fronteiras entre os países Peru e Bolívia. Estuda o problema levando em
conta todos os aspectos que podiam levar à conclusão final: histórico,
geográfico, político e jurídico. O professor Francisco Venâncio Filho
disse bem acerca de Euclides da Cunha “Revela mais uma vez a sua
excepcional capacidade de pensador ao mesmo tempo que um profundo
conhecimento dos países da América do Sul. Por tudo isto, teve
excepcional repercussão em todo o continente”.
Com o tratado de Petrópolis, o Brasil acertou seus problemas
fronteiriços com a Bolívia. Coube ao Brasil o Acre que já era habitado e
defendido pelos nordestinos que para lá iam fugidos das secas.
O Acre havia sido proclamado independente em 1902. Por causa
desse acerto o Peru sentiu-se fraudado e reclama da Bolívia 720.000 Km2,
incluindo o Acre.
Euclides da Cunha, valendo-se desse rico material técnico e
histórico, mostra a existência de erros que terminaram por orientar a
delimitação territorial entre Peru e Bolívia.
Euclides da Cunha pôde presenciar o problema angustiante do
seringueiro nosso no Acre, isso fez com que ele passasse a se preocupar
com essa questão de delimitação de terra entre esses dois países. Tomou,
então, apaixonadamente o partido da Bolívia . Ele tornou-se o “Cavaleiro
andante da Bolívia contra o Peru”, conforme ele mesmo se definia.
Mais uma vez vemos Euclides da Cunha se posicionando como
advogado das causas injustas, embora muitos não o compreendessem e nem
tão pouco o compreendam hoje.
São palavras do escritor maior: “Muitos talvez não compreendam
que, numa época de cerrado utilitarismo, alguém se demasie em tanto
esforço numa advocacia romântica e cavalheiresca, sem visar um lucro, ou
interesse indiretos. Tanto pior para os que não o compreendam. Falham à
primeira condição prática, positiva e utilitária da vida, que é
aformoseá-la. . . “
Com esse espírito é que Euclides denunciou um erro defendendo
não os direitos da Bolívia, mas defendendo o Direito.
3
) “Castro Alves e seu tempo”:
Trata-se de uma conferência pronunciada por Euclides da Cunha, em 3 de
dezembro de 1907, no Centro Acadêmico XI de Agosto, da Faculdade de
Direito de São Paulo, a convite dos acadêmicos. A entrada foi paga, pois
a conferência se destinou a angariar fundos para uma herma do poeta
baiano.
4
) “Contrastes e Confrontos”:
Trata-se de uma coletânea de artigos saídos em sua maioria,
originalmente, na imprensa. Foram escritos por volta de 1904 e
organizados por um editor de Portugal. Entre os vários artigos há alguns
de grande interesse: “Plano de uma Cruzada”: o tema desse artigo é a
seca.
Vemos um Euclides preocupado com a ecologia. Ele critica a nossa
incapacidade criadora de combater a seca, principalmente por ser um
fenômeno previsível. “As secas do extremo norte delatam
impressionadoramente, a nossa imprevidência, embora sejam o único fato
de toda a nossa vida nacional ao qual se possa aplicar o princípio da
previsão”.
Euclides apresenta várias sugestões que formariam um plano
estratégico desta cruzada contra o deserto.
Sugeriu “a açudada largamente disseminada” – em virtude dos
vales e aproveitando as corredeiras das montanhas que a própria erosão
transformou em grande covas; “ a arborização em vasta escala” com
vegetais que sejam apropriados para aquele clima rude do sertão; “as
estradas de ferro de traçados adrede dispostos ao deslocamento rápido
das gentes flageladas”; “os poços artesianos, nos pontos em que a
estrutura granítica do solo não apresentar dificuldades insuperáveis”.
As soluções apresentadas por Euclides da Cunha mostram que ele
tinha profundo conhecimento do que falava e era muito interessado nesses
assuntos.
Num outro artigo do livro “Contrastes e Confrontos”, “Fazedores
de Desertos”, vemos também a preocupação de Euclides da Cunha, isso em
1904, com o problema da seca e da ecologia. Critica o desmatamento, a
queimada de árvores para obtenção de combustível único das nossas
locomotivas.
Euclides critica a ação devastadora do homem que não se preocupa
com o mundo em que vive.
Vemos sua posição neste trecho “Temos sido um agente nefasto e
um elemento de antagonismo terrivelmente bárbaro da própria natureza que
nos rodeia”.
Outro artigo que merece destaque é “Um Velho Problema” – artigo
escrito a 1º de maio de 1904 a propósito do Dia do Trabalho. Disserta
ele sobre questões trabalhistas; fala sobre o capital, o trabalho, a
produção, o uso da terra e, numa época em que ninguém tinha coragem de
abordar o assunto.
Ele afirma: “A força única da produção é o trabalho. A terra, as
máquinas, o capital não produzem sem o braço do operário”.
É portanto um artigo que aborda questões sociais e defende o
direito de greve do trabalhador.
Muitos outros assuntos ainda foram tratados por Euclides da
Cunha em “Contrastes e Confrontos”.
5
) “À Margem da História”:
obra publicada após a morte de Euclides da Cunha, também reunindo
artigos saídos da imprensa. Possui uma primeira parte dedicada aos temas
amazônicos, abrangendo quase metade do livro, deveria fazer parte de uma
outra obra do porte de “Os Sertões” que ele intencionava escrever. Seu
título seria “Um Paraíso Perdido”. Seria um “segundo livro vingador”.
Deveria referir-se à Amazônia, acusando os descasos pela terra e o
desprezo pelo homem.
Um texto particularmente antológico é “Judas Ahsverus”. Tendo
como ponto
de partida a festa de malhação de Judas, Euclides cria uma série de
correspondências entre o boneco de palha surrado que fica flutuando pelo
rio e a própria idéia da violência, solidão e, sofrimento do seringueiro
enganosamente atraído para a Amazônia. Dá-nos a impressão o texto de
que ao malhar o Judas, o homem amazônico se malha: “É um doloroso
triunfo. O sertanejo esculpiu o maldito à sua imagem. Vinga-se de si
mesmo: pune-se, afinal da ambição maldita que o levou àquela terra. . .”
( À Margem da História, p.76 ).
“Judas Ahsverus” denuncia as brutais formas de exploração do homem da
Amazônia no início deste século, o qual parece encontrar-se abandonado
até por Deus: “. . . o Redentor Universal não os redimiu; esqueceu-os
para sempre, ou não os viu talvez, tão relegados se acham à borda do rio
solitário, que no próprio volver das águas é o primeiro a fugir. . .” (
À Margem da História, p.73 ).
Podemos perceber que “Judas Ahsverus” e os demais textos
amazônicos de À Margem da História” são muito atuais.
No livro figura “Transacreana”, em que Euclides sonha com uma
estrada de ferro que seria fator de progresso e integração da região
Amazônica ao restante do país. Sonho quase realizado em A
Transamazônica. . .
No livro encontra-se também “Primado do Pacífico”, em que
Euclides da Cunha afirma que haveria uma grande guerra entre os Estados
Unidos e o Japão. Escrito em 1909, o conflito se deu em 1941. . .
Há no livro também “Viação Sul-Americana”- fala da deficiência
de nossas ferrovias e o aproveitamento dos rios para navegação.
Em 1939, veio a lume outro livro – “Canudos, Diário de uma
expedição”, onde se encontram todas as informações e apontamentos da
campanha. Euclides usou-os na elaboração do 3ª parte de os “Os Sertões”,
a Luta.
Também “Caderneta de Campo” – contendo anotações de Euclides da
Cunha durante as atividades em Canudos como repórter de guerra pelo “O
Estado de São Paulo”.
Além desses livros, Euclides da Cunha escreveu cartas, poesias e
relatórios. As cartas estão reunidas em “Euclides da Cunha e seus
amigos”, reunidas por Venâncio Filho.
As poesias estão nos seu caderno de poesias “Ondas”, são 84
poesias.
Há que se destacar ainda o “Relatório da Comissão Brasileiro –
Peruana de Reconhecimento do Alto Perus”.
São 77 páginas de um trabalho eminentemente técnico, de inteira
essência geográfica. Relata o seu desapontamento no primeiro contado com
o rio e com a terra amazônica.
Como disse no princípio, seria muito difícil falar de um assunto tão bem
abordado por outros professores sem ser repetitiva.
Para elaborar este meu estudo, eu pesquisei textos de Francisco Venâncio
Filho, Dálvaro da Silva, Everton de Paula, Paulo Dantas e outros.
Li também alguns textos dos professores rio-pardenses, Sr.Márcio
José Lauria e Sr.Valdir Ferreira. Quero expressar o meu carinho e apreço
a esses dois professores porque com eles aprendi muito sobre nossa
Literatura e sobre a Língua Portuguesa. Mais do que isso, aprendi a
apreciar as obras da Literatura porque sabemos existir nelas muito
daquilo que gostaríamos de ter escrito um dia.
Eles são cidadãos respeitados e queridos em nossa cidade pelo
muito que deram de contribuição pela nossa cultura, principalmente pelo
muito que já se dedicaram à Semana Euclidiana.
Aos maratonistas, gostaria de dizer que mais importante do que
participar da Semana Euclidiana é descobrir nos escritos deixados por
Euclides da Cunha, as belas lições de otimismo e patriotismo. Lições que
todos devemos assimilar para tentar amenizar os problemas brasileiros
que não são poucos.
Boa Sorte a todos!
Maria
Aparecida Granado Rodrigues |
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EUCLIDES DA CUNHA HISTÓRICO: DA INDEPENDÊNCIA À
REPÚBLICA
¨ PROF. MARCOS DE MARTINI
FEUC - ÁREA I B E II
Entre as diferentes interpretações que podem ser
dadas ao estilo literário de Euclides da Cunha, ultimamente, tenho
apreciado o seu lado histórico. Como pessoa política que viveu momentos
decisivos do final do século XIX e início do XX, Euclides foi testemunha
de capítulos referenciais da história de nosso país. É sob este ângulo
histórico, como já o tinha feito em anos anteriores respaldado por "Contrastes
e Confrontos", que busco em "À Margem da História", no
capítulo intitulado "Da Independência à República" (ensaio), um
pouco de Brasil pelo crivo de Euclides da Cunha. No extenso ensaio
histórico, Euclides apresenta uma detalhada análise da formação
histórica do Brasil desde os primórdios coloniais até o desenlace
republicano.
Euclides abre seu estudo através de uma análise com
informações sobre a formação territorial e a definição das fronteiras do
Brasil, descrevendo situações de disputa diplomática e militar vividas
com nossos vizinhos sul-americanos. É esse o Brasil que ainda buscava
uma identidade própria, carregando as pesadas marcas da dominação
estrangeira, que chega ao século XIX e encontra Euclides da Cunha, um de
seus intérpretes mais sinceros. Euclides definiu o Brasil como sendo:
"...vários agrupamentos em que se repartia o povoamento rarefeito ... e
de todo desquitados entre si, não tinham uniformidade de sentimentos e
ideais que os impelissem a procurar na continuidade da terra a base
física de uma Pátria."
Esse Brasil, que seguiu pelos caminhos traçados pelos
bandeirantes, não conseguiu construir uma unidade de pensamento.
Distâncias continentais fracionavam uma população ainda rarefeita,
impedindo a comunicação e a formação de um sentimento que unisse os
diversos brasis em torno de uma nacionalidade. O exemplo maior vem dos
atos protagonizados no final do século XVIII, quando surgiam os
primeiros sinais de inconformismo como o exclusivismo metropolitano,
alimentados na época pelo ideário iluminista. "O drama da
Inconfidência terminara recentemente no Sul, sem que o seu desenlace
trágico comovesse o Norte, onde, por sua vez, em quadra mais recente, a
luta contra os batavos se abrira e se encerrara com o divórcio completo
das gentes meridionais."
Na seqüência da análise, Euclides reserva especial
destaque à figura do príncipe português D. João e ao envolvimento da
metrópole portuguesa nas guerras napoleônicas. A transferência da corte
para o Brasil, ação efetivada com o apoio da marinha inglesa, e as
conseqüências conhecidas desse ato, são amplamente revistas pelo autor.
Internamente, se não havia um ponto de união do povo
brasileiro, foi necessária uma agitação externa para abalar
irremediavelmente os alicerces de três séculos de domínios coloniais
portugueses. "Alguém, porém, cuja missão prejudicial é hoje ponto
incontroverso, malgrado os brilhos de uma glória militar indiscutível,
ia realizar, sem o querer, completa transmutação em nossos destinos."
Euclides faz referência às guerras napoleônicas e
seus reflexos no reino português invadido pelas tropas francesas e os
desdobramentos na colônia brasileira em decorrência da instalação da
corte fugitiva. Apesar da intensa diplomacia do monarca português,
tentando manter o insolvente reino afastado dos interesses beligerantes
de ingleses e franceses, uma titubeante posição deveria ser tomada. A
opção pelos britânicos precipitou a reação napoleônica e a invasão
comandada pelo general Junot que "...apavorou o mais inofensivo dos
reis." Assim: "Lançavam à nossa terra o único estadista capaz de
a transfigurar."
Neste ano de 2008, ao relembrarmos os 200 anos da
transferência da corte portuguesa para o Brasil, fugindo do assédio
francês, outros pesquisadores do período trouxeram novas abordagens
sobre esse momento. Podemos,assim, comparar estas análises ao pensamento
de Euclides da Cunha formulado por volta de 1900.
Na visão do historiador José Murilo de Carvalho:
"O príncipe dom João podia ter decidido ficar em Portugal. Nesse caso, o
Brasil, com certeza, não existiria. A colônia se fragmentaria, como se
fragmentou a parte espanhola da América. Teríamos, em vez do Brasil de
hoje, cinco ou seis países distintos. Sem a França, ele não teria
pensado em sair. Sem o Reino Unido, ele não teria conseguido sair."
Esta visão de José Murilo de Carvalho está muito
popularizada, sendo uma das principais linhas de interpretação. Mostra
que a transferência foi um ato de estadista, se comparado ao que havia
acontecido com a Espanha. O reino vizinho de Portugal acreditou em uma
parceria com Napoleão e acabou tendo seu rei deposto e o trono ocupado
pelo usurpador José Bonaparte, irmão do imperador francês.
Para Carvalho "... a grande diferença em relação à
América espanhola foi a manutenção da unidade da colônia portuguesa e a
monarquia. Daí veio o Brasil de hoje. Se para o bem ou para o mal, é [o
escritor] Guimarães Rosa quem decide: "Pãos ou pães, questão de opiniães...".
A análise de D João VI traçada por Euclides é muito
pertinente ao momento, coincidindo com pareceres historiográficos mais
recentes. A princípio, o governante português é definido como "um
medíocre" que foi predestinado. Já os seus atos, decorrentes da
transferência da corte para o Brasil, serão responsáveis pela abertura
de uma fenda na estrutura colonial que não mais se fechará até o 7 de
setembro de 1822. Atitudes de grande valor para o momento, a despeito de
outras pressões e interesses envolvidos, foram capazes de relegar "a
segundo plano todas as falhas de uma educação imperfeita que, ...o
tornaram por vezes inferior às exigências da dignidade real".
Contrapondo-se esta visão sobre D. João, lançando
outra não tão enaltecedora, o historiador Evaldo de Cabral e Mello vê
outro sentido para o fato de 1808 e a figura do rei português. "Essa
coisa de fazer festa em torno de D. João 6º é armação de carioca para
promover o Rio... Também ninguém dá importância ao fato de que dom João
VI esvaziou nosso erário antes de partir. Todos lembram que ele fundou o
Banco do Brasil, mas nunca que deixou o Brasil falido quando foi embora
daqui. E agora ficam com essa história de que D. João VI se apaixonou
pelo Brasil, pelo Rio, por São Cristóvão... É tudo de um sentimentalismo
muito besta e apelativo."
Passados os momentos de maior tensão e com a
adaptação às terras tropicais sendo efetivada, mesmo a contragosto, as
medidas tomadas pelo príncipe regente ou meramente assinadas por ele,
seguindo orientações maiores, começavam a dar uma nova cara ao Brasil.
Para Euclides, esses primeiros atos já bastavam para enobrecer-lhe. "Foi,
em primeiro lugar, um estóico."
Foi neste raiar de um novo Brasil que, além dos
decretos políticos, veio a abertura para a imprensa na colônia. Desde
muito antes, nas colônias espanholas, já havia publicação de periódicos,
o que muito fazia falta no Brasil, não fosse o esforço de Hipólito José
da Costa e seu Correio Brasiliense, rodado nas tipografias inglesas.
No campo das artes, coube também a D. João VI durante
sua permanência na capital colonial, depois de encerrado o conflito em
terras européias, dar novos ares à cultura brasileira. Na pintura, o
mundo conhecia um pouco do Brasil pelos frios olhares de Eckhout e Post,
artistas que estiveram no Brasil durante a dominação holandesa no século
XVII. Com a criação da Academia de Belas-Artes, uma série de artistas e
estudiosos, principalmente franceses, produziram um novo olhar sobre as
coisas do Brasil. Destes, sem dúvida, um dos nomes mais conhecidos,
referencial moderno a qualquer análise do cotidiano brasileiro do século
XIX, foi o artista francês Jean-Baptiste Debret.
Outro momento decisivo deste período analisado por
Euclides da Cunha foi o conturbado processo político de nossa
independência. Mais uma vez D João VI "... tergiversou, consoante o
seu antigo hábito, irresoluto, entre os brasileiros, que o atraíam, e os
portugueses, que o intimavam a aceitar a Constituição... e a voltar
depois para o reino." Diante de uma decisão que pareceria a mais
prudente para tamanha pressão das Cortes, que fantasiavam "um Brasil
anterior a Tomé de Sousa", D. João VI retorna a Lisboa, mas garante
a permanência do príncipe D Pedro em terras coloniais. Nesse momento,
estava sendo decidida a ruptura "amigável" com a metrópole e,
principalmente, para as elites, a manutenção dos seus privilégios e da
unidade territorial, diferente do que ocorria nas repúblicas espanholas
vizinhas, fragmentadas e submetidas a interesses de caudilhos
autoritários. Feita a independência a opção monárquica, comenta
Euclides, "...foi decisiva, oportuna e benéfica".
Entretanto, o governo imperial de D. Pedro I não se
consagrou pela tranqüilidade política. O clamor popular do 7 de setembro
se dissipará rapidamente diante dos rompantes absolutistas do príncipe.
Problemas de toda ordem tumultuaram a vida dos brasileiros, cada vez
mais desiludidos com os atos absolutistas do imperador. "Estávamos
como nos grandes dias da Convenção... O país era ingovernável. O
baralhamento das idéias principiava a alastrar-se nas ruas em desordens
sanguilentas entre nacionais e portugueses... Era o desfecho. D Pedro I
abdicou no imperador infante... O 7 de abril era inevitável",
escreveu Euclides encerrando o primeiro reinado.
Já no período regencial, fase em que antecede a posse
do segundo imperador, ocorrem seguidas revoltas que agitam o Império.
Diante de uma ruptura iminente, somente a posse do novo herdeiro traria
a luz da normalidade política ao irresoluto império. Até então, uma
sucessão de novas lideranças e ideais políticos põem em risco a
permanência da Monarquia brasileira. A idéia de república tem seus
lampejos entre a classe política mais radical.
O país vivia, segundo Euclides, diante dos
enfrentamentos populares, "... o crescente desequilíbrio entre os
homens do sertão e os do litoral. O raio civilizador refrangia na costa.
Deixava na penumbra os planaltos." Por todo o país agitações
perturbadoras assustavam a classe política que, temerosa, buscava uma
solução que preservasse seus interesses e a unidade territorial do país.
A antecipação da maioridade do príncipe herdeiro é apresentada como
salvação para um império em crise.
Com a posse do jovem Imperador Pedro II, em 1840, as
revoltas persistem, mas caminham para o fim por via pacífica ou pelo uso
das armas. No caso do Maranhão, "... os Balaios fugiam diante de um
general feliz, Luís Alves de Lima e Silva (Caxias), cuja espada seria a
escora de um reinado".
Em meio a tanta agitação política, um Brasil das
cavernas ganha o mundo. Pesquisadores do Velho Mundo buscam nos sertões
brasileiros novos elementos para suas ciências. Um dos mais ilustres
desse momento foi o dinamarquês Willian Lund, paleontólogo que, "...
de seu retiro tranqüilo da Lagoa Santa, principiara a abalar o mundo
científico com suas extraordinárias descobertas sobre o brasileiro
pré-histórico". Hoje sabemos, com o avanço das pesquisas
arqueológicas nos sítios de Lagoa Santa, em Minas Gerais, que a citação
de Euclides da Cunha refere-se aos fósseis dos mais antigos habitantes
do Brasil. Um deles, melhor estudado pelas técnicas modernas de datação
e verificação genética, é de uma mulher pré-histórica, chamada pelos
cientistas de "Luzia", com idade aproximada de 11 mil anos.
No plano político, o segundo Império notabilizou-se
por uma alternância no poder entre os grupos políticos Liberais e
Conservadores. Em determinados momentos havia a conciliação das
lideranças elitistas dos dois grupos, "Luzias" e "Saquaremas", excluindo
desse debate os interesses da grande maioria da população. Seriam,
assim, farinha do mesmo saco como, até hoje, identificamos muitos dos
nossos partidos e seus filiados.
Para Euclides, o Segundo Império trazia à luz uma
questão que já se arrastava desde o século XVIII – a escravidão. Já nas
primeiras décadas do século XIX, a pressão interna pela abolição ganhava
força, somando-se ao movimento exercido pela Inglaterra, atingindo o
ponto máximo em 1850, com o fim do tráfico negreiro para o Brasil. "A
lei de 4 de setembro de 1850 imortalizou o Ministro da Justiça Eusébio
de Queiróz e, severamente aplicada, avantajou-se às balas dos cruzeiros
ingleses, extinguindo inteiramente o tráfico".
As questões platinas também ocuparam espaço nessa
análise do século XIX feita por Euclides da Cunha. As ingerências de
Brasil e Argentina na pequena república do Uruguai, acabam por preparar
o cenário para um outro conflito maior, agora envolvendo o Paraguai de
Francisco Solano Lopez.
Para Euclides da Cunha: "A Guerra do Paraguai é um
desvio na nossa história. A sua causa mais próxima está, talvez, na
interferência de duas vontades, injustificáveis ambas. De um lado o
delírio de grandezas de um déspota minúsculo demais para sua própria
ambição, de outro a diversão temerária de um imperador constitucional,
porventura impressionado com o cenário da política interna do seu país."
Iniciado o conflito, o rompante de Lopez
demonstrou-se desproporcional às suas reais estratégias de guerra. "Faltou-lhe,
porém, a envergadura e o lance de vistas de um conquistador. Comprometeu
logo a sua causa com duas invasões desastrosas... Com estes dois erros
estava perdido aos primeiros passos. O que houve depois foram cinco anos
de memoráveis conflitos."
No mesmo ano em que se encerrava a Guerra do
Paraguai, outra manifestação política despontava no cenário nacional
trazendo um elemento em total oposição ao regime monárquico. Era o
alvorecer da República, a partir do Manifesto de 1870. "O que
aconteceria até as vésperas do 15 de novembro – começava a esboçar, de
fato, uma outra "Conciliação", mas, esta, agora, definitiva – a
República".
O Brasil vivia um período de euforia progressista,
malgrado as vicissitudes políticas entre liberais e conservadores, já
que os republicanos somente bradavam suas idéias sem muita confiança e
respaldo eleitoral. As ferrovias avançavam pelas principais áreas
econômicas do país atrás das lavouras de café, que alcançavam regiões
mais remotas do interior paulista. Traziam novo alento ao
desenvolvimento de novos núcleos de povoamento, agora associado à
chegada dos imigrantes, novos moradores vindos de terras distantes da
Europa e desejosos por construir uma vida nova. Províncias se uniam pelo
telégrafo submarino, linhas telegráficas atingiam extremos dos sertões e
o cabo submarino ligava o Brasil ao mundo europeu.
Entretanto, a própria modernidade da segunda metade
do século XIX também traria o aprofundamento das questões políticas e
sociais. O crescimento do ideário republicano, aliado aos temores da
sucessão de D Pedro II, fizeram convergir forças aparentemente
antagônicas. A força republicana, que tinha suas maiores expressões
entre a elite agrária paulista vê, de maneira súbita, os militares
assumirem as rédeas do movimento pela mudança do regime.
Não bastasse esse conjunto de situações, o processo
abolicionista atinge seu ápice nas vésperas do 15 de novembro. Para
Euclides, "a abdicação graciosa e belíssima do 13 de maio de 1888, em
que o ministério conservador do Conselheiro João Alfredo cortou as
últimas amarras do Império, abandonando-o na caudal irresistível das
idéias republicanas. ...Impertinente em 1822, inoportuna em 1831,
abortícia em 1848, era-o a República, sobretudo porque se não podia
inverter a série natural da evolução humana". Concluía-se, então, a
República.
D Pedro II, já debilitado pela idade e interessado
por questões mais amenas, longe das querelas do poder, recolhia-se em
ambiente mais interessante, o que não o livrava das pesadas críticas.
Mostrando a relevância da figura política de D. Pedro
II, em um recente artigo de jornal, Ferreira Gullar sentenciou sobre o
que chamou de "O Imperador Republicano": "Aliás, ele lia como
ninguém, e seu interesse pelas ciências, pela literatura e pelas
religiões durou toda a vida. Falava latim, francês, inglês, alemão,
italiano e espanhol; lia grego, árabe, hebraico, sânscrito, provençal e
tupi-guarani. Os caricaturistas, no entanto, o ridicularizaram por ler
muito e ter por hobby a astronomia. A intenção era mostrar que ele vivia
no mundo da lua e talvez vivesse, mas nem sempre, porque, quando Solano
López invadiu Mato Grosso, ele montou num cavalo, dirigiu-se ao Paço
Imperial e ali conclamou o povo a defender a honra do Brasil. Finda a
guerra, quiseram erguer duas estátuas em sua homenagem. Ele repeliu a
idéia, tal era seu horror a pompas e rapapés.Duramente criticado pelos
jornais, defendeu a liberdade de imprensa. Ao longo de seu reinado,
nunca aceitou aumento da dotação do Estado à família imperial. Não
acumulou dinheiro, as viagens que fazia ao exterior eram custeadas com
empréstimos pessoais e ainda doava parte da dotação ao Tesouro. Quantos
políticos brasileiros você conhece com tal desprendimento?"
Traçado este cenário da vida política do Brasil, nos
momentos de ruptura do século XIX, como então explicar mudanças tão
drásticas, ocorridas de formas tão rápidas e serenas?
Para Euclides, teriam sido as próprias mudanças do
século XIX, a modernidade que se avolumava, a despeito de propagandistas
eloqüentes, concepções filosóficas inovadoras e ações de militares
descontentes, o verdadeiro propulsor da república. Assim,
"compondo-se com uma aspiração antiga e não encontrando entre nós
arraigadas tradições monárquicas, removeram, naturalmente, sem ruído –
no espaço de uma manhã – um trono que encontraram... Foi o que se viu a
15 de novembro de 1889; uma parada repentina e uma sublevação... Porque
a revolução já estava feita".
Assim é Euclides da Cunha histórico. E a História não
o contradiz em muito.
Professor Marcos De Martini
FEUC - Departamento de História
São José do Rio Pardo
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ANTÔNIO CONSELHEIRO E A GUERRA DE CANUDOS
DE ANTÔNIO VICENTE A ANTÔNIO CONSELHEIRO
PROFESSOR NICOLA
Antônio Vicente Mendes Maciel nasceu em Quixeramobim,
no Ceará, em 1830. Seu pai, Vicente Antônio Maciel, abandonou a ocupação
tradicional de vaqueiro para tornar-se um pequeno comerciante que teve
recursos para custear os estudos elementares do filho, que aprendeu a
ler, escrever e também latim com um professor local. Talvez o pai
quisesse encaminhá-lo para o sacerdócio, o que naquela significava poder
e influência social. A família Maciel era rival da família Araújo há
muito tempo, mas Vicente Maciel não se envolvia nos conflitos que
causavam mortes em ambas. O menino ficou órfão de mãe aos 6 anos e seu
pai casou novamente. Antônio Vicente passou a ser maltratado pela
madrasta que era desequilibrada. Há poucos depoimentos sobre a infância
e a adolescência de Antônio Vicente. Morto o pai, em 1855, Antônio
cuidou dos negócios e das três irmãs até casá-las. Em seguida casou-se
também, com sua prima Brasilina, que era analfabeta. Falido, deixou
Quixeramobim, trabalhando em fazendas como professor, caixeiro viajante,
domador de cavalos, advogado provisionado, perito criminal, etc. Quando
estava em Ipu, sua mulher fugiu com um sargento. Saiu a procurá-los para
vingar-se, mas pouco depois passou a viver com Joana Imaginária, artesã
modeladora de imagens,com quem teve um filho. Em 1871, seu principal
credor acionou a justiça que condenou-o a pagar a dívida, o que não fez,
tendo sido penhorados seus poucos bens. A partir daí, Antônio sofreu
grande mudança pessoal, tornando-se andarilho e pregador religioso
católico através do sertão nordestino, ou seja, um beato. Seu modelo
deve ter sido o cearense José Antônio de Maria Ibiapina (1806-18??), um
ex-juiz de Direito e deputado federal de Quixeramobim que protegera a
família Maciel contra a família Araújo, e que depois de enviuvar,
abandonou a toga, distribuiu seus bens e ordenou-se sacerdote, passando
a atuar como missionário em favor dos pobres durante 28 anos
(1855-1883). O padre Ibiapina organizou 22 casas de caridade, hospitais,
açudes, capelas, cemitérios e escolas. Manteve-se obediente à Igreja
Católica, mas passivo diante da estrutura econômico-social e respeitoso
às autoridades, ao contrário de Antônio Conselheiro. Antônio Conselheiro
usava cabelos e barba longos, vestia um roupão azul e calçava sandálias.
Não se isolou da sociedade, pois trabalhava reparando ou construindo
igrejas, cemitérios, capelas, tanques para armazenar água etc.
Ouviram-no dizer em 1873 que havia feito uma promessa de construir 25
igrejas fora do Ceará. Recebeu vários apelidos (Antônio dos Mares, Santo
Antônio Aparecido, Bom Jesus), ficando conhecido definitivamente como
Antônio Conselheiro. Dizia ser um pecador a pagar os próprios pecados.
Recusava-se a ser adorado e chamava os semelhantes de ``irmãos``, sendo
chamado de ``meu pai`` por eles. Aos poucos, superou a timidez e
tornou-se um líder popular. Começou a ter seguidores (brancos pobres,
negros, índios, caboclos, gente de posse e miseráveis), o que despertou
a hostilidade dos fazendeiros, que perdiam trabalhadores, e de grande
parte da Igreja Católica, que não via com bons olhos aquele pregador
que, embora fosse católico, insistia em fazer prédicas e arrastava seus
fiéis. O clero solicitou providências às autoridades policiais e, em
1876, Antônio Conselheiro foi preso na vila de Itapicuru, no sertão
baiano, sob a acusação de "ser ele criminoso de morte no Ceará", de ter
assassinado a mãe e a espôsa… Foi maltratado e humilhado pelos soldados,
enviado para Salvador e dali para o Ceará. Em Quixeramobim, sua terra
natal, o Juiz Municipal mandou soltá-lo, pois `` tendo verificado não
ser o referido Maciel criminoso, o mandei pôr em liberdade alguns dias
depois de sua chegada a esta cidade``. Regressando à Bahia, Antônio
Conselheiro teve o prestígio e o número de seguidores aumentado,
favorecido que foi pela terrível seca que assolou o Nordeste entre 1877
e 1879. Ele e seu grupo viviam de doações, de coleta, de frutos
silvestres, de caça, etc, mas nunca de roubos e furtos. Trabalhavam na
construção ou reparos de açúdes, estradas, igrejas, tanques e
cemitérios, sob a liderança de Antônio Conselheiro, que, assim, "dava um
sentido à vida dos sertanejos, demonstrando no dia-a-dia os limites do
poder autocrático do Estado, da Igreja e dos latifundiários e, mais
ainda, a possibilidade de superação desta ordem social" (Villa, M. A.,
p. 29)
As autoridades eclesiásticas católicas da Bahia
continuaram a perseguí-lo, porém, alegando que Antônio Conselheiro
divulgava ``doutrinas supersticiosas`` (1882) ou `` doutrinas
subversivas``(1887). O governo baiano chegou a solicitar ao governo
imperial, a pedido do Arcebispo de Salvador, uma vaga no ``Hospício dos
Alienados`` do Rio de Janeiro para Antônio Conselheiro, mas a resposta
foi que não havia vaga… A abolição da escravidão, em 1888, levou muitos
ex-escravos, apelidados de ``treze de maio" no sertão baiano, a procurar
e a seguir Antônio Conselheiro, engrossando o seu séquito.
A CRISE DA REPÚBLICA BRASILEIRA
0s últimos trinta anos do século XIX sobrecarregaram
a sociedade brasileira com tensões de conflitos das mais diferentes
espécies. Terminada a guerra contra o vizinho Paraguai em 1870, o
cenário nacional passou a presenciar choques de interesses entre
monarquistas e republicanos, escravistas e abolicionistas, Exército e
Marinha, conservadores e liberais, católicos e positivistas, Igreja e
Estado, fazendeiros e imigrantes, etc. Decretada a abolição em 1888, e
proclamada a República em 1889, o país não conheceu a estabilidade que
se esperava. Novos choques afloraram entre partidários do liberalismo
econômico e do protecionismo estatal, deodoristas e florianistas, civis
e militares, fazendeiros de café e militares, partidários da federação e
de centralização política, imprensa republicana e imprensa monarquista,
maragatos e pica-paus no Rio Grande do Sul, autoridades eclesiásticas e
beatos, etc.
É que logo após a proclamação da República, em
novembro de 1889, o novo regime chefiado pelo marechal Deodoro adotou a
federação, dando autonomia aos estados, separou a Igreja do Estado,
instituiu o casamento civil, exilou a família imperial, garantia a
liberdade de consciência e expressão, adotou uma nova bandeira com o
lema "Ordem e Progresso" extraído da filosofia positivista do pensador
francês Auguste Comte. O fracasso da polítíca econômica chamada
"Encilhamento", da autoria do ministro Rui Barbosa, e as atitudes
atabalhoadas do marechal Deodoro provocaram uma séria crise no Governo
Provisório da República. Mesmo assim, Deodoro conseguiu eleger-se
Presidente por pequena maioria de votos na eleição indireta realizada
pela Assembléia Nacional Constituinte. O vice-presidente eleito,
marechal Floriano Peixoto, atraía para si todos os descontentes contra
Deodoro. No início de novembro de 1891, o Congresso Nacional foi fechado
por ordem de Deodoro que tornou-se ditador. Vinte dias depois, porém, a
Marinha revoltou-se contra Deodoro que renunciou para evitar a guerra
civil. Embora a Constituição de 1891 estabelecesse que uma nova eleição
presidencial devia ser realizada, pois Deodoro não havia completado a
metade do mandato, como mandava a Constituição, o vice Floriano assumiu
e governou de fato. Para conseguir apoio político, Floriano reabriu o
Congresso Nacional que Deodoro havia fechado, levantou a censura nos
jornais, depôs os governadores estaduais que haviam apoiado o golpe de
Deodoro, prendeu opositores e obrigou outros a se exilarem. Descontente,
a Marinha revoltou-se contra Floriano esperando derrubá-lo, mas ele
resistiu durante vários meses até derrotá-la. Bem antes disso, porém,
tivera início no Rio Grande do Sul a chamada Revolução Federalista
envolvendo os maragatos, seguidores de Silveira Martins, contra os
pica-paus, seguidores de Júlio de Castilhos. Este conseguira aprovar uma
Constituição estadual inspirada nas idéias positivistas autoritárias que
permitia a reeleição indefinida do governador gaúcho. Os maragatos
pegaram em armas contra os castilhistas. A Marinha rebelada contra
Floriano na baía de Guanabara passou a apoiar os maragatos no RS, o que
levou Floriano a apoiar Júlio de Castilhos e os pica-paus. Ao aderir à
revolta da Marinha contra Floriano, o almirante Saldanha da Gama lançou
um manifesto propondo "repor o Governo do Brasil onde estava a 15 de
novembro de 1889", isto é, a restauração da monarquia. Assim, a Marinha
e os maragatos ficaram associados à restauração monárquica, enquanto
Floriano e os pica-paus ficaram identificados à República. Em alguns
meses, Floriano e Castilhos venceram seus adversários. Nesse conflito
sulista, era comum a prática da degola em prisioneiros.
Temia-se que Floriano não deixasse o poder, mas isso
não ocorreu. O novo presidente eleito, o advogado Prudente de Moraes
Barros, representante da poderosa aristocracia rural cafeeira paulista,
assumiu o cargo sob a desconfiança dos militares, e simpatizantes de
Floriano Peixoto. Além disso, as dificuldades financeiras provocadas
pelos gastos do governo anterior com as revoltas e pela crise do café
(superprodução e queda de preços no mercado internacional) tornavam o
governo de Prudente bastante vulnerável politicamente. A saúde precária
do presidente tornava ainda mais incerto o seu mandato. Foi nesse clima
que o episódio de Canudos atingiu o clímax.
AS IDÉIAS DE ANTÔNIO CONSELHEIRO
Num manuscrito encontrado após a guerra, e em cuja
primeira página está escrito "A presente obra mandou subscrever o
peregrino Antônio Vicente Mendes Maciel no povoado do Belo Monte,
província da Bahia em 12 de janeiro de 1897", estão as idéias
religiosas, sociais e políticas do líder sertanejo. Nas 624 páginas que
o compõem, 29 são meditações intituladas "Tempestades que se levantam no
coração de Maria", 10 correspondem a comentários sobre os Mandamentos,
outras são textos copiados da Bíblia e nas páginas finais estão suas
opiniões sobre sociedade e política. Cita santos católicos como
Agostinho, João Crisóstomo, Tomás de Aquino, Bento, Basílio, Pedro
Damião, Thomas More ( o autor do livro "Utopia") e santas como Teresa e
Madalena de Pazins. Sua visão de mundo era religiosamente teocêntrica ,
politicamente teocrática e socialmente conservadora.
Ao comentar o sétimo mandamento, "Não roubar",
anotou: "Que ofensa terrível comete neste preceito aquele que furta
qualquer coisa do próximo (…) Antes deveis pedir (no caso de achar-vos
sem meios de subsistência para vós e a vossa família), do que tirar a
mínima coisa do próximo (…) Se o primeiro passo dado pelo ladrão na
carreira do crime fosse logo rigorosamente punido, a ponto de não sair
da cadeia, não haviam de se ver tantas desgraças. Um brado unânime se
deve pronunciar contra os ladrões, pelos prejuízos que causam com tão
enorme procedimento. Sim, não se deve protegê-los para exemplo daqueles
que os queiram imitar". Quanto ao décimo mandamento, "Não cobiçar nada
do próximo", comenta: "É certo que cada um deve conformar-se com o seu
estado; se vive oprimido do peso da indigência , deve sofrer
pacientemente. A felicidade do homem consiste em conformar-se à vontade
de Deus". Insistia em afirmar que a pobreza neste mundo está associada à
santidade. Condenava o comerciante inescrupuloso e a cobrança de "juro
excessivo daqueles que estão na precisão". Defendia a submissão da
mulher ao pater familias. Quanto ao adultério, condenava-o se a mulher o
cometesse, não sendo rigoroso quando fosse praticado pelo homem: "E se
seus maridos lhes derem exemplo neste particular , nem por isso lhes
venha tal tentação de os ofender com outra semelhante injúria; porque
além da ofensa que fazem a Deus, põem as suas vidas em perigo de serem
castigadas pela justiça ou mortas por seu marido". Às mulheres, sugeria,
"ocupem-se (…) em bons exercícios e não estejam ociosas. Devem evitar os
passeios, tomando assim o exemplo do lastimoso caso que sucedeu a nossos
primeiros pais". Criticava os judeus, "os maçons, protestantes e
republicanos, porque eles também só acreditam na Lei de Moisés,
espalhando assim doutrinas falsas e errôneas aos ignorantes". Antônio
Conselheiro criticou os judeus em 16 oportunidades em seu manuscrito e
sua principal acusação era a de que eles eram os responsáveis pela morte
de Jesus Cristo e não aceitavam a doutrina cristã. Em nenhum momento
menciona o rei português D. Sebastião em seu manuscrito.
O CONSELHEIRO CONTRA A REPÚBLICA
Politicamente, Antônio Conselheiro repudiava a
república e defendia a monarquia. Para ele, "todo poder legítimo é
emanação da Onipotência eterna de Deus e está sujeito a uma regra
divina, tanto na ordem temporal como na espiritual, de sorte que,
obedecendo ao pontífice, ao príncipe, ao pai, a quem é realmente
ministro de Deus, só a Deus obedecemos". A proclamação da República, em
novembro de 1889, provocou mudanças inaceitáveis para Antônio
Conselheiro que era católico, monarquista, abolicionista e favorável
apenas ao casamento religioso. Os republicanos separaram a Igreja do
Estado, decretaram a liberdade religiosa, instituíram o casamento civil
obrigatório e exilaram a família imperial. Sugeria que " os pais de
família não obedeçam à lei do casamento civil, evitando a gravíssima
ofensa em matéria religiosa que toca diretamente a consciência e a
alma". Assim, Antônio Conselheiro entrou em choque com a República, que
considerava "um grande mal para o Brasil", sonhando com a restauração do
regime monárquico, o que foi largamente explorado por seus adversários.
Previa que "a república há de cair por terra para confusão daquele que
concebeu tão horrorosa idéia". Atribuía a abolição da escravidão à
bondade da princesa Isabel, e não como uma decisão política e social.
Ele era pregador leigo, não fazia milagres e não era curandeiro.
Escrevia suas próprias prédicas e tinha uma boa erudição, citando
autores clássicos e santos católicos. Como assinalamos acima, o regime
republicano vinha atravessando instabilidades decorrentes do fracasso da
política econômica representada pelo Encilhamento; pela queda dos preços
do café no mercado internacional; pelas agitações políticas nos estados;
pela Revolução Federalista que atingiu o RS, SC e o PR; pelas duas
revoltas da Marinha, a primeira provocando a renúncia de Deodoro à
presidência, e a segunda tentando derrubar Floriano, sem sucesso; pela
oposição dos florianistas ao presidente civil paulista Prudente de
Moraes Barros, etc. Todas as tensões, violências e rancores
desencadeados por esses conflitos, acrescidos às condições políticas e
sociais específicas existentes na Bahia, foram canalisadas contra
Canudos, para a terrível e trágica guerra no sertão da Bahia, provocando
a sua destruição e uma matança sem precedentes.
Importantes autores como Norman Cohn, Maria Isaura
Pereira de Queiroz, Eric Hobsbawn e Max Weber assinalaram | |