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TEXTOS SEMANA EUCLIDIANA 2008

 

“OS FAZEDORES DE DESERTOS E A PERMANÊNCIA DO PENSAMENTO EUCLIDIANO”

 Prof. Guilherme Félice Garcia

  
"Esquecemo-nos, todavia, de um agente geológico notável – o homem. Este, de fato, não raro reage brutalmente sobre a terra e entre nós, nomeadamente assumiu, em todo o decorrer da história, o papel de um terrível fazedor de desertos. Começou isto por um desastroso legado indígena. Na agricultura primitiva dos silvícolas era instrumento fundamental – o fogo.”


A citação acima se refere aos desertos provocados na região do nordeste com as queimadas praticadas de modo desastroso que, ao longo do tempo, foram devastando imensas áreas de "flora estupenda".

Não foi ela extraída de algum manual de entidades ecológicas, entre tantas nacionais e internacionais que criticam a omissão brasileira na questão das queimadas havidas na floresta amazônica. Ela é de autoria de Euclides da Cunha, ao estudar "a terra" em seu livro "Os Sertões", cuja primeira edição apareceu em 1902.

 

Em outro momento de Euclides vemos em “Contrastes e Confrontos” no texto “Fazedores de Desertos”.

 

“Atacaram a terra nas explorações mineiras a céu aberto; esterilizaram-na com o lastro das grupiaras; retalharam-na a pontaços de alvião; degradaram-na com as torrentes revoltas; e deixaram, ao cabo, aqui, ali, por toda a banda, para sempre áridas, avermelhando nos ermos com o vivo colorido da argila revolvida, a£ catas vazias e tristonhas com o seu aspecto sugestivo de grandes cidades em ruínas...
Ora, tais selvatiquezas atravessaram toda a nossa história.”

 

Em “Os Sertões” ele ainda conclui: “ O martírio do homem, ali, é o reflexo de tortura maior, mais ampla, abrangendo a economia geral da Vida. Nasce o martírio secular da Terra.

 

Euclides, já então no início do século, demonstrando certa perplexidade e amargura, apontava o absurdo das queimadas para abrir espaços para a atividade pastoril ou, "ao mesmo tempo o sertanista ganancioso e bravo, em busca do silvícola e do ouro".
Um século se passou e a prática do fogo continuou destruindo desordenadamente as florestas brasileiras, praticamente extinguindo a mata atlântica e agora, em proporções assustadoras, a própria selva amazônica que por mais campanhas que sejam feitas continua nas mãos das madeireiras, sem que o governo tome alguma providência enérgica ou pelo menos firme perante a questão. É brutal a omissão oficial a essa calamidade, cuja fumaça cega transeuntes, fecha aeroportos e dificulta a respiração de crianças, exatamente na região antes conhecida como o "pulmão do mundo", qualificativo que fora um orgulho para nós brasileiros.
À omissão, aliam-se o absoluto desrespeito à vida, pela natureza e pelo mistério das matas virgens, com as milhares de vidas que sustentam, extintas, inapelavelmente, pelo fogo.
Pois esses indivíduos que exploram madeira na Amazônia, não costumam chamar de "pau" uma árvore com dezenas de anos, exuberante, em vias de ser cortada para ser vendida às serrarias estrangeiras? Não a transformou em mera mercadoria?
Em nossos dias, fala-se muito em ecologia nos discursos, nas solenidades simbólicas de plantio de árvores, nas escolas, mas, na prática, a realidade é dolorosa, assustadora e devastadora.
As autoridades que poderiam reverter esse processo criminoso omitem-se, fecham os olhos ao se depararem com a fumaça das queimadas e se voltam para a política barata, ao supérfluo, às questões e interesses partidários, à vaidade, à tolice, ao lucro de podem ter.
Há projetos de implantar o ensino permanente de ecologia nas escolas, de ordem que, no futuro, as crianças de hoje, cuidem da natureza, devotem mais amor por ela. Mas, o futuro já corre sérios riscos. O grave problema se verifica no presente. As ações devem ser tomadas agora, energicamente, de tal maneira que sobre algo para ser cuidado no futuro. Que valha a pena.

Podemos observar que palestras como a do ex-vice presidente americano Al Gore, que esteve recentemente no Brasil, causam impacto no mundo todo, então por que no tomamos uma providência concreta sobre  a questão?
O desrespeito chegou ao insuportável. O despreparo das entidades oficiais em enfrentar tais crimes é desanimador. Chega a ser patético. As entidades não governamentais (ONGs), por sua vez, apenas denunciam e denunciam, mas não saem a campo em campanhas de protesto e de conscientização com folhetos explicativos  debates na TV que tenham  certo nível de credibilidade.

E as queimadas abomináveis continuam.
Há mais de vinte anos, a revista "O Correio da Unesco", reportava-se ao "Avanço do Deserto" na Terra, esclarecendo uma das reportagens:


"Muitos acreditam que os desertos do Oriente Médio e da região mediterrânea foram criados pelo homem. Há dois ou três mil anos, as vertentes e as planícies do Líbano, da Síria, o litoral do Egito e da Tunísia eram cobertos por rica vegetação (lembremos os famosos cedros do Líbano) e forneciam a Roma grandes quantidades de madeira, cereais, azeitonas, vinho e outros produtos.
O abate de árvores, a destruição das florestas e da vegetação herbácea e o pisoteio das pastagens, juntamente com a erosão pelo vento e pela água, transformaram esses territórios em semi-desertos".


Incluindo as queimadas que em muito aumenta a gravidade da tragédia, estamos seguindo exatamente essa receita. A de construirmos desertos na região mais exuberante do planeta: a Amazônia.
Esse quadro desolador no "atacado", se manifesta também no "varejo" em todas as cidades. Árvores das ruas são cortadas indiscriminadamente, com a tolerância das autoridades, ora porque "fazem sujeira" com as folhas, porque dão sombra, porque danificam o asfalto e ora porque "esteticamente" incomodam o cidadão intolerante e insensato.
E, sem qualquer reflexão, às centenas, as árvores vão sendo cortadas das ruas sem serem substituídas, permanecendo seu toco como um alerta à insensibilidade humana.

E não só Euclides da Cunha se preocupou com o assunto, ao longo do século XX muitos cientistas, principalmente a partir da década de 1970 se preocuparam e denunciaram os problemas apontados acima sem que ninguém lhes desse crédito, como se os cientistas, pessoas que sabem o que dizem por conta de anos de estudos, fossem simplesmente lunáticos querendo provocar algum tipo de hesteria coletiva.

 

Observamos também que em razão do crescimento populacional, aumentaram as necessidades de consumo no mundo inteiro, o comércio reagiu, partindo com todas as forças para sua fonte de matérias-primas, ou seja, o meio ambiente. Mas se tudo isso é inevitável podemos pensar que o avanço científico e do uso de tecnologias deveria há muito tempo ter corrigido esse problema entre aumento da população e acesso aos recursos naturais, então voltamos a perguntar, onde estão as autoridades de país e do mundo que não atentam para o problema.

Praticamente todos os países do mundo se comprometeram em Kyoto a tomar providências com relação ao aspecto global, sem que na verdade muitas dessas ações não saíssem do papel.

Observem este outro trecho de “Fazedores de Desertos”:

 

As conseqüências repontam, naturais.
A temperatura altera-se, agravada nesse expandir-se de áreas de insolação cada vez maiores pelo poder absorvente dos nossos terrenos desnudados, cuja ardência se transmite por contato aos ares, e determina dois resultados inevitáveis: a pressão que diminui tendendo para um mínimo capaz de perturbar o curso regular dos ventos, desorientando-os pelos quatro rumos do quadrante, e a umidade relativa que decresce, tornando cada vez mais problemáticas as precipitações aquosas”.

 

Vejam quão atual é o trecho de cem anos...

Temos observado vários pontos do planeta com temperaturas inacreditáveis como em 2003 na Índia em que os termômetros chegaram a marcar 50°C, os furacões que passaram a assolar a costa sul brasileira a partir de 2003, 2004, façamos uma reflexão do passado e olhemos para o presente ou mesmo o futuro.

Precisamos sim tomar providências, atitudes concretas, não podemos mais esperar as decisões governamentais, devemos trocar os velhos hábitos diários por novas posturas que tenham mais comprometimento com a atual realidade em que nos encontramos. Com novas tecnologias não podemos mais compartilhar de velhos hábitos, não podemos ver nossa extinção chegar sem que façamos algo concreto.
É chegada a hora de olharmos para o futuro e para nossas crianças, de tal ordem que vivam num mundo mais respeitoso com a natureza. Que, ainda que numa mera poesia, se inspirem na simpatia que deve existir entre uma árvore e o homem. Entre os animais e os homens e entre estes e a água, um elemento vital e que hoje tanto nos preocupa.
No que conta sobre a preservação das águas, são os discursos com as mesmices de sempre, promessas, decorrendo, ocasionalmente, medidas paliativas e modestas. No caso da fumaça das queimadas, fecham-se os olhos. No caso da água, tapam-se as narinas para não sentir o cheiro putrefato dos rios ou dos peixes mortos pela poluição.
E como sentenciava Euclides em “Os Sertões”

“Ou progredimos, ou desaparecemos”.

 

Prof. Guilherme Félice Garcia  é Professor dos Ciclos de Estudos Euclidianos e professor nas cidades de Ribeirão Preto, Ituverava, Franca e São Joaquim da Barra.

 

PROF. JOSÉ CARLOS ROSIN JÚNIOR

DEFINIÇÃO GEOGRÁFICA DA MACRORREGIÃO - LIVRO  “OS SERTÕES”

 

Uma das características importantes do relevo nordestino é a existência de dois antigos e extensos planaltos, o Borborema e a Bacia do Rio Parnaíba e de algumas áreas altas e planas que formam as chamadas chapadas, como a Diamantina e a Araripe. Dando origem ao sertão, que é uma região de clima semi-árido.

A vegetação nordestina é bastante rica e diversificada, vai desde a Mata Atlântica no litoral à Mata dos Cocais no Meio-Norte, ecossistemas como os manguezais, a caatinga, o cerrado, as restingas, dentre outros, possuem fauna e flora exuberantes, diversas espécies endêmicas, uma boa parte da vida no planeta e animais ameaçados de extinção.

Caatinga: vegetação típica do sertão, suas principais espécies são o pereiro, a aroeira, o aveloz e as cactáceas. É uma formação de vegetais xerófitos (vegetais de regiões secas), mas é muito rica ecologicamente.

A cana-de-açúcar é o principal produto agrícola da região, produzido principalmente por Alagoas, seguido por Pernambuco e Paraíba, também é importante destacar os plantios de algodão (Ceará, Paraíba e Rio Grande do Norte), tabaco (Bahia) e caju (Piauí, Paraíba e Ceará), uvas finas, manga, melão, acerola, e outros frutos para consumo interno e exportação. No sertão predomina a agricultura de subsistência, prejudicada às vezes pelas instabilidades climáticas, geradas pelo El nino e a La niña.

 

Definição Geográfica da Macrorregião – do livro "Contrastes e Confrontos"

A Amazônia é uma região na América do Sul, definida pela bacia do rio Amazonas e coberta em grande parte por floresta tropical. A Floresta Amazônica é a floresta equatorial que forma a maior parte da Amazônia. É uma das três grandes florestas tropicais do mundo. A dificuldade para a entrada de luz pela abundância de copas faz com que a vegetação rasteira seja muito escassa na Amazônia, bem como os animais que habitam o solo e precisam desta vegetação. A maior parte da fauna amazônica é composta de animais que habitam as copas das árvores.

O solo amazônico é bastante pobre, contendo apenas uma fina camada de nutrientes. Apesar disso, a flora e fauna mantêm-se em virtude do estado de equilíbrio (clímax) atingido pelo ecossistema. Forma-se no solo uma camada de decomposição de folhas, galhos e animais mortos que rapidamente são convertidos em nutrientes e aproveitados antes da lixiviação (Processo físico de lavagem das rochas e solos pelas águas das fortes chuvas decompondo as rochas e carregando os sedimentos para outras áreas, extraindo, dessa forma, nutrientes e tornando o solo mais pobre).

A dinâmica da atmosfera nestas regiões é dominada pela presença da Zona de Convergência Intertropical e pelo predomínio de fenômenos do tipo convectivo, produzindo precipitação intensa durante o período mais quente do dia (início da tarde). As elevadas temperaturas asseguram uma elevada evapotranspiração. A convergência dos ventos alíseos, a elevada evaporação e as altas temperaturas, assegurando umidades absolutas elevadas, permitem o transporte atmosférico de grandes massas de vapor de água, assegurando que mesmo nas regiões continentais afastadas dos oceanos a umidade relativa do ar se mantém elevada e a capacidade de geração de precipitação convectiva é elevada durante todo o ano.

Na Floresta Amazônica destacam-se alguns ecossistemas, de acordo com o relevo da região em que se localizam. Em áreas permanentemente inundadas, com as matas de igapó, crescem vegetações típicas de trepadeiras e árvores com até 20 metros de altura. As faixas de várzea, ao longo dos rios, permanecem inundadas apenas durante um período do ano. As planícies de terra firme, onde há as formações vegetais de até 60 metros de altura, são livres de inundações.
Ocorrem ainda na Amazônia as formações de campina, cujos solos são arenosos, a vegetação é relativamente baixa e há profusão de orquídeas e bromélias, espécies naturalmente adaptadas à condição de alta luminosidade. O solo da região é caracterizado pela pobreza de nutrientes, porém protegido pela cobertura vegetal, de onde se abastece com nutrientes oriundos da decomposição das folhas, troncos e raízes.

 

 

Euclides da Cunha - “Os Sertões” e suas outras obras

 Maria Aparecida Granado Rodrigues

            O grande escritor Euclides da Cunha deixou-nos, além de “Os Sertões”, outras obras que, sem dúvida, são de fundamental importância sob o ponto de vista literário.

        O tema da Semana Euclidiana deste ano é Textos Euclidianos além de “Os Sertões”, portanto cabe aqui um estudo, embora pequeno, de algumas de suas obras que são muito importantes para se pensar a cultura brasileira, algumas delas publicadas depois de sua morte.

        A Bibliografia Euclidiana compõe-se dos seguintes livros: “Os Sertões” (1902); “Peru versus Bolívia” (1907); “Castro Alves e seu tempo“ (1907);  “Contrastes e Confrontos” (1907); “À Margem da História” (1909); “Contrastes e Confrontos” (1907); “Diário de uma Expedição” (1939); “Caderneta de Campo” (1975).

        Além desses livros, Euclides da Cunha escreveu cartas, poesias e relatórios.

 

1 ) “Os Sertões”: Não há como negar que a posição de Euclides da Cunha na Literatura Brasileira como grande escritor que foi, merecedor de muitos elogios, está atrelada à criação do livro “Os Sertões” que, sem dúvida, é o maior de todos.

        Primeiramente porque o livro “Os Sertões” foi um alerta denunciador de um problema que o Brasil vivia e que é atual e creio que sempre o será, aqui e no mundo todo - o problema da injustiça cometida por aqueles que detêm o poder contra os pobres, os fracos, os oprimidos, os operários, os analfabetos, os sem-terra, os sem-saúde, os trabalhadores dos campos, os abandonados do sertão, pessoas que vivem no anonimato, seja qual for o regime que estiver vigorando.

        Podemos dizer também que o livro “Os Sertões” foi como uma candeia que colocada à frente, abriu e clareou caminhos para outros escritores que resolveram assumir posição de luta contra esses mesmos problemas. Autores como Monteiro Lobato, Raquel de Queirós, Graciliano Ramos, Jorge Amado e outros que, influenciados por Euclides da Cunha, resolveram tratar do problema da seca e suas conseqüências, do caboclo esquecido, ignorante e miserável, situações que sempre colocaram e colocam patrícios nossos em situação desvantajosa em relação aos demais brasileiros.

        O livro “Os Sertões” segue um rigoroso  esquema determinista. O seu núcleo organizacional é formado por três partes. “A Terra”, “O homem”; “A Luta”.

        Isto quer dizer que Euclides da Cunha partia do pressuposto que para entender sob     o ponto de vista científico o que se passou em Canudos, era necessário considerar o    ambiente, a geografia do lugar ( A Terra ); os aspectos antropológicos, mostrando os cruzamentos das raças e o aparecimento do tipo do sertão ( O homem ); e as circunstâncias históricas, culturais, políticas, sociais que interferem nos acontecimentos, no caso específico, a guerra de Canudos ( A Luta).  

        A Terra, primeira parte do livro, embora seja de difícil compreensão, possui uma intensa beleza expressiva. É uma espécie de tratado sobre a geologia nordestina. É uma descrição intrigante, bela  e difícil que contagia e incomoda. A descrição abrange o cenário físico, as caatingas, as serras, as águas, o ar, a vegetação.

        Não se trata de um livro qualquer daqueles que a gente lê, quase sempre esquece e não interferem em nada na nossa maneira de ver a vida.

        Ao contar sobre a guerra de Canudos, Euclides da  Cunha, nos mostra as chagas de um país dividido. De um lado uma sociedade que detinha o poder político e econômico, localizada no Rio de Janeiro e em outras cidades costeiras, Do outro lado, particularmente no sertão nordestino, cresciam homens e mulheres à, própria sorte, à mercê das atitudes arbitrárias dos coronéis e dos chefes locais.

        Com seu livro máximo, Euclides da Cunha provou que houve incúria por parte das autoridades na repressão aos canudenses de Antonio Conselheiro.

        “E foi, na significação integral da palavra, um crime. Denunciemo-lo” ( Nota preliminar).

        Aquele povo ali abandonado, num cenário de miséria e abandono, num lugar perdido entre caatingas e serras chamado Canudos, disparou o grito do país até então não conhecido. O grito não pôde ser ouvido porque não foi entendido pelos dirigentes que preferiram suplantá-lo com armas, preferiram sufocá-lo com balas.

        O crime reside na incompreensão de Canudos por parte do litoral. Lemos em “O Homem” – capítulo V: “Eram, realmente fragílimos, aqueles pobres rebelados. . .  Requeriam outra reação. Obrigavam-nos a outra luta. Entretanto enviamos-lhe o legislador Comblain; e esse argumento único, incisivo, supremo e moralizador – a bala”.

        Passarei agora a uma pequena análise sobre as outras produções que nos deixou o nosso incomparável escritor.

 

2 ) “Peru versus Bolívia”: Livro publicado pela 1ª vez em 1907, em artigos do Jornal do Comércio, foi imediatamente traduzido para a língua espanhola. O livro é composto de 8 estudos . Trata de uma discussão de maior importância para os países interessados, para o Brasil, para toda a América.

        O livro nada mais é do que um estudo técnico sobre o litígio de fronteiras entre os países Peru e Bolívia. Estuda o problema levando em conta todos os aspectos que podiam levar à conclusão final: histórico, geográfico, político e jurídico. O professor Francisco Venâncio Filho disse bem acerca de Euclides da Cunha “Revela mais uma vez a sua excepcional capacidade de pensador ao mesmo tempo que um profundo conhecimento dos países da América do Sul. Por tudo isto, teve excepcional repercussão em todo o continente”.

        Com o tratado de Petrópolis, o Brasil acertou seus problemas fronteiriços com a Bolívia. Coube ao Brasil o Acre que já era habitado e defendido pelos nordestinos que para lá iam fugidos das secas.

        O Acre havia sido proclamado independente em 1902. Por causa desse acerto o Peru sentiu-se fraudado e reclama da Bolívia 720.000 Km2, incluindo o Acre.

        Euclides da Cunha, valendo-se desse rico material técnico e histórico, mostra a existência de erros que terminaram por orientar a delimitação territorial entre Peru e Bolívia.

        Euclides da Cunha pôde presenciar o problema angustiante do seringueiro nosso no Acre, isso fez com que ele passasse a se preocupar com essa questão de delimitação de terra entre esses dois países. Tomou, então, apaixonadamente o partido da Bolívia . Ele tornou-se o “Cavaleiro andante da Bolívia contra o Peru”, conforme ele mesmo se definia.

        Mais uma vez vemos Euclides da Cunha se posicionando como advogado das causas injustas, embora muitos não o compreendessem e nem tão pouco o compreendam hoje.

        São palavras do escritor maior: “Muitos talvez não compreendam que, numa época de cerrado utilitarismo, alguém se demasie em tanto esforço numa advocacia romântica e cavalheiresca, sem visar um lucro, ou interesse indiretos. Tanto pior para os que não o compreendam. Falham à  primeira condição prática, positiva e utilitária da vida, que é aformoseá-la. . . “

        Com esse espírito é que Euclides denunciou um erro defendendo não os direitos da Bolívia, mas defendendo o Direito.

 

3 ) “Castro Alves e seu tempo”: Trata-se de uma conferência pronunciada por Euclides da Cunha, em 3 de dezembro de 1907, no Centro Acadêmico XI de Agosto, da Faculdade de Direito de São Paulo, a convite dos acadêmicos. A entrada foi paga, pois a conferência se destinou a angariar fundos para uma herma do poeta baiano.

 

4 ) “Contrastes e Confrontos”: Trata-se de uma coletânea de artigos saídos em sua maioria, originalmente, na imprensa. Foram escritos por volta de 1904 e organizados por um editor de Portugal. Entre os vários artigos há alguns de grande interesse: “Plano de uma Cruzada”: o tema desse artigo é a seca.

        Vemos um Euclides preocupado com a ecologia. Ele critica a nossa incapacidade criadora de combater a seca, principalmente por ser um fenômeno previsível. “As secas do extremo norte delatam impressionadoramente, a nossa imprevidência, embora sejam o único fato de toda a nossa vida nacional ao qual se possa aplicar o princípio da previsão”.

        Euclides apresenta várias sugestões que formariam um plano estratégico desta cruzada contra o deserto.

        Sugeriu “a açudada largamente disseminada” – em virtude dos vales e aproveitando as corredeiras das montanhas que a própria erosão transformou em grande covas; “ a arborização em vasta escala” com vegetais que sejam apropriados para aquele clima rude do sertão; “as estradas de ferro de traçados adrede dispostos ao deslocamento rápido  das gentes flageladas”; “os poços artesianos, nos pontos em que a estrutura granítica do solo não apresentar dificuldades insuperáveis”.

        As soluções apresentadas por Euclides da Cunha mostram que ele tinha profundo conhecimento do que falava e era muito interessado nesses assuntos.

        Num outro artigo do livro “Contrastes e Confrontos”, “Fazedores de Desertos”, vemos também a preocupação de Euclides da Cunha, isso em 1904, com o problema da seca e da ecologia. Critica o desmatamento, a queimada de árvores para obtenção de combustível único das nossas locomotivas.

        Euclides critica a ação devastadora do homem que não se preocupa com o mundo em que vive.

        Vemos sua posição neste trecho “Temos sido um agente nefasto e um elemento de antagonismo terrivelmente bárbaro da própria natureza que nos rodeia”.

        Outro artigo que merece destaque é “Um Velho Problema” – artigo escrito a 1º de maio de 1904 a propósito do Dia do Trabalho. Disserta ele sobre questões trabalhistas; fala sobre o capital, o trabalho, a produção, o uso da terra e, numa época em que ninguém tinha coragem de abordar o assunto.

Ele afirma: “A força única da produção é o trabalho. A terra, as máquinas, o capital não produzem sem o braço do operário”.

        É portanto um artigo que aborda questões sociais e defende o direito de greve do trabalhador.

        Muitos outros assuntos ainda foram tratados por Euclides da Cunha em “Contrastes e Confrontos”.

 

5 ) “À Margem da História”: obra publicada após a morte de Euclides da Cunha, também reunindo artigos saídos da imprensa. Possui uma primeira parte dedicada aos temas amazônicos, abrangendo quase metade do livro, deveria fazer parte de uma outra obra do porte de “Os Sertões” que ele intencionava escrever. Seu título seria “Um Paraíso Perdido”. Seria um “segundo livro vingador”. Deveria referir-se à Amazônia, acusando os descasos pela terra e o desprezo pelo homem.

        Um texto particularmente antológico é “Judas Ahsverus”. Tendo como ponto

de partida a festa de malhação de Judas, Euclides cria uma série de correspondências entre o boneco de palha surrado que fica flutuando pelo rio e a própria idéia da violência, solidão e, sofrimento do seringueiro enganosamente atraído para a Amazônia.  Dá-nos a impressão o texto de que ao malhar o Judas, o homem amazônico se malha: “É um doloroso triunfo. O sertanejo esculpiu o maldito à sua imagem. Vinga-se de si mesmo: pune-se, afinal da ambição maldita que o levou àquela terra. . .” ( À Margem da História, p.76 ).

“Judas Ahsverus” denuncia as brutais formas de exploração do homem da Amazônia no início deste século, o qual parece encontrar-se abandonado até por Deus: “. . . o Redentor Universal não os redimiu; esqueceu-os para sempre, ou não os viu talvez, tão relegados se acham à borda do rio solitário, que no próprio volver das águas é o primeiro a fugir. . .” ( À Margem da História, p.73 ).

        Podemos perceber que “Judas Ahsverus” e os demais textos amazônicos de À Margem da História” são muito atuais.

        No livro figura “Transacreana”, em que Euclides sonha com uma estrada de ferro que seria fator de progresso e integração da região Amazônica ao restante do país. Sonho quase realizado em A Transamazônica. . .

        No livro encontra-se também “Primado do Pacífico”, em que Euclides da Cunha afirma que haveria uma grande guerra entre os Estados Unidos e o Japão. Escrito em 1909, o conflito se deu em 1941. . .

        Há no livro também “Viação Sul-Americana”- fala da deficiência de nossas ferrovias e o aproveitamento dos rios para navegação.

        Em 1939, veio a lume outro livro – “Canudos, Diário de uma expedição”, onde se encontram todas as informações e apontamentos da campanha. Euclides usou-os na elaboração do 3ª parte de os “Os Sertões”, a Luta.

        Também “Caderneta de Campo” – contendo anotações de Euclides da Cunha durante as atividades em Canudos como repórter de guerra pelo “O Estado de São Paulo”.

        Além desses livros, Euclides da Cunha escreveu cartas, poesias e relatórios. As cartas estão reunidas em “Euclides da Cunha e seus amigos”, reunidas por Venâncio Filho.

        As poesias estão nos seu caderno de poesias “Ondas”, são 84  poesias.

        Há que se destacar ainda o “Relatório da Comissão Brasileiro – Peruana de Reconhecimento do Alto Perus”.

        São 77 páginas de um trabalho eminentemente técnico, de inteira essência geográfica. Relata o seu desapontamento no primeiro contado com o rio e com a terra amazônica.

Como disse no princípio, seria muito difícil falar de um assunto tão bem abordado por outros professores sem ser repetitiva.

Para elaborar este meu estudo, eu pesquisei textos de Francisco Venâncio Filho, Dálvaro da Silva, Everton de Paula, Paulo Dantas e outros.

        Li também alguns textos dos professores rio-pardenses, Sr.Márcio José Lauria e Sr.Valdir Ferreira. Quero expressar o meu carinho e apreço a esses dois professores porque com eles aprendi muito sobre nossa Literatura e sobre a Língua Portuguesa. Mais do que isso, aprendi a apreciar as obras da Literatura porque sabemos existir nelas muito daquilo que gostaríamos de ter escrito um dia.

        Eles são cidadãos  respeitados e queridos em nossa cidade pelo muito que deram de contribuição pela nossa cultura, principalmente pelo muito que já se dedicaram à Semana Euclidiana.

        Aos maratonistas, gostaria de dizer que mais importante do que participar da Semana Euclidiana é descobrir nos escritos deixados por Euclides da Cunha, as belas lições de otimismo e patriotismo. Lições que todos devemos assimilar para tentar amenizar os problemas  brasileiros que não são poucos.

       

        Boa Sorte a todos!

 Maria Aparecida Granado Rodrigues      

EUCLIDES DA CUNHA HISTÓRICO: DA INDEPENDÊNCIA À REPÚBLICA

¨ PROF. MARCOS DE MARTINI

FEUC - ÁREA I B E II

 

Entre as diferentes interpretações que podem ser dadas ao estilo literário de Euclides da Cunha, ultimamente, tenho apreciado o seu lado histórico. Como pessoa política que viveu momentos decisivos do final do século XIX e início do XX, Euclides foi testemunha de capítulos referenciais da história de nosso país. É sob este ângulo histórico, como já o tinha feito em anos anteriores respaldado por "Contrastes e Confrontos", que busco em "À Margem da História", no capítulo intitulado "Da Independência à República" (ensaio), um pouco de Brasil pelo crivo de Euclides da Cunha. No extenso ensaio histórico, Euclides apresenta uma detalhada análise da formação histórica do Brasil desde os primórdios coloniais até o desenlace republicano.

Euclides abre seu estudo através de uma análise com informações sobre a formação territorial e a definição das fronteiras do Brasil, descrevendo situações de disputa diplomática e militar vividas com nossos vizinhos sul-americanos. É esse o Brasil que ainda buscava uma identidade própria, carregando as pesadas marcas da dominação estrangeira, que chega ao século XIX e encontra Euclides da Cunha, um de seus intérpretes mais sinceros. Euclides definiu o Brasil como sendo: "...vários agrupamentos em que se repartia o povoamento rarefeito ... e de todo desquitados entre si, não tinham uniformidade de sentimentos e ideais que os impelissem a procurar na continuidade da terra a base física de uma Pátria."

Esse Brasil, que seguiu pelos caminhos traçados pelos bandeirantes, não conseguiu construir uma unidade de pensamento. Distâncias continentais fracionavam uma população ainda rarefeita, impedindo a comunicação e a formação de um sentimento que unisse os diversos brasis em torno de uma nacionalidade. O exemplo maior vem dos atos protagonizados no final do século XVIII, quando surgiam os primeiros sinais de inconformismo como o exclusivismo metropolitano, alimentados na época pelo ideário iluminista. "O drama da Inconfidência terminara recentemente no Sul, sem que o seu desenlace trágico comovesse o Norte, onde, por sua vez, em quadra mais recente, a luta contra os batavos se abrira e se encerrara com o divórcio completo das gentes meridionais."

Na seqüência da análise, Euclides reserva especial destaque à figura do príncipe português D. João e ao envolvimento da metrópole portuguesa nas guerras napoleônicas. A transferência da corte para o Brasil, ação efetivada com o apoio da marinha inglesa, e as conseqüências conhecidas desse ato, são amplamente revistas pelo autor.

Internamente, se não havia um ponto de união do povo brasileiro, foi necessária uma agitação externa para abalar irremediavelmente os alicerces de três séculos de domínios coloniais portugueses. "Alguém, porém, cuja missão prejudicial é hoje ponto incontroverso, malgrado os brilhos de uma glória militar indiscutível, ia realizar, sem o querer, completa transmutação em nossos destinos."

Euclides faz referência às guerras napoleônicas e seus reflexos no reino português invadido pelas tropas francesas e os desdobramentos na colônia brasileira em decorrência da instalação da corte fugitiva. Apesar da intensa diplomacia do monarca português, tentando manter o insolvente reino afastado dos interesses beligerantes de ingleses e franceses, uma titubeante posição deveria ser tomada. A opção pelos britânicos precipitou a reação napoleônica e a invasão comandada pelo general Junot que "...apavorou o mais inofensivo dos reis." Assim: "Lançavam à nossa terra o único estadista capaz de a transfigurar."

Neste ano de 2008, ao relembrarmos os 200 anos da transferência da corte portuguesa para o Brasil, fugindo do assédio francês, outros pesquisadores do período trouxeram novas abordagens sobre esse momento. Podemos,assim, comparar estas análises ao pensamento de Euclides da Cunha formulado por volta de 1900.

Na visão do historiador José Murilo de Carvalho: "O príncipe dom João podia ter decidido ficar em Portugal. Nesse caso, o Brasil, com certeza, não existiria. A colônia se fragmentaria, como se fragmentou a parte espanhola da América. Teríamos, em vez do Brasil de hoje, cinco ou seis países distintos. Sem a França, ele não teria pensado em sair. Sem o Reino Unido, ele não teria conseguido sair."

Esta visão de José Murilo de Carvalho está muito popularizada, sendo uma das principais linhas de interpretação. Mostra que a transferência foi um ato de estadista, se comparado ao que havia acontecido com a Espanha. O reino vizinho de Portugal acreditou em uma parceria com Napoleão e acabou tendo seu rei deposto e o trono ocupado pelo usurpador José Bonaparte, irmão do imperador francês.

Para Carvalho "... a grande diferença em relação à América espanhola foi a manutenção da unidade da colônia portuguesa e a monarquia. Daí veio o Brasil de hoje. Se para o bem ou para o mal, é [o escritor] Guimarães Rosa quem decide: "Pãos ou pães, questão de opiniães...".

A análise de D João VI traçada por Euclides é muito pertinente ao momento, coincidindo com pareceres historiográficos mais recentes. A princípio, o governante português é definido como "um medíocre" que foi predestinado. Já os seus atos, decorrentes da transferência da corte para o Brasil, serão responsáveis pela abertura de uma fenda na estrutura colonial que não mais se fechará até o 7 de setembro de 1822. Atitudes de grande valor para o momento, a despeito de outras pressões e interesses envolvidos, foram capazes de relegar "a segundo plano todas as falhas de uma educação imperfeita que, ...o tornaram por vezes inferior às exigências da dignidade real".

Contrapondo-se esta visão sobre D. João, lançando outra não tão enaltecedora, o historiador Evaldo de Cabral e Mello vê outro sentido para o fato de 1808 e a figura do rei português. "Essa coisa de fazer festa em torno de D. João 6º é armação de carioca para promover o Rio... Também ninguém dá importância ao fato de que dom João VI esvaziou nosso erário antes de partir. Todos lembram que ele fundou o Banco do Brasil, mas nunca que deixou o Brasil falido quando foi embora daqui. E agora ficam com essa história de que D. João VI se apaixonou pelo Brasil, pelo Rio, por São Cristóvão... É tudo de um sentimentalismo muito besta e apelativo."

Passados os momentos de maior tensão e com a adaptação às terras tropicais sendo efetivada, mesmo a contragosto, as medidas tomadas pelo príncipe regente ou meramente assinadas por ele, seguindo orientações maiores, começavam a dar uma nova cara ao Brasil. Para Euclides, esses primeiros atos já bastavam para enobrecer-lhe. "Foi, em primeiro lugar, um estóico."

Foi neste raiar de um novo Brasil que, além dos decretos políticos, veio a abertura para a imprensa na colônia. Desde muito antes, nas colônias espanholas, já havia publicação de periódicos, o que muito fazia falta no Brasil, não fosse o esforço de Hipólito José da Costa e seu Correio Brasiliense, rodado nas tipografias inglesas.

No campo das artes, coube também a D. João VI durante sua permanência na capital colonial, depois de encerrado o conflito em terras européias, dar novos ares à cultura brasileira. Na pintura, o mundo conhecia um pouco do Brasil pelos frios olhares de Eckhout e Post, artistas que estiveram no Brasil durante a dominação holandesa no século XVII. Com a criação da Academia de Belas-Artes, uma série de artistas e estudiosos, principalmente franceses, produziram um novo olhar sobre as coisas do Brasil. Destes, sem dúvida, um dos nomes mais conhecidos, referencial moderno a qualquer análise do cotidiano brasileiro do século XIX, foi o artista francês Jean-Baptiste Debret.

Outro momento decisivo deste período analisado por Euclides da Cunha foi o conturbado processo político de nossa independência. Mais uma vez D João VI "... tergiversou, consoante o seu antigo hábito, irresoluto, entre os brasileiros, que o atraíam, e os portugueses, que o intimavam a aceitar a Constituição... e a voltar depois para o reino." Diante de uma decisão que pareceria a mais prudente para tamanha pressão das Cortes, que fantasiavam "um Brasil anterior a Tomé de Sousa", D. João VI retorna a Lisboa, mas garante a permanência do príncipe D Pedro em terras coloniais. Nesse momento, estava sendo decidida a ruptura "amigável" com a metrópole e, principalmente, para as elites, a manutenção dos seus privilégios e da unidade territorial, diferente do que ocorria nas repúblicas espanholas vizinhas, fragmentadas e submetidas a interesses de caudilhos autoritários. Feita a independência a opção monárquica, comenta Euclides, "...foi decisiva, oportuna e benéfica".

Entretanto, o governo imperial de D. Pedro I não se consagrou pela tranqüilidade política. O clamor popular do 7 de setembro se dissipará rapidamente diante dos rompantes absolutistas do príncipe. Problemas de toda ordem tumultuaram a vida dos brasileiros, cada vez mais desiludidos com os atos absolutistas do imperador. "Estávamos como nos grandes dias da Convenção... O país era ingovernável. O baralhamento das idéias principiava a alastrar-se nas ruas em desordens sanguilentas entre nacionais e portugueses... Era o desfecho. D Pedro I abdicou no imperador infante... O 7 de abril era inevitável", escreveu Euclides encerrando o primeiro reinado.

Já no período regencial, fase em que antecede a posse do segundo imperador, ocorrem seguidas revoltas que agitam o Império. Diante de uma ruptura iminente, somente a posse do novo herdeiro traria a luz da normalidade política ao irresoluto império. Até então, uma sucessão de novas lideranças e ideais políticos põem em risco a permanência da Monarquia brasileira. A idéia de república tem seus lampejos entre a classe política mais radical.

O país vivia, segundo Euclides, diante dos enfrentamentos populares, "... o crescente desequilíbrio entre os homens do sertão e os do litoral. O raio civilizador refrangia na costa. Deixava na penumbra os planaltos." Por todo o país agitações perturbadoras assustavam a classe política que, temerosa, buscava uma solução que preservasse seus interesses e a unidade territorial do país. A antecipação da maioridade do príncipe herdeiro é apresentada como salvação para um império em crise.

Com a posse do jovem Imperador Pedro II, em 1840, as revoltas persistem, mas caminham para o fim por via pacífica ou pelo uso das armas. No caso do Maranhão, "... os Balaios fugiam diante de um general feliz, Luís Alves de Lima e Silva (Caxias), cuja espada seria a escora de um reinado".

Em meio a tanta agitação política, um Brasil das cavernas ganha o mundo. Pesquisadores do Velho Mundo buscam nos sertões brasileiros novos elementos para suas ciências. Um dos mais ilustres desse momento foi o dinamarquês Willian Lund, paleontólogo que, "... de seu retiro tranqüilo da Lagoa Santa, principiara a abalar o mundo científico com suas extraordinárias descobertas sobre o brasileiro pré-histórico". Hoje sabemos, com o avanço das pesquisas arqueológicas nos sítios de Lagoa Santa, em Minas Gerais, que a citação de Euclides da Cunha refere-se aos fósseis dos mais antigos habitantes do Brasil. Um deles, melhor estudado pelas técnicas modernas de datação e verificação genética, é de uma mulher pré-histórica, chamada pelos cientistas de "Luzia", com idade aproximada de 11 mil anos.

No plano político, o segundo Império notabilizou-se por uma alternância no poder entre os grupos políticos Liberais e Conservadores. Em determinados momentos havia a conciliação das lideranças elitistas dos dois grupos, "Luzias" e "Saquaremas", excluindo desse debate os interesses da grande maioria da população. Seriam, assim, farinha do mesmo saco como, até hoje, identificamos muitos dos nossos partidos e seus filiados.

Para Euclides, o Segundo Império trazia à luz uma questão que já se arrastava desde o século XVIII – a escravidão. Já nas primeiras décadas do século XIX, a pressão interna pela abolição ganhava força, somando-se ao movimento exercido pela Inglaterra, atingindo o ponto máximo em 1850, com o fim do tráfico negreiro para o Brasil. "A lei de 4 de setembro de 1850 imortalizou o Ministro da Justiça Eusébio de Queiróz e, severamente aplicada, avantajou-se às balas dos cruzeiros ingleses, extinguindo inteiramente o tráfico".

As questões platinas também ocuparam espaço nessa análise do século XIX feita por Euclides da Cunha. As ingerências de Brasil e Argentina na pequena república do Uruguai, acabam por preparar o cenário para um outro conflito maior, agora envolvendo o Paraguai de Francisco Solano Lopez.

Para Euclides da Cunha: "A Guerra do Paraguai é um desvio na nossa história. A sua causa mais próxima está, talvez, na interferência de duas vontades, injustificáveis ambas. De um lado o delírio de grandezas de um déspota minúsculo demais para sua própria ambição, de outro a diversão temerária de um imperador constitucional, porventura impressionado com o cenário da política interna do seu país."

Iniciado o conflito, o rompante de Lopez demonstrou-se desproporcional às suas reais estratégias de guerra. "Faltou-lhe, porém, a envergadura e o lance de vistas de um conquistador. Comprometeu logo a sua causa com duas invasões desastrosas... Com estes dois erros estava perdido aos primeiros passos. O que houve depois foram cinco anos de memoráveis conflitos."

No mesmo ano em que se encerrava a Guerra do Paraguai, outra manifestação política despontava no cenário nacional trazendo um elemento em total oposição ao regime monárquico. Era o alvorecer da República, a partir do Manifesto de 1870. "O que aconteceria até as vésperas do 15 de novembro – começava a esboçar, de fato, uma outra "Conciliação", mas, esta, agora, definitiva – a República".

O Brasil vivia um período de euforia progressista, malgrado as vicissitudes políticas entre liberais e conservadores, já que os republicanos somente bradavam suas idéias sem muita confiança e respaldo eleitoral. As ferrovias avançavam pelas principais áreas econômicas do país atrás das lavouras de café, que alcançavam regiões mais remotas do interior paulista. Traziam novo alento ao desenvolvimento de novos núcleos de povoamento, agora associado à chegada dos imigrantes, novos moradores vindos de terras distantes da Europa e desejosos por construir uma vida nova. Províncias se uniam pelo telégrafo submarino, linhas telegráficas atingiam extremos dos sertões e o cabo submarino ligava o Brasil ao mundo europeu.

Entretanto, a própria modernidade da segunda metade do século XIX também traria o aprofundamento das questões políticas e sociais. O crescimento do ideário republicano, aliado aos temores da sucessão de D Pedro II, fizeram convergir forças aparentemente antagônicas. A força republicana, que tinha suas maiores expressões entre a elite agrária paulista vê, de maneira súbita, os militares assumirem as rédeas do movimento pela mudança do regime.

Não bastasse esse conjunto de situações, o processo abolicionista atinge seu ápice nas vésperas do 15 de novembro. Para Euclides, "a abdicação graciosa e belíssima do 13 de maio de 1888, em que o ministério conservador do Conselheiro João Alfredo cortou as últimas amarras do Império, abandonando-o na caudal irresistível das idéias republicanas. ...Impertinente em 1822, inoportuna em 1831, abortícia em 1848, era-o a República, sobretudo porque se não podia inverter a série natural da evolução humana". Concluía-se, então, a República.

D Pedro II, já debilitado pela idade e interessado por questões mais amenas, longe das querelas do poder, recolhia-se em ambiente mais interessante, o que não o livrava das pesadas críticas.

Mostrando a relevância da figura política de D. Pedro II, em um recente artigo de jornal, Ferreira Gullar sentenciou sobre o que chamou de "O Imperador Republicano": "Aliás, ele lia como ninguém, e seu interesse pelas ciências, pela literatura e pelas religiões durou toda a vida. Falava latim, francês, inglês, alemão, italiano e espanhol; lia grego, árabe, hebraico, sânscrito, provençal e tupi-guarani. Os caricaturistas, no entanto, o ridicularizaram por ler muito e ter por hobby a astronomia. A intenção era mostrar que ele vivia no mundo da lua e talvez vivesse, mas nem sempre, porque, quando Solano López invadiu Mato Grosso, ele montou num cavalo, dirigiu-se ao Paço Imperial e ali conclamou o povo a defender a honra do Brasil. Finda a guerra, quiseram erguer duas estátuas em sua homenagem. Ele repeliu a idéia, tal era seu horror a pompas e rapapés.Duramente criticado pelos jornais, defendeu a liberdade de imprensa. Ao longo de seu reinado, nunca aceitou aumento da dotação do Estado à família imperial. Não acumulou dinheiro, as viagens que fazia ao exterior eram custeadas com empréstimos pessoais e ainda doava parte da dotação ao Tesouro. Quantos políticos brasileiros você conhece com tal desprendimento?"

Traçado este cenário da vida política do Brasil, nos momentos de ruptura do século XIX, como então explicar mudanças tão drásticas, ocorridas de formas tão rápidas e serenas?

Para Euclides, teriam sido as próprias mudanças do século XIX, a modernidade que se avolumava, a despeito de propagandistas eloqüentes, concepções filosóficas inovadoras e ações de militares descontentes, o verdadeiro propulsor da república. Assim, "compondo-se com uma aspiração antiga e não encontrando entre nós arraigadas tradições monárquicas, removeram, naturalmente, sem ruído – no espaço de uma manhã – um trono que encontraram... Foi o que se viu a 15 de novembro de 1889; uma parada repentina e uma sublevação... Porque a revolução já estava feita".

Assim é Euclides da Cunha histórico. E a História não o contradiz em muito.

Professor Marcos De Martini

FEUC - Departamento de História

São José do Rio Pardo

 

ANTÔNIO CONSELHEIRO E A GUERRA DE CANUDOS

 

DE ANTÔNIO VICENTE A ANTÔNIO CONSELHEIRO

 

PROFESSOR NICOLA

 

Antônio Vicente Mendes Maciel nasceu em Quixeramobim, no Ceará, em 1830. Seu pai, Vicente Antônio Maciel, abandonou a ocupação tradicional de vaqueiro para tornar-se um pequeno comerciante que teve recursos para custear os estudos elementares do filho, que aprendeu a ler, escrever e também latim com um professor local. Talvez o pai quisesse encaminhá-lo para o sacerdócio, o que naquela significava poder e influência social. A família Maciel era rival da família Araújo há muito tempo, mas Vicente Maciel não se envolvia nos conflitos que causavam mortes em ambas. O menino ficou órfão de mãe aos 6 anos e seu pai casou novamente. Antônio Vicente passou a ser maltratado pela madrasta que era desequilibrada. Há poucos depoimentos sobre a infância e a adolescência de Antônio Vicente. Morto o pai, em 1855, Antônio cuidou dos negócios e das três irmãs até casá-las. Em seguida casou-se também, com sua prima Brasilina, que era analfabeta. Falido, deixou Quixeramobim, trabalhando em fazendas como professor, caixeiro viajante, domador de cavalos, advogado provisionado, perito criminal, etc. Quando estava em Ipu, sua mulher fugiu com um sargento. Saiu a procurá-los para vingar-se, mas pouco depois passou a viver com Joana Imaginária, artesã modeladora de imagens,com quem teve um filho. Em 1871, seu principal credor acionou a justiça que condenou-o a pagar a dívida, o que não fez, tendo sido penhorados seus poucos bens. A partir daí, Antônio sofreu grande mudança pessoal, tornando-se andarilho e pregador religioso católico através do sertão nordestino, ou seja, um beato. Seu modelo deve ter sido o cearense José Antônio de Maria Ibiapina (1806-18??), um ex-juiz de Direito e deputado federal de Quixeramobim que protegera a família Maciel contra a família Araújo, e que depois de enviuvar, abandonou a toga, distribuiu seus bens e ordenou-se sacerdote, passando a atuar como missionário em favor dos pobres durante 28 anos (1855-1883). O padre Ibiapina organizou 22 casas de caridade, hospitais, açudes, capelas, cemitérios e escolas. Manteve-se obediente à Igreja Católica, mas passivo diante da estrutura econômico-social e respeitoso às autoridades, ao contrário de Antônio Conselheiro. Antônio Conselheiro usava cabelos e barba longos, vestia um roupão azul e calçava sandálias. Não se isolou da sociedade, pois trabalhava reparando ou construindo igrejas, cemitérios, capelas, tanques para armazenar água etc. Ouviram-no dizer em 1873 que havia feito uma promessa de construir 25 igrejas fora do Ceará. Recebeu vários apelidos (Antônio dos Mares, Santo Antônio Aparecido, Bom Jesus), ficando conhecido definitivamente como Antônio Conselheiro. Dizia ser um pecador a pagar os próprios pecados. Recusava-se a ser adorado e chamava os semelhantes de ``irmãos``, sendo chamado de ``meu pai`` por eles. Aos poucos, superou a timidez e tornou-se um líder popular. Começou a ter seguidores (brancos pobres, negros, índios, caboclos, gente de posse e miseráveis), o que despertou a hostilidade dos fazendeiros, que perdiam trabalhadores, e de grande parte da Igreja Católica, que não via com bons olhos aquele pregador que, embora fosse católico, insistia em fazer prédicas e arrastava seus fiéis. O clero solicitou providências às autoridades policiais e, em 1876, Antônio Conselheiro foi preso na vila de Itapicuru, no sertão baiano, sob a acusação de "ser ele criminoso de morte no Ceará", de ter assassinado a mãe e a espôsa… Foi maltratado e humilhado pelos soldados, enviado para Salvador e dali para o Ceará. Em Quixeramobim, sua terra natal, o Juiz Municipal mandou soltá-lo, pois `` tendo verificado não ser o referido Maciel criminoso, o mandei pôr em liberdade alguns dias depois de sua chegada a esta cidade``. Regressando à Bahia, Antônio Conselheiro teve o prestígio e o número de seguidores aumentado, favorecido que foi pela terrível seca que assolou o Nordeste entre 1877 e 1879. Ele e seu grupo viviam de doações, de coleta, de frutos silvestres, de caça, etc, mas nunca de roubos e furtos. Trabalhavam na construção ou reparos de açúdes, estradas, igrejas, tanques e cemitérios, sob a liderança de Antônio Conselheiro, que, assim, "dava um sentido à vida dos sertanejos, demonstrando no dia-a-dia os limites do poder autocrático do Estado, da Igreja e dos latifundiários e, mais ainda, a possibilidade de superação desta ordem social" (Villa, M. A., p. 29)

As autoridades eclesiásticas católicas da Bahia continuaram a perseguí-lo, porém, alegando que Antônio Conselheiro divulgava ``doutrinas supersticiosas`` (1882) ou `` doutrinas subversivas``(1887). O governo baiano chegou a solicitar ao governo imperial, a pedido do Arcebispo de Salvador, uma vaga no ``Hospício dos Alienados`` do Rio de Janeiro para Antônio Conselheiro, mas a resposta foi que não havia vaga… A abolição da escravidão, em 1888, levou muitos ex-escravos, apelidados de ``treze de maio" no sertão baiano, a procurar e a seguir Antônio Conselheiro, engrossando o seu séquito.

A CRISE DA REPÚBLICA BRASILEIRA

 

0s últimos trinta anos do século XIX sobrecarregaram a sociedade brasileira com tensões de conflitos das mais diferentes espécies. Terminada a guerra contra o vizinho Paraguai em 1870, o cenário nacional passou a presenciar choques de interesses entre monarquistas e republicanos, escravistas e abolicionistas, Exército e Marinha, conservadores e liberais, católicos e positivistas, Igreja e Estado, fazendeiros e imigrantes, etc. Decretada a abolição em 1888, e proclamada a República em 1889, o país não conheceu a estabilidade que se esperava. Novos choques afloraram entre partidários do liberalismo econômico e do protecionismo estatal, deodoristas e florianistas, civis e militares, fazendeiros de café e militares, partidários da federação e de centralização política, imprensa republicana e imprensa monarquista, maragatos e pica-paus no Rio Grande do Sul, autoridades eclesiásticas e beatos, etc.

É que logo após a proclamação da República, em novembro de 1889, o novo regime chefiado pelo marechal Deodoro adotou a federação, dando autonomia aos estados, separou a Igreja do Estado, instituiu o casamento civil, exilou a família imperial, garantia a liberdade de consciência e expressão, adotou uma nova bandeira com o lema "Ordem e Progresso" extraído da filosofia positivista do pensador francês Auguste Comte. O fracasso da polítíca econômica chamada "Encilhamento", da autoria do ministro Rui Barbosa, e as atitudes atabalhoadas do marechal Deodoro provocaram uma séria crise no Governo Provisório da República. Mesmo assim, Deodoro conseguiu eleger-se Presidente por pequena maioria de votos na eleição indireta realizada pela Assembléia Nacional Constituinte. O vice-presidente eleito, marechal Floriano Peixoto, atraía para si todos os descontentes contra Deodoro. No início de novembro de 1891, o Congresso Nacional foi fechado por ordem de Deodoro que tornou-se ditador. Vinte dias depois, porém, a Marinha revoltou-se contra Deodoro que renunciou para evitar a guerra civil. Embora a Constituição de 1891 estabelecesse que uma nova eleição presidencial devia ser realizada, pois Deodoro não havia completado a metade do mandato, como mandava a Constituição, o vice Floriano assumiu e governou de fato. Para conseguir apoio político, Floriano reabriu o Congresso Nacional que Deodoro havia fechado, levantou a censura nos jornais, depôs os governadores estaduais que haviam apoiado o golpe de Deodoro, prendeu opositores e obrigou outros a se exilarem. Descontente, a Marinha revoltou-se contra Floriano esperando derrubá-lo, mas ele resistiu durante vários meses até derrotá-la. Bem antes disso, porém, tivera início no Rio Grande do Sul a chamada Revolução Federalista envolvendo os maragatos, seguidores de Silveira Martins, contra os pica-paus, seguidores de Júlio de Castilhos. Este conseguira aprovar uma Constituição estadual inspirada nas idéias positivistas autoritárias que permitia a reeleição indefinida do governador gaúcho. Os maragatos pegaram em armas contra os castilhistas. A Marinha rebelada contra Floriano na baía de Guanabara passou a apoiar os maragatos no RS, o que levou Floriano a apoiar Júlio de Castilhos e os pica-paus. Ao aderir à revolta da Marinha contra Floriano, o almirante Saldanha da Gama lançou um manifesto propondo "repor o Governo do Brasil onde estava a 15 de novembro de 1889", isto é, a restauração da monarquia. Assim, a Marinha e os maragatos ficaram associados à restauração monárquica, enquanto Floriano e os pica-paus ficaram identificados à República. Em alguns meses, Floriano e Castilhos venceram seus adversários. Nesse conflito sulista, era comum a prática da degola em prisioneiros.

Temia-se que Floriano não deixasse o poder, mas isso não ocorreu. O novo presidente eleito, o advogado Prudente de Moraes Barros, representante da poderosa aristocracia rural cafeeira paulista, assumiu o cargo sob a desconfiança dos militares, e simpatizantes de Floriano Peixoto. Além disso, as dificuldades financeiras provocadas pelos gastos do governo anterior com as revoltas e pela crise do café (superprodução e queda de preços no mercado internacional) tornavam o governo de Prudente bastante vulnerável politicamente. A saúde precária do presidente tornava ainda mais incerto o seu mandato. Foi nesse clima que o episódio de Canudos atingiu o clímax.

AS IDÉIAS DE ANTÔNIO CONSELHEIRO

 

Num manuscrito encontrado após a guerra, e em cuja primeira página está escrito "A presente obra mandou subscrever o peregrino Antônio Vicente Mendes Maciel no povoado do Belo Monte, província da Bahia em 12 de janeiro de 1897", estão as idéias religiosas, sociais e políticas do líder sertanejo. Nas 624 páginas que o compõem, 29 são meditações intituladas "Tempestades que se levantam no coração de Maria", 10 correspondem a comentários sobre os Mandamentos, outras são textos copiados da Bíblia e nas páginas finais estão suas opiniões sobre sociedade e política. Cita santos católicos como Agostinho, João Crisóstomo, Tomás de Aquino, Bento, Basílio, Pedro Damião, Thomas More ( o autor do livro "Utopia") e santas como Teresa e Madalena de Pazins. Sua visão de mundo era religiosamente teocêntrica , politicamente teocrática e socialmente conservadora.

Ao comentar o sétimo mandamento, "Não roubar", anotou: "Que ofensa terrível comete neste preceito aquele que furta qualquer coisa do próximo (…) Antes deveis pedir (no caso de achar-vos sem meios de subsistência para vós e a vossa família), do que tirar a mínima coisa do próximo (…) Se o primeiro passo dado pelo ladrão na carreira do crime fosse logo rigorosamente punido, a ponto de não sair da cadeia, não haviam de se ver tantas desgraças. Um brado unânime se deve pronunciar contra os ladrões, pelos prejuízos que causam com tão enorme procedimento. Sim, não se deve protegê-los para exemplo daqueles que os queiram imitar". Quanto ao décimo mandamento, "Não cobiçar nada do próximo", comenta: "É certo que cada um deve conformar-se com o seu estado; se vive oprimido do peso da indigência , deve sofrer pacientemente. A felicidade do homem consiste em conformar-se à vontade de Deus". Insistia em afirmar que a pobreza neste mundo está associada à santidade. Condenava o comerciante inescrupuloso e a cobrança de "juro excessivo daqueles que estão na precisão". Defendia a submissão da mulher ao pater familias. Quanto ao adultério, condenava-o se a mulher o cometesse, não sendo rigoroso quando fosse praticado pelo homem: "E se seus maridos lhes derem exemplo neste particular , nem por isso lhes venha tal tentação de os ofender com outra semelhante injúria; porque além da ofensa que fazem a Deus, põem as suas vidas em perigo de serem castigadas pela justiça ou mortas por seu marido". Às mulheres, sugeria, "ocupem-se (…) em bons exercícios e não estejam ociosas. Devem evitar os passeios, tomando assim o exemplo do lastimoso caso que sucedeu a nossos primeiros pais". Criticava os judeus, "os maçons, protestantes e republicanos, porque eles também só acreditam na Lei de Moisés, espalhando assim doutrinas falsas e errôneas aos ignorantes". Antônio Conselheiro criticou os judeus em 16 oportunidades em seu manuscrito e sua principal acusação era a de que eles eram os responsáveis pela morte de Jesus Cristo e não aceitavam a doutrina cristã. Em nenhum momento menciona o rei português D. Sebastião em seu manuscrito.

O CONSELHEIRO CONTRA A REPÚBLICA

 

Politicamente, Antônio Conselheiro repudiava a república e defendia a monarquia. Para ele, "todo poder legítimo é emanação da Onipotência eterna de Deus e está sujeito a uma regra divina, tanto na ordem temporal como na espiritual, de sorte que, obedecendo ao pontífice, ao príncipe, ao pai, a quem é realmente ministro de Deus, só a Deus obedecemos". A proclamação da República, em novembro de 1889, provocou mudanças inaceitáveis para Antônio Conselheiro que era católico, monarquista, abolicionista e favorável apenas ao casamento religioso. Os republicanos separaram a Igreja do Estado, decretaram a liberdade religiosa, instituíram o casamento civil obrigatório e exilaram a família imperial. Sugeria que " os pais de família não obedeçam à lei do casamento civil, evitando a gravíssima ofensa em matéria religiosa que toca diretamente a consciência e a alma". Assim, Antônio Conselheiro entrou em choque com a República, que considerava "um grande mal para o Brasil", sonhando com a restauração do regime monárquico, o que foi largamente explorado por seus adversários. Previa que "a república há de cair por terra para confusão daquele que concebeu tão horrorosa idéia". Atribuía a abolição da escravidão à bondade da princesa Isabel, e não como uma decisão política e social. Ele era pregador leigo, não fazia milagres e não era curandeiro. Escrevia suas próprias prédicas e tinha uma boa erudição, citando autores clássicos e santos católicos. Como assinalamos acima, o regime republicano vinha atravessando instabilidades decorrentes do fracasso da política econômica representada pelo Encilhamento; pela queda dos preços do café no mercado internacional; pelas agitações políticas nos estados; pela Revolução Federalista que atingiu o RS, SC e o PR; pelas duas revoltas da Marinha, a primeira provocando a renúncia de Deodoro à presidência, e a segunda tentando derrubar Floriano, sem sucesso; pela oposição dos florianistas ao presidente civil paulista Prudente de Moraes Barros, etc. Todas as tensões, violências e rancores desencadeados por esses conflitos, acrescidos às condições políticas e sociais específicas existentes na Bahia, foram canalisadas contra Canudos, para a terrível e trágica guerra no sertão da Bahia, provocando a sua destruição e uma matança sem precedentes.

Importantes autores como Norman Cohn, Maria Isaura Pereira de Queiroz, Eric Hobsbawn e Max Weber assinalaram