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PROF. JOSÉ CARLOS ROSIN
JÚNIOR
DEFINIÇÃO GEOGRÁFICA DA
MACRORREGIÃO - LIVRO “OS SERTÕES”
Uma das características
importantes do relevo nordestino é a existência de dois antigos e
extensos planaltos, o
Borborema e
a
Bacia do Rio Parnaíba
e de algumas áreas altas e planas que formam as chamadas chapadas, como
a
Diamantina e
a
Araripe.
Dando origem ao
sertão, que
é uma região de clima
semi-árido.
A
vegetação
nordestina é bastante rica e diversificada, vai desde a
Mata Atlântica
no
litoral à
Mata dos Cocais
no Meio-Norte, ecossistemas como os
manguezais,
a
caatinga, o
cerrado, as
restingas,
dentre outros, possuem
fauna e
flora
exuberantes, diversas
espécies
endêmicas,
uma boa parte da
vida no
planeta e animais ameaçados de
extinção.
Caatinga:
vegetação típica do sertão, suas principais espécies são o
pereiro, a
aroeira, o
aveloz e as
cactáceas. É
uma formação de vegetais xerófitos (vegetais de regiões secas), mas é
muito rica ecologicamente.
A
cana-de-açúcar
é o principal produto agrícola da região, produzido principalmente por
Alagoas,
seguido por
Pernambuco e
Paraíba,
também é importante destacar os plantios de
algodão (Ceará,
Paraíba e
Rio Grande do Norte),
tabaco (Bahia)
e
caju (Piauí,
Paraíba e
Ceará),
uvas finas,
manga,
melão,
acerola, e
outros frutos para consumo interno e
exportação.
No sertão predomina a agricultura de subsistência, prejudicada às vezes
pelas instabilidades climáticas, geradas pelo El nino e a La niña.
Definição Geográfica da Macrorregião – do livro
"Contrastes e Confrontos"
A Amazônia é uma região na
América do Sul, definida pela bacia do rio Amazonas e coberta em grande
parte por floresta tropical. A Floresta Amazônica é a floresta
equatorial que forma a maior parte da Amazônia. É uma das três grandes
florestas tropicais do mundo. A dificuldade para a entrada de luz pela
abundância de copas faz com que a vegetação rasteira seja muito escassa
na Amazônia, bem como os animais que habitam o solo e precisam desta
vegetação. A maior parte da fauna amazônica é composta de animais que
habitam as copas das árvores.
O solo amazônico é bastante
pobre, contendo apenas uma fina camada de nutrientes. Apesar disso, a
flora e fauna mantêm-se em virtude do estado de equilíbrio (clímax)
atingido pelo ecossistema. Forma-se no solo uma camada de decomposição
de folhas, galhos e animais mortos que rapidamente são convertidos em
nutrientes e aproveitados antes da lixiviação (Processo físico de
lavagem das rochas e solos pelas águas das fortes chuvas decompondo as
rochas e carregando os sedimentos para outras áreas, extraindo, dessa
forma, nutrientes e tornando o solo mais pobre).
A dinâmica da atmosfera nestas
regiões é dominada pela presença da Zona de Convergência Intertropical e
pelo predomínio de fenômenos do tipo convectivo, produzindo precipitação
intensa durante o período mais quente do dia (início da tarde). As
elevadas temperaturas asseguram uma elevada evapotranspiração. A
convergência dos ventos alíseos, a elevada evaporação e as altas
temperaturas, assegurando umidades absolutas elevadas, permitem o
transporte atmosférico de grandes massas de vapor de água, assegurando
que mesmo nas regiões continentais afastadas dos oceanos a umidade
relativa do ar se mantém elevada e a capacidade de geração de
precipitação convectiva é elevada durante todo o ano.
Na Floresta Amazônica
destacam-se alguns ecossistemas, de acordo com o relevo da região em que
se localizam. Em áreas permanentemente inundadas, com as matas de igapó,
crescem vegetações típicas de trepadeiras e árvores com até 20 metros de
altura. As faixas de várzea, ao longo dos rios, permanecem inundadas
apenas durante um período do ano. As planícies de terra firme, onde há
as formações vegetais de até 60 metros de altura, são livres de
inundações.
Ocorrem ainda na Amazônia as formações de campina, cujos solos são
arenosos, a vegetação é relativamente baixa e há profusão de orquídeas e
bromélias, espécies naturalmente adaptadas à condição de alta
luminosidade. O solo da região é caracterizado pela pobreza de
nutrientes, porém protegido pela cobertura vegetal, de onde se abastece
com nutrientes oriundos da decomposição das folhas, troncos e raízes.
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AS ORIGENS DO PENSAMENTO EUCLIDIANO
PROF. GUILHERME FÉLICE GARCIA
As primeiras perguntas que fazemos ao iniciarmos nossos estudos são:
quais eram as bases do pensamento humano no período da formação
intelectual de Euclides da Cunha e o que significou o positivismo e o
determinismo na concepção de mundo Euclidiano? Perguntas tão importantes
já que esses pensamentos foram tão importantes na vida e no processo de
formação intelectual de Euclides da Cunha.
Convidamos o estudante a passar uma vista no mundo e observar as
aspirações dos diversos povos bem como o significado de tudo que nos
cerca, pensamentos, modismos, novas teorias que surgem a cada dia.
Constata-se um anseio geral de paz, um sentimento de fraternidade
universal, uma busca de bem estar material e espiritual, mesmo através
da desordem, coisa que sempre houve entre os povos, a busca da paz pela
guerra, que reclama uma orientação e uma doutrina esclarecedora para
unir as pessoas, as famílias, as pátrias e a sociedade inteira por um
único ideal que traga à tona os interesses de todos. Hoje vemos muita
violência e guerras que surgem a cada dia e como resposta nossa
sociedade vai se transformando e se adaptando a esse novo mundo que nos
apresenta a cada momento.
Entretanto, os estudos realizados na época conclamavam, por um lado à
reorganização social pelo positivismo e de outro lado um quase
Darwinismo Social pela luta da raça superior que venceria as raças
inferiores, sendo assim o determinismo seria a grande doutrina
“civilizadora” da humanidade. Estes estudos tiveram lugar na segunda
metade do século XIX e ganhou força no período final do mesmo século com
o avanço dos grandes impérios do hemisfério norte, através do mundo
todo.
O Positivismo organizou o saber humano, baseado na ciência, sem questões
teológicas ou metafísicas, distinguiu os conhecimentos abstratos da
ciência dos conhecimentos concretos da tecnologia, classificou as
ciências: Matemática, Astronomia, Física, Química, Biologia, Sociologia
e Moral ou Psicologia Positiva, completando a escala enciclopédica,
mediante a fundação das duas últimas.
A sua doutrina, o Positivismo, é um culto de amor e reconhecimento pelos
parentes, pelas instituições sociais, pela pátria, pelos antepassados e
pelos grandes homens; é uma filosofia real, útil, certa, precisa,
orgânica, relativa e sobre tudo simpática; é um sistema de vida
moralizador, um regime conveniente para todas as raças, todos os povos,
todas as classes sociais, de convivência sem conflitos, sempre oriunda
dos excessos egoístas e que desaparecem quando se subordina o egoísmo em
relação ao amor ao próximo.
Seu lema fundamental é "O Amor por princípio e a Ordem por base; o
Progresso por fim". Suas regras básicas são "Viver para o outro"
e "Viver às claras". Como divisa Política, abrangente e
sociológica, aconselha "Ordem e Progresso".
O positivismo começou a repercutir no Brasil por volta de 1850. A
doutrina de Augusto Comte chegou através de trabalhos elaborados por
intelectuais. No Colégio Pedro II, na Escola Militar, na Escola da
Marinha, de Medicina, Politécnica, encontrou grande repercussão. O
crescimento pelo interesse por esta filosofia, acabou provocando um
fenômeno no sentido de que o Positivismo no Brasil acabou ganhando mais
repercussão que na França.
No Brasil o Positivismo dividiu-se em duas partes, quase sempre
antagônicas: de um lado, os ortodoxos, seguidores da Religião da
Humanidade e crentes no Grande Ser, representados pelos apóstolos
Miguel Lemos e Teixeira Mendes; do outro lado, os dissidentes ou
heterodoxos, cujos nomes mais importantes foram Luis Pereira
Barreto, Alberto Salles e Pedro Lessa.
O positivismo religioso teve pouca importância entre nós. O positivismo
filosófico e político tiveram os seus cultores e por tal motivo se
desenvolveu até que dominado por outras filosofias mais modernas
praticamente desapareceu.
Apesar de serem pacifistas, os militares positivistas teriam cumprido
rigorosamente com os seus deveres profissionais, estimulados pela
cultura do amor à Pátria e pelo empenho de proceder de maneira exemplar
em todos os seus atos. Nunca fugiram ao combate. Pelo contrário, sempre
lutaram com entusiasmo pelas causas que abraçaram.
Preferir a paz à guerra e procurar soluções humanas para os conflitos
têm sido a meta dos estadistas e dos grandes chefes militares. No auge
da civilização militar, adotou-se o princípio - se quereis a paz
preparai-vos para a guerra - segundo o qual foi estabelecida na
antiguidade a paz romana que acabou com as pequenas hostilidades
generalizadas.
Sendo assim observamos que os homens hoje, seja na África, seja no
Iraque procuram a guerra não por suas convicções pessoais, mas
necessariamente como jogo político econômico que tem como fim
principalmente o controle das grandes nações em relação às nações mais
empobrecidas e que acabam como joguete nas mãos dos primeiros.
A guerra meus amigos não faz parte da base ideológica do ser humano.
Benjamin Constant esteve na linha de frente na Guerra do Paraguai, donde
só saiu por cair doente. No glorioso 15 de novembro assumiu o comando da
2a. Brigada até a chegada de Deodoro e cavalgou na frente da tropa até o
fim da jornada. Foi ministro da Guerra por sete meses, tendo criado a
Comissão de Reforma das Escolas Militares (Rio, Rio grande do Sul e
Ceará), a Comissão para Organização do Código de Justiça Militar, a
Escola Superior de Guerra, e a Comissão de Reorganização do Exército.
Nunca se descuidou, portanto, da operosidade militar. Nas duas Grandes
Guerras Mundiais, os positivistas estiveram nos seus postos.
Os militares positivistas não pregam a violência, exceto contra a
própria violência, mas não fogem da guerra. Se houve algum período de
menor atenção à parte prática da instrução militar, a culpa não cabe aos
positivistas que, logo ao reassumirem os postos da direção, promoveram a
sua remodelação. A cultura geral é necessária aos chefes militares e não
colide com as obrigações profissionais. Na defesa da República dirigida
por Floriano, muitos civis positivistas pegaram em armas, e tantos
outros positivistas só honraram o Exército Brasileiro.
A influência na vida de Euclides da Cunha
Em
1875, Euclides é matriculado no Colégio Caldeira, em São Fidélis.
Dirigido pelo Professor Francisco José Caldeira da Silva, natural da
ilha da Madeira. Homem bastante inteligente, com ótima cultura, viera
para o Brasil por causa de suas avançadas idéias republicanas. Sendo
assim, sofreu grande influência daquele mestre com ideais republicanos.
No
Colégio Aquino, figuravam entre os Professores Benjamim Constant, mais
tarde também seu professor no Colégio Militar em que as aulas técnicas
ocasionalmente eram substituídas pela propaganda política republicana e
a disseminação da doutrina positivista. Benjamim Constant pertencia à
Ala dos Heterodoxos. Dessa forma Euclides assimilou os princípios
fundamentais do positivismo, reforçando ainda a sua idéia republicana,
mas seu espírito crítico e embasamento científico nunca permitiram que
se entregasse totalmente e intelectualmente ao positivismo ou a nenhuma
outra corrente de pensamento.
Euclides tinha temperamento inquieto e tortuoso, sempre à busca de algo
que o inquietava, para demonstrar esse seu espírito e posicioná-lo nesse
mundo político e social, tomemos um trecho de seu estudo "Da
Independência à República”:
“Porque, em verdade, o que houve foi a transfiguração de uma sociedade
em que penetrava pela primeira vez o impulso tonificador da filosofia
contemporânea. E esta, certo, não a vamos buscar nesse tão malsinado
positivismo, que aí está sem a influência que se empresta, imóvel,
cristalizado na alma profundamente religiosa e incorruptível de Teixeira
Mendes."
“As
novas correntes, forças conjugadas de todos os princípios e de todas as
escolas - do contismo ortodoxo ao positivismo desafogado de Littré, das
conclusões restritivas de Darwin às generalizações de Spencer - o que
trouxeram, de fato, não foram os seus princípios abstratos, ou leis
incompreensíveis à grande maioria, mas as grandes conquistas liberais do
nosso século; e estas se compondo com uma aspiração antiga e não
encontrando em nós arraigadas tradições monárquicas, removeram,
naturalmente, sem ruído - no espaço de uma manhã - um trono que
encontraram.”
Podemos também observar que, assim como citamos acima, o determinismo ou
em sua proposta de darwinismo social também ilustrou o pensamento de
Euclides, pois nesse momento a base do determinismo se baseava em uma
teoria filosófica segundo a qual todos os acontecimentos do universo
obedecem a leis naturais de tipo causal, ou seja, a natureza, a
sociedade e a história se subordinam a leis e causas necessárias. As
concepções deterministas podem ser rastreadas no atomismo grego do
século V a.C., mas no sentido moderno só se estabeleceram no século XIX.
Sendo assim todos os homens estariam ligados às causas e efeitos da
natureza ou de suas condições históricas, mas embora tivesse uma base
sólida na época e muitos adeptos, os intelectuais com uma visão moderna
haveria inevitavelmente de nega-la. Embora tendo esboçado seu livro
vingador em torno de uma idéia determinista, Euclides não apoiava tais
posicionamentos e via Canudos mais como um grande erro de conduta por
parte do movimento republicano que ora se instalava no país, daí a idéia
de negação de suas convicções republicanas.
Hoje com o fim do Determinismo e a evolução do Possibilismo, vemos uma
mudança de mentalidades, embora o darwinismo social ainda seja uma
prática atual em muitas partes de nosso planeta.
Com
tudo isso, podemos concluir que, embora o positivismo e o determinismo
declaradamente tenham desaparecido do Brasil, ainda restam pensamentos e
práticas sociais que nos levam a fazer ainda, uma reflexão sobre suas
praticidades para a sociedade brasileira. Não esquecendo que no Rio de
Janeiro temos ainda um templo da Igreja Positivista do Brasil.
PROF. GUILHERME FÉLICE GARCIA é
Professor dos Ciclos de Estudos Euclidianos e professor nas cidades de
Ribeirão Preto, Ituverava, Franca e São Joaquim da Barra.
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Euclides da Cunha - “Os Sertões” e suas outras obras
Maria Aparecida Granado Rodrigues
O grande escritor Euclides da Cunha deixou-nos, além de “Os
Sertões”, outras obras que, sem dúvida, são de fundamental importância
sob o ponto de vista literário.
O tema da Semana Euclidiana deste ano é Textos Euclidianos além
de “Os Sertões”, portanto cabe aqui um estudo, embora pequeno, de
algumas de suas obras que são muito importantes para se pensar a cultura
brasileira, algumas delas publicadas depois de sua morte.
A Bibliografia Euclidiana compõe-se dos seguintes livros: “Os
Sertões” (1902); “Peru versus Bolívia” (1907); “Castro Alves e seu
tempo“ (1907); “Contrastes e Confrontos” (1907); “À Margem da História”
(1909); “Contrastes e Confrontos” (1907); “Diário de uma Expedição”
(1939); “Caderneta de Campo” (1975).
Além desses livros, Euclides da Cunha escreveu cartas, poesias e
relatórios.
1
) “Os Sertões”:
Não há como negar que a posição de Euclides da Cunha na Literatura
Brasileira como grande escritor que foi, merecedor de muitos elogios,
está atrelada à criação do livro “Os Sertões” que, sem dúvida, é o maior
de todos.
Primeiramente porque o livro “Os Sertões” foi um alerta
denunciador de um problema que o Brasil vivia e que é atual e creio que
sempre o será, aqui e no mundo todo - o problema da injustiça cometida
por aqueles que detêm o poder contra os pobres, os fracos, os oprimidos,
os operários, os analfabetos, os sem-terra, os sem-saúde, os
trabalhadores dos campos, os abandonados do sertão, pessoas que vivem no
anonimato, seja qual for o regime que estiver vigorando.
Podemos dizer também que o livro “Os Sertões” foi como uma
candeia que colocada à frente, abriu e clareou caminhos para outros
escritores que resolveram assumir posição de luta contra esses mesmos
problemas. Autores como Monteiro Lobato, Raquel de Queirós, Graciliano
Ramos, Jorge Amado e outros que, influenciados por Euclides da Cunha,
resolveram tratar do problema da seca e suas conseqüências, do caboclo
esquecido, ignorante e miserável, situações que sempre colocaram e
colocam patrícios nossos em situação desvantajosa em relação aos demais
brasileiros.
O livro “Os Sertões” segue um rigoroso esquema determinista. O
seu núcleo organizacional é formado por três partes. “A Terra”, “O
homem”; “A Luta”.
Isto quer dizer que Euclides da Cunha partia do pressuposto que
para entender sob o ponto de vista científico o que se passou em
Canudos, era necessário considerar o ambiente, a geografia do lugar (
A Terra ); os aspectos antropológicos, mostrando os cruzamentos das
raças e o aparecimento do tipo do sertão ( O homem ); e as
circunstâncias históricas, culturais, políticas, sociais que interferem
nos acontecimentos, no caso específico, a guerra de Canudos ( A Luta).
A Terra, primeira parte do livro, embora seja de difícil
compreensão, possui uma intensa beleza expressiva. É uma espécie de
tratado sobre a geologia nordestina. É uma descrição intrigante, bela e
difícil que contagia e incomoda. A descrição abrange o cenário físico,
as caatingas, as serras, as águas, o ar, a vegetação.
Não se trata de um livro qualquer daqueles que a gente lê, quase
sempre esquece e não interferem em nada na nossa maneira de ver a vida.
Ao contar sobre a guerra de Canudos, Euclides da Cunha, nos
mostra as chagas de um país dividido. De um lado uma sociedade que
detinha o poder político e econômico, localizada no Rio de Janeiro e em
outras cidades costeiras, Do outro lado, particularmente no sertão
nordestino, cresciam homens e mulheres à, própria sorte, à mercê das
atitudes arbitrárias dos coronéis e dos chefes locais.
Com seu livro máximo, Euclides da Cunha provou que houve incúria
por parte das autoridades na repressão aos canudenses de Antonio
Conselheiro.
“E foi, na significação integral da palavra, um crime.
Denunciemo-lo” ( Nota preliminar).
Aquele povo ali abandonado, num cenário de miséria e abandono,
num lugar perdido entre caatingas e serras chamado Canudos, disparou o
grito do país até então não conhecido. O grito não pôde ser ouvido
porque não foi entendido pelos dirigentes que preferiram suplantá-lo com
armas, preferiram sufocá-lo com balas.
O crime reside na incompreensão de Canudos por parte do litoral.
Lemos em “O Homem” – capítulo V: “Eram, realmente fragílimos, aqueles
pobres rebelados. . . Requeriam outra reação. Obrigavam-nos a outra
luta. Entretanto enviamos-lhe o legislador Comblain; e esse argumento
único, incisivo, supremo e moralizador – a bala”.
Passarei agora a uma pequena análise sobre as outras produções
que nos deixou o nosso incomparável escritor.
2
) “Peru versus Bolívia”:
Livro publicado pela 1ª vez em 1907, em artigos do Jornal do Comércio,
foi imediatamente traduzido para a língua espanhola. O livro é composto
de 8 estudos . Trata de uma discussão de maior importância para os
países interessados, para o Brasil, para toda a América.
O livro nada mais é do que um estudo técnico sobre o litígio de
fronteiras entre os países Peru e Bolívia. Estuda o problema levando em
conta todos os aspectos que podiam levar à conclusão final: histórico,
geográfico, político e jurídico. O professor Francisco Venâncio Filho
disse bem acerca de Euclides da Cunha “Revela mais uma vez a sua
excepcional capacidade de pensador ao mesmo tempo que um profundo
conhecimento dos países da América do Sul. Por tudo isto, teve
excepcional repercussão em todo o continente”.
Com o tratado de Petrópolis, o Brasil acertou seus problemas
fronteiriços com a Bolívia. Coube ao Brasil o Acre que já era habitado e
defendido pelos nordestinos que para lá iam fugidos das secas.
O Acre havia sido proclamado independente em 1902. Por causa
desse acerto o Peru sentiu-se fraudado e reclama da Bolívia 720.000 Km2,
incluindo o Acre.
Euclides da Cunha, valendo-se desse rico material técnico e
histórico, mostra a existência de erros que terminaram por orientar a
delimitação territorial entre Peru e Bolívia.
Euclides da Cunha pôde presenciar o problema angustiante do
seringueiro nosso no Acre, isso fez com que ele passasse a se preocupar
com essa questão de delimitação de terra entre esses dois países. Tomou,
então, apaixonadamente o partido da Bolívia . Ele tornou-se o “Cavaleiro
andante da Bolívia contra o Peru”, conforme ele mesmo se definia.
Mais uma vez vemos Euclides da Cunha se posicionando como
advogado das causas injustas, embora muitos não o compreendessem e nem
tão pouco o compreendam hoje.
São palavras do escritor maior: “Muitos talvez não compreendam
que, numa época de cerrado utilitarismo, alguém se demasie em tanto
esforço numa advocacia romântica e cavalheiresca, sem visar um lucro, ou
interesse indiretos. Tanto pior para os que não o compreendam. Falham à
primeira condição prática, positiva e utilitária da vida, que é
aformoseá-la. . . “
Com esse espírito é que Euclides denunciou um erro defendendo
não os direitos da Bolívia, mas defendendo o Direito.
3
) “Castro Alves e seu tempo”:
Trata-se de uma conferência pronunciada por Euclides da Cunha, em 3 de
dezembro de 1907, no Centro Acadêmico XI de Agosto, da Faculdade de
Direito de São Paulo, a convite dos acadêmicos. A entrada foi paga, pois
a conferência se destinou a angariar fundos para uma herma do poeta
baiano.
4
) “Contrastes e Confrontos”:
Trata-se de uma coletânea de artigos saídos em sua maioria,
originalmente, na imprensa. Foram escritos por volta de 1904 e
organizados por um editor de Portugal. Entre os vários artigos há alguns
de grande interesse: “Plano de uma Cruzada”: o tema desse artigo é a
seca.
Vemos um Euclides preocupado com a ecologia. Ele critica a nossa
incapacidade criadora de combater a seca, principalmente por ser um
fenômeno previsível. “As secas do extremo norte delatam
impressionadoramente, a nossa imprevidência, embora sejam o único fato
de toda a nossa vida nacional ao qual se possa aplicar o princípio da
previsão”.
Euclides apresenta várias sugestões que formariam um plano
estratégico desta cruzada contra o deserto.
Sugeriu “a açudada largamente disseminada” – em virtude dos
vales e aproveitando as corredeiras das montanhas que a própria erosão
transformou em grande covas; “ a arborização em vasta escala” com
vegetais que sejam apropriados para aquele clima rude do sertão; “as
estradas de ferro de traçados adrede dispostos ao deslocamento rápido
das gentes flageladas”; “os poços artesianos, nos pontos em que a
estrutura granítica do solo não apresentar dificuldades insuperáveis”.
As soluções apresentadas por Euclides da Cunha mostram que ele
tinha profundo conhecimento do que falava e era muito interessado nesses
assuntos.
Num outro artigo do livro “Contrastes e Confrontos”, “Fazedores
de Desertos”, vemos também a preocupação de Euclides da Cunha, isso em
1904, com o problema da seca e da ecologia. Critica o desmatamento, a
queimada de árvores para obtenção de combustível único das nossas
locomotivas.
Euclides critica a ação devastadora do homem que não se preocupa
com o mundo em que vive.
Vemos sua posição neste trecho “Temos sido um agente nefasto e
um elemento de antagonismo terrivelmente bárbaro da própria natureza que
nos rodeia”.
Outro artigo que merece destaque é “Um Velho Problema” – artigo
escrito a 1º de maio de 1904 a propósito do Dia do Trabalho. Disserta
ele sobre questões trabalhistas; fala sobre o capital, o trabalho, a
produção, o uso da terra e, numa época em que ninguém tinha coragem de
abordar o assunto.
Ele afirma: “A força única da produção é o trabalho. A terra, as
máquinas, o capital não produzem sem o braço do operário”.
É portanto um artigo que aborda questões sociais e defende o
direito de greve do trabalhador.
Muitos outros assuntos ainda foram tratados por Euclides da
Cunha em “Contrastes e Confrontos”.
5
) “À Margem da História”:
obra publicada após a morte de Euclides da Cunha, também reunindo
artigos saídos da imprensa. Possui uma primeira parte dedicada aos temas
amazônicos, abrangendo quase metade do livro, deveria fazer parte de uma
outra obra do porte de “Os Sertões” que ele intencionava escrever. Seu
título seria “Um Paraíso Perdido”. Seria um “segundo livro vingador”.
Deveria referir-se à Amazônia, acusando os descasos pela terra e o
desprezo pelo homem.
Um texto particularmente antológico é “Judas Ahsverus”. Tendo
como ponto
de partida a festa de malhação de Judas, Euclides cria uma série de
correspondências entre o boneco de palha surrado que fica flutuando pelo
rio e a própria idéia da violência, solidão e, sofrimento do seringueiro
enganosamente atraído para a Amazônia. Dá-nos a impressão o texto de
que ao malhar o Judas, o homem amazônico se malha: “É um doloroso
triunfo. O sertanejo esculpiu o maldito à sua imagem. Vinga-se de si
mesmo: pune-se, afinal da ambição maldita que o levou àquela terra. . .”
( À Margem da História, p.76 ).
“Judas Ahsverus” denuncia as brutais formas de exploração do homem da
Amazônia no início deste século, o qual parece encontrar-se abandonado
até por Deus: “. . . o Redentor Universal não os redimiu; esqueceu-os
para sempre, ou não os viu talvez, tão relegados se acham à borda do rio
solitário, que no próprio volver das águas é o primeiro a fugir. . .” (
À Margem da História, p.73 ).
Podemos perceber que “Judas Ahsverus” e os demais textos
amazônicos de À Margem da História” são muito atuais.
No livro figura “Transacreana”, em que Euclides sonha com uma
estrada de ferro que seria fator de progresso e integração da região
Amazônica ao restante do país. Sonho quase realizado em A
Transamazônica. . .
No livro encontra-se também “Primado do Pacífico”, em que
Euclides da Cunha afirma que haveria uma grande guerra entre os Estados
Unidos e o Japão. Escrito em 1909, o conflito se deu em 1941. . .
Há no livro também “Viação Sul-Americana”- fala da deficiência
de nossas ferrovias e o aproveitamento dos rios para navegação.
Em 1939, veio a lume outro livro – “Canudos, Diário de uma
expedição”, onde se encontram todas as informações e apontamentos da
campanha. Euclides usou-os na elaboração do 3ª parte de os “Os Sertões”,
a Luta.
Também “Caderneta de Campo” – contendo anotações de Euclides da
Cunha durante as atividades em Canudos como repórter de guerra pelo “O
Estado de São Paulo”.
Além desses livros, Euclides da Cunha escreveu cartas, poesias e
relatórios. As cartas estão reunidas em “Euclides da Cunha e seus
amigos”, reunidas por Venâncio Filho.
As poesias estão nos seu caderno de poesias “Ondas”, são 84
poesias.
Há que se destacar ainda o “Relatório da Comissão Brasileiro –
Peruana de Reconhecimento do Alto Perus”.
São 77 páginas de um trabalho eminentemente técnico, de inteira
essência geográfica. Relata o seu desapontamento no primeiro contado com
o rio e com a terra amazônica.
Como disse no princípio, seria muito difícil falar de um assunto tão bem
abordado por outros professores sem ser repetitiva.
Para elaborar este meu estudo, eu pesquisei textos de Francisco Venâncio
Filho, Dálvaro da Silva, Everton de Paula, Paulo Dantas e outros.
Li também alguns textos dos professores rio-pardenses, Sr.Márcio
José Lauria e Sr.Valdir Ferreira. Quero expressar o meu carinho e apreço
a esses dois professores porque com eles aprendi muito sobre nossa
Literatura e sobre a Língua Portuguesa. Mais do que isso, aprendi a
apreciar as obras da Literatura porque sabemos existir nelas muito
daquilo que gostaríamos de ter escrito um dia.
Eles são cidadãos respeitados e queridos em nossa cidade pelo
muito que deram de contribuição pela nossa cultura, principalmente pelo
muito que já se dedicaram à Semana Euclidiana.
Aos maratonistas, gostaria de dizer que mais importante do que
participar da Semana Euclidiana é descobrir nos escritos deixados por
Euclides da Cunha, as belas lições de otimismo e patriotismo. Lições que
todos devemos assimilar para tentar amenizar os problemas brasileiros
que não são poucos.
Boa Sorte a todos!
Maria
Aparecida Granado Rodrigues |
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ANTÔNIO CONSELHEIRO E A GUERRA DE CANUDOS
DE ANTÔNIO VICENTE A ANTÔNIO CONSELHEIRO
PROFESSOR NICOLA
Antônio Vicente Mendes Maciel nasceu em Quixeramobim,
no Ceará, em 1830. Seu pai, Vicente Antônio Maciel, abandonou a ocupação
tradicional de vaqueiro para tornar-se um pequeno comerciante que teve
recursos para custear os estudos elementares do filho, que aprendeu a
ler, escrever e também latim com um professor local. Talvez o pai
quisesse encaminhá-lo para o sacerdócio, o que naquela significava poder
e influência social. A família Maciel era rival da família Araújo há
muito tempo, mas Vicente Maciel não se envolvia nos conflitos que
causavam mortes em ambas. O menino ficou órfão de mãe aos 6 anos e seu
pai casou novamente. Antônio Vicente passou a ser maltratado pela
madrasta que era desequilibrada. Há poucos depoimentos sobre a infância
e a adolescência de Antônio Vicente. Morto o pai, em 1855, Antônio
cuidou dos negócios e das três irmãs até casá-las. Em seguida casou-se
também, com sua prima Brasilina, que era analfabeta. Falido, deixou
Quixeramobim, trabalhando em fazendas como professor, caixeiro viajante,
domador de cavalos, advogado provisionado, perito criminal, etc. Quando
estava em Ipu, sua mulher fugiu com um sargento. Saiu a procurá-los para
vingar-se, mas pouco depois passou a viver com Joana Imaginária, artesã
modeladora de imagens,com quem teve um filho. Em 1871, seu principal
credor acionou a justiça que condenou-o a pagar a dívida, o que não fez,
tendo sido penhorados seus poucos bens. A partir daí, Antônio sofreu
grande mudança pessoal, tornando-se andarilho e pregador religioso
católico através do sertão nordestino, ou seja, um beato. Seu modelo
deve ter sido o cearense José Antônio de Maria Ibiapina (1806-18??), um
ex-juiz de Direito e deputado federal de Quixeramobim que protegera a
família Maciel contra a família Araújo, e que depois de enviuvar,
abandonou a toga, distribuiu seus bens e ordenou-se sacerdote, passando
a atuar como missionário em favor dos pobres durante 28 anos
(1855-1883). O padre Ibiapina organizou 22 casas de caridade, hospitais,
açudes, capelas, cemitérios e escolas. Manteve-se obediente à Igreja
Católica, mas passivo diante da estrutura econômico-social e respeitoso
às autoridades, ao contrário de Antônio Conselheiro. Antônio Conselheiro
usava cabelos e barba longos, vestia um roupão azul e calçava sandálias.
Não se isolou da sociedade, pois trabalhava reparando ou construindo
igrejas, cemitérios, capelas, tanques para armazenar água etc.
Ouviram-no dizer em 1873 que havia feito uma promessa de construir 25
igrejas fora do Ceará. Recebeu vários apelidos (Antônio dos Mares, Santo
Antônio Aparecido, Bom Jesus), ficando conhecido definitivamente como
Antônio Conselheiro. Dizia ser um pecador a pagar os próprios pecados.
Recusava-se a ser adorado e chamava os semelhantes de ``irmãos``, sendo
chamado de ``meu pai`` por eles. Aos poucos, superou a timidez e
tornou-se um líder popular. Começou a ter seguidores (brancos pobres,
negros, índios, caboclos, gente de posse e miseráveis), o que despertou
a hostilidade dos fazendeiros, que perdiam trabalhadores, e de grande
parte da Igreja Católica, que não via com bons olhos aquele pregador
que, embora fosse católico, insistia em fazer prédicas e arrastava seus
fiéis. O clero solicitou providências às autoridades policiais e, em
1876, Antônio Conselheiro foi preso na vila de Itapicuru, no sertão
baiano, sob a acusação de "ser ele criminoso de morte no Ceará", de ter
assassinado a mãe e a espôsa… Foi maltratado e humilhado pelos soldados,
enviado para Salvador e dali para o Ceará. Em Quixeramobim, sua terra
natal, o Juiz Municipal mandou soltá-lo, pois `` tendo verificado não
ser o referido Maciel criminoso, o mandei pôr em liberdade alguns dias
depois de sua chegada a esta cidade``. Regressando à Bahia, Antônio
Conselheiro teve o prestígio e o número de seguidores aumentado,
favorecido que foi pela terrível seca que assolou o Nordeste entre 1877
e 1879. Ele e seu grupo viviam de doações, de coleta, de frutos
silvestres, de caça, etc, mas nunca de roubos e furtos. Trabalhavam na
construção ou reparos de açúdes, estradas, igrejas, tanques e
cemitérios, sob a liderança de Antônio Conselheiro, que, assim, "dava um
sentido à vida dos sertanejos, demonstrando no dia-a-dia os limites do
poder autocrático do Estado, da Igreja e dos latifundiários e, mais
ainda, a possibilidade de superação desta ordem social" (Villa, M. A.,
p. 29)
As autoridades eclesiásticas católicas da Bahia
continuaram a perseguí-lo, porém, alegando que Antônio Conselheiro
divulgava ``doutrinas supersticiosas`` (1882) ou `` doutrinas
subversivas``(1887). O governo baiano chegou a solicitar ao governo
imperial, a pedido do Arcebispo de Salvador, uma vaga no ``Hospício dos
Alienados`` do Rio de Janeiro para Antônio Conselheiro, mas a resposta
foi que não havia vaga… A abolição da escravidão, em 1888, levou muitos
ex-escravos, apelidados de ``treze de maio" no sertão baiano, a procurar
e a seguir Antônio Conselheiro, engrossando o seu séquito.
A CRISE DA REPÚBLICA BRASILEIRA
0s últimos trinta anos do século XIX sobrecarregaram
a sociedade brasileira com tensões de conflitos das mais diferentes
espécies. Terminada a guerra contra o vizinho Paraguai em 1870, o
cenário nacional passou a presenciar choques de interesses entre
monarquistas e republicanos, escravistas e abolicionistas, Exército e
Marinha, conservadores e liberais, católicos e positivistas, Igreja e
Estado, fazendeiros e imigrantes, etc. Decretada a abolição em 1888, e
proclamada a República em 1889, o país não conheceu a estabilidade que
se esperava. Novos choques afloraram entre partidários do liberalismo
econômico e do protecionismo estatal, deodoristas e florianistas, civis
e militares, fazendeiros de café e militares, partidários da federação e
de centralização política, imprensa republicana e imprensa monarquista,
maragatos e pica-paus no Rio Grande do Sul, autoridades eclesiásticas e
beatos, etc.
É que logo após a proclamação da República, em
novembro de 1889, o novo regime chefiado pelo marechal Deodoro adotou a
federação, dando autonomia aos estados, separou a Igreja do Estado,
instituiu o casamento civil, exilou a família imperial, garantia a
liberdade de consciência e expressão, adotou uma nova bandeira com o
lema "Ordem e Progresso" extraído da filosofia positivista do pensador
francês Auguste Comte. O fracasso da polítíca econômica chamada
"Encilhamento", da autoria do ministro Rui Barbosa, e as atitudes
atabalhoadas do marechal Deodoro provocaram uma séria crise no Governo
Provisório da República. Mesmo assim, Deodoro conseguiu eleger-se
Presidente por pequena maioria de votos na eleição indireta realizada
pela Assembléia Nacional Constituinte. O vice-presidente eleito,
marechal Floriano Peixoto, atraía para si todos os descontentes contra
Deodoro. No início de novembro de 1891, o Congresso Nacional foi fechado
por ordem de Deodoro que tornou-se ditador. Vinte dias depois, porém, a
Marinha revoltou-se contra Deodoro que renunciou para evitar a guerra
civil. Embora a Constituição de 1891 estabelecesse que uma nova eleição
presidencial devia ser realizada, pois Deodoro não havia completado a
metade do mandato, como mandava a Constituição, o vice Floriano assumiu
e governou de fato. Para conseguir apoio político, Floriano reabriu o
Congresso Nacional que Deodoro havia fechado, levantou a censura nos
jornais, depôs os governadores estaduais que haviam apoiado o golpe de
Deodoro, prendeu opositores e obrigou outros a se exilarem. Descontente,
a Marinha revoltou-se contra Floriano esperando derrubá-lo, mas ele
resistiu durante vários meses até derrotá-la. Bem antes disso, porém,
tivera início no Rio Grande do Sul a chamada Revolução Federalista
envolvendo os maragatos, seguidores de Silveira Martins, contra os
pica-paus, seguidores de Júlio de Castilhos. Este conseguira aprovar uma
Constituição estadual inspirada nas idéias positivistas autoritárias que
permitia a reeleição indefinida do governador gaúcho. Os maragatos
pegaram em armas contra os castilhistas. A Marinha rebelada contra
Floriano na baía de Guanabara passou a apoiar os maragatos no RS, o que
levou Floriano a apoiar Júlio de Castilhos e os pica-paus. Ao aderir à
revolta da Marinha contra Floriano, o almirante Saldanha da Gama lançou
um manifesto propondo "repor o Governo do Brasil onde estava a 15 de
novembro de 1889", isto é, a restauração da monarquia. Assim, a Marinha
e os maragatos ficaram associados à restauração monárquica, enquanto
Floriano e os pica-paus ficaram identificados à República. Em alguns
meses, Floriano e Castilhos venceram seus adversários. Nesse conflito
sulista, era comum a prática da degola em prisioneiros.
Temia-se que Floriano não deixasse o poder, mas isso
não ocorreu. O novo presidente eleito, o advogado Prudente de Moraes
Barros, representante da poderosa aristocracia rural cafeeira paulista,
assumiu o cargo sob a desconfiança dos militares, e simpatizantes de
Floriano Peixoto. Além disso, as dificuldades financeiras provocadas
pelos gastos do governo anterior com as revoltas e pela crise do café
(superprodução e queda de preços no mercado internacional) tornavam o
governo de Prudente bastante vulnerável politicamente. A saúde precária
do presidente tornava ainda mais incerto o seu mandato. Foi nesse clima
que o episódio de Canudos atingiu o clímax.
AS IDÉIAS DE ANTÔNIO CONSELHEIRO
Num manuscrito encontrado após a guerra, e em cuja
primeira página está escrito "A presente obra mandou subscrever o
peregrino Antônio Vicente Mendes Maciel no povoado do Belo Monte,
província da Bahia em 12 de janeiro de 1897", estão as idéias
religiosas, sociais e políticas do líder sertanejo. Nas 624 páginas que
o compõem, 29 são meditações intituladas "Tempestades que se levantam no
coração de Maria", 10 correspondem a comentários sobre os Mandamentos,
outras são textos copiados da Bíblia e nas páginas finais estão suas
opiniões sobre sociedade e política. Cita santos católicos como
Agostinho, João Crisóstomo, Tomás de Aquino, Bento, Basílio, Pedro
Damião, Thomas More ( o autor do livro "Utopia") e santas como Teresa e
Madalena de Pazins. Sua visão de mundo era religiosamente teocêntrica ,
politicamente teocrática e socialmente conservadora.
Ao comentar o sétimo mandamento, "Não roubar",
anotou: "Que ofensa terrível comete neste preceito aquele que furta
qualquer coisa do próximo (…) Antes deveis pedir (no caso de achar-vos
sem meios de subsistência para vós e a vossa família), do que tirar a
mínima coisa do próximo (…) Se o primeiro passo dado pelo ladrão na
carreira do crime fosse logo rigorosamente punido, a ponto de não sair
da cadeia, não haviam de se ver tantas desgraças. Um brado unânime se
deve pronunciar contra os ladrões, pelos prejuízos que causam com tão
enorme procedimento. Sim, não se deve protegê-los para exemplo daqueles
que os queiram imitar". Quanto ao décimo mandamento, "Não cobiçar nada
do próximo", comenta: "É certo que cada um deve conformar-se com o seu
estado; se vive oprimido do peso da indigência , deve sofrer
pacientemente. A felicidade do homem consiste em conformar-se à vontade
de Deus". Insistia em afirmar que a pobreza neste mundo está associada à
santidade. Condenava o comerciante inescrupuloso e a cobrança de "juro
excessivo daqueles que estão na precisão". Defendia a submissão da
mulher ao pater familias. Quanto ao adultério, condenava-o se a mulher o
cometesse, não sendo rigoroso quando fosse praticado pelo homem: "E se
seus maridos lhes derem exemplo neste particular , nem por isso lhes
venha tal tentação de os ofender com outra semelhante injúria; porque
além da ofensa que fazem a Deus, põem as suas vidas em perigo de serem
castigadas pela justiça ou mortas por seu marido". Às mulheres, sugeria,
"ocupem-se (…) em bons exercícios e não estejam ociosas. Devem evitar os
passeios, tomando assim o exemplo do lastimoso caso que sucedeu a nossos
primeiros pais". Criticava os judeus, "os maçons, protestantes e
republicanos, porque eles também só acreditam na Lei de Moisés,
espalhando assim doutrinas falsas e errôneas aos ignorantes". Antônio
Conselheiro criticou os judeus em 16 oportunidades em seu manuscrito e
sua principal acusação era a de que eles eram os responsáveis pela morte
de Jesus Cristo e não aceitavam a doutrina cristã. Em nenhum momento
menciona o rei português D. Sebastião em seu manuscrito.
O CONSELHEIRO CONTRA A REPÚBLICA
Politicamente, Antônio Conselheiro repudiava a
república e defendia a monarquia. Para ele, "todo poder legítimo é
emanação da Onipotência eterna de Deus e está sujeito a uma regra
divina, tanto na ordem temporal como na espiritual, de sorte que,
obedecendo ao pontífice, ao príncipe, ao pai, a quem é realmente
ministro de Deus, só a Deus obedecemos". A proclamação da República, em
novembro de 1889, provocou mudanças inaceitáveis para Antônio
Conselheiro que era católico, monarquista, abolicionista e favorável
apenas ao casamento religioso. Os republicanos separaram a Igreja do
Estado, decretaram a liberdade religiosa, instituíram o casamento civil
obrigatório e exilaram a família imperial. Sugeria que " os pais de
família não obedeçam à lei do casamento civil, evitando a gravíssima
ofensa em matéria religiosa que toca diretamente a consciência e a
alma". Assim, Antônio Conselheiro entrou em choque com a República, que
considerava "um grande mal para o Brasil", sonhando com a restauração do
regime monárquico, o que foi largamente explorado por seus adversários.
Previa que "a república há de cair por terra para confusão daquele que
concebeu tão horrorosa idéia". Atribuía a abolição da escravidão à
bondade da princesa Isabel, e não como uma decisão política e social.
Ele era pregador leigo, não fazia milagres e não era curandeiro.
Escrevia suas próprias prédicas e tinha uma boa erudição, citando
autores clássicos e santos católicos. Como assinalamos acima, o regime
republicano vinha atravessando instabilidades decorrentes do fracasso da
política econômica representada pelo Encilhamento; pela queda dos preços
do café no mercado internacional; pelas agitações políticas nos estados;
pela Revolução Federalista que atingiu o RS, SC e o PR; pelas duas
revoltas da Marinha, a primeira provocando a renúncia de Deodoro à
presidência, e a segunda tentando derrubar Floriano, sem sucesso; pela
oposição dos florianistas ao presidente civil paulista Prudente de
Moraes Barros, etc. Todas as tensões, violências e rancores
desencadeados por esses conflitos, acrescidos às condições políticas e
sociais específicas existentes na Bahia, foram canalisadas contra
Canudos, para a terrível e trágica guerra no sertão da Bahia, provocando
a sua destruição e uma matança sem precedentes.
Importantes autores como Norman Cohn, Maria Isaura
Pereira de Queiroz, Eric Hobsbawn e Max Weber assinalaram a tese do
desenraizamento para a melhor compreensão de fenômenos sociais como o de
Canudos. O desenvolvimento industrial europeu do final do século XIX
teria criado pressões econômicas para encaixar o Brasil no sistema
internacional, o que provocara mudanças rápidas na sociedade
tradicional, desenraizando-a de seus pressupostos ideológicos embasados
na monarquia, no catolicismo e na escravidão. A abolição da escravidão,
a proclamação da República e a separação da Igreja e o Estado estariam
inscritos nesse processo que gerou insegurança e instabilidade, do qual
o movimento de Canudos liderado por Antônio Conselheiro seria em parte
expressão, já que o líder canudense era abolicionista, identificada com
os valores políticos e religiosos tradicionais colocados em xeque pelos
republicanos. Assim, a alteração rápida dos valores políticos, sociais e
mentais provocados pela República, sem correspondência profunda com
transformações nas estruturas econômica e social, que continuaram as
mesmas do tempo da monarquia decaída, teria sido responsável em parte
pela reação representada pelo movimento de Canudos. Um exemplo anterior,
ocorrido no tempo da monarquia, foi a revolta do "quebra-quilos" em
muitas províncias brasileiras, em 1874, quando o governo imperial tornou
obrigatória a adoção do sistema métrico decimal no lugar dos padrões de
pesos e medidas herdados e praticados desde o período colonial. Nessa
época, Antônio Conselheiro estava percorrendo o sertão e pode ter sido
testemunha ou participante dos protestos populares que ocorreram.
Em 1892, em Chorrochó, durante uma feira, uma velha
foi intimada pelos cobradores de impostos a pagar cem réis por ter
colocado o objeto no chão, sendo de oitenta réis o seu valor real. Houve
protestos gerais e o Conselheiro observou: - Eis aí o que a República, o
cativeiro, trabalhar somente para o governo. É a escravidão, anunciada
pelos mapas, que começa. Não viram a tia Benta, é religiosa e branca,
portanto, a escravidão não respeita ninguém?! Em abril de 1893, em Bom
Conselho, durante manifestações populares contra impostos, o Conselheiro
apoiou-as, ordenando aos seus seguidores que quebrassem as tábuas
municipais onde eram anunciados os impostos decretados pelas autoridades
republicanas, regime político que ele não reconhecia. A polícia foi
convocada a pedido do Juiz Arlindo Leoni e atacou os conselheiristas em
Masseté, em 26 de maio, sendo derrotada pelos conselheiristas. Outro
agrupamento militar com 80 homens foi mandado, mas o governador
Rodrigues Lima mandou-a retornar a Salvador. Nova expedição atacou os
conselheiristas em Uauá, mas a resistência provocou a debandada da
tropa. Antes que outro destacamento militar o atacasse, Antônio
Conselheiro levou seus seguidores para o nordeste baiano, para um local
conhecido como Canudos, que o beato chamou de Belo Monte, às margens do
rio Vaza-Barris, entre serras, caatingas e caminhos precários e
difíceis. Existiam no local cerca de cinquenta casebres habitados por
criadores de animais e os comerciantes Antônio da Mota e Joaquim
Macambira. Ali aconteceu um fenômeno urbano raro em curto espaço de
tempo, a organização da comunidade de Belo Monte-Canudos.
BELO MONTE – CANUDOS
Entre 1893 e 1897, Belo Monte-Canudos chegou a ter
5.200 casas (contagem oficial dos militares, e 2000 para Manuel Benício
e Euclides da Cunha) e reuniu entre 25.000 e 30.000 habitantes na
contagem dos militares (10000 pessoas para o historiador Marco Antonio
Villa), tornando-se um dos lugares mais povoados do estado. A rua
principal era a Monte Alegre, e as menores eram a da Professora, a dos
Pretos e a dos Caboclos. Isso é geralmente aceito, embora contemporâneos
afirmem só terem existido entre 1000 (Manuel Benício, general Carlos
Telles), 3000 (Favila Nunes) ou 4000 (L.A.Araújo) casas ("ranchos",
"choupanas") e entre quatro e cinco mil habitantes. Ali a terra era
usada comunitáriamente, todos trabalhavam em regime de mutirão, a
produção (legumes, milho, cana-de-açúcar, peixes, cabras, leite, favas,
batatas, melancias, abobóras, canas, mandioca, couro, tecidos, etc) era
distribuída, criavam-se cabras, curtiam-se peles, teciam-se redes,
fazia-se pólvora, construíam-se cacimbas, não se cobravam impostos, não
havia prostituição, não eram permitidas bebidas alcoólicas, existiam
duas escolas e duas igrejas. Como a primeira igreja ficou pequena para
tanta gente, inicou-se a construção de uma igreja maior. Canudos manteve
contato comercial com as cidades e vilas do sertão próximo, sendo que
Antônio Vilanova liderava as transações.
Sob a aparência de um certo igualitarismo, havia
algumas diferenças sociais em Canudos, havendo ricos, sobretudo
comerciantes, como os irmãos cearenses Antônio e Honório Vilanova,
Joaquim Macambira, Norberto das Baixas, Antônio da Mota, e uma maioria
de pobres. A maioria da população era constituída por baianos, mas havia
sergipanos, cearenses e pernambucanos. Existia grande número de antigos
escravos e escravas, apelidados ali de "Treze-de-maio". O Conselheiro,
chefe religioso indiscutível do arraial, permitia a presença de padres
católicos de quem era amigo para celebrar casamentos e batizados. Também
mantinha contatos com fazendeiros da região, pedindo-lhes pequenos
favores… José Calasans traçou esboços biográficos de jagunços e jagunças
que desempenharam papéis importantes na comunidade canudense. Lembremos
alguns: os beatos Paulo José da Rosa e José Beatinho; Antônio Beatinho,
que negociou com o general Artur Oscar a saída de centenas de velhos,
mulheres e crianças das ruínas de Canudos dias antes do final da guerra;
o sineiro Timóteo, que cumpria seu ofício arriscando-se diariamente no
meio do tiroteio e dos tiros de canhão até que um deles atingiu a torre
onde estava matando-o; José Félix, o "Taramela", que abria as portas
para o Conselheiro passar, também falador e contador de estórias; o
mestre-de-obras e talhador de altares Manoel Faustino; a velha Benta,
que cuidava da alimentação e da casa de Antônio Conselheiro; João Abade,
chamado de "chefe do povo" ou "comandante de rua" porque liderava a
Guarda Católica que protegia ou Companhia do Bom Jesus que protegia o
Conselheiro e os canudenses; Pajeú, pernambucano, negro, ex-soldado,
desertor, chefe de guerrilhas; José Venâncio, a quem se atribuiam várias
mortes antes de fixar-se em Canudos, era encarregado de conseguir
donativos para a Igreja nova e hábil atirador; Pedrão, porteiro, membro
da Guarda Católica, que escapou com os seus no final da guerra, morreu
nonagenário, lamentando: - Faz pena um homem como eu morrer sentado!;
Bernabé José de Carvalho, lôiro de olhos azuis, que acompanhou Antônio
Beatinho nas negociações para a retirada de sobreviventes das ruínas de
Canudos; Marciano de Sergipe, que preferiu morrer a fugir, argumentando
que: - Pois se o Conselheiro morreu eu quero morrer também!; Antônio da
Mota, negociante de couro e de venda, natural da região, que foi morto
com seus filhos pelos próprios canudenses que o acusavam de ter mandado
avisar o tenente Pires Ferreira do ataque que os jagunços preparavam
contra ele e sua expedição; Antônio Vilanova, negociante cearense que
dominava a economia canudense, já que " não se transferiu para o Belo
Monte pela fé e sim pelo interesse comercial" (J.Calasans, p.59),
guardador das armas e munições de Canudos, voltou para o Ceará nos
últimos dias da guerra, após a morte do Conselheiro, carregando grande
quantidade de bens; Honório Vilanova, irmão de Antônio Vilanova e também
sobrevivente, tornou-se importante por ter dado um depoimento importante
sobre o cotidiano de Canudos ao jornalista Nertan Macedo em 1964, quando
era nonagenário; Joaquim Macambira, comerciante local, encarregado pelo
Conselheiro de encomendar a madeira para o acabamento da Igreja nova em
Juazeiro e cuja demora na entrega criou o incidente que provocou o
início da guarra de Canudos; os professores Moreira e Maria Francisca de
Vasconcelos ou Maria Bibiana; Leão de Natuba, o secretário e escrivão do
Conselheiro; Manuel Quadrado, espécie de curandeiro e enfermeiro que
cuidava do Conselheiro e dos canudenses, vestia-se e usava barba longa
como o Conselheiro; Jesuíno Ferreira Lima, mascate que foi e deixou de
ser conselheirista até descobrirem que ele era capitão da Guarda
Nacional e Juiz de Paz, sendo humilhado e expulso de Canudos, passando a
colaborar com os militares republicanos e tornando-se seu guia até a
destruição completa da comunidade
"Não houve uma ruptura total com o universo político,
social e econômico - que, por sua vez, estão todos inseridos dentro de
práticas culturais - do qual eram oriundos. Dentro dessa perspectiva,
(…) Canudos (era) parte da realidade social e política existente no
Brasil, e não como uma oposição a ela. As lutas entre grupos familiares,
a privatização do público, a formação de um oligopólio de violência, a
exclusão social foram práticas que vigoraram na curta existência da
cidade fundada por Antônio Conselheiro" ( Rogério Souza Silva, ``
Antônio Conselheiro - A fronteira entre a Civilização e a Barbárie’’,
Annablume Editora, São Paulo, 1a edição, 2001, p. 77). Suspeita-se que
Antônio Conselheiro tinha ligações com pessoas da região que
forneciam-lhe armas e pólvora, dentre elas até padres… Quando correu o
boato de que o padre Cícero estaria ajudando Antônio Conselheiro e os
canudenses as próprias autoridades da região apressaram-se em desmentir.
Anos mais tarde, um amigo do padre escreveria: "Na realidade, isso (o
afastamento do padre Cícero do Cariri) não era possível; o povo não o
consentiria, havia de rebelar-se, e, então, viria a alegação: "É o
banditismo! "Iriam as forças e acabava-se com a população. Sabemos o que
foi Canudos, o que foi Contestado". O autor das palavras acima era o
doutor Floro Bartolomeu, um médico que era homem de confiança do padre
Cícero e seu conselheiro político.
As autoridades, os fazendeiros e os padres católicos
ficaram alarmados com tal ajuntamento, pressionando o governo baiano a
interferir em Canudos para dispersá-lo. O prefeito de Monte Santo, João
Cordeiro de Andrade, por exemplo, relatava em 1895 que no município de
Monte Santo e nos arraiais de Uauá e Cumbe, agitadores recusavam-se a
pagar impostos e expulsavam os cobradores do governo, dizendo: - Não
pago, por que não vai cobrar em Canudos? Denunciava Antônio Conselheiro,
pois "com a chegada deste chefe sedicioso (…) novas e sérias
perturbações aparecem geralmente em todo o município principalmente
depois que souberam que o governo não mandava mais força contra aqueles
sediciosos que então todos os fanáticos, cada qual por si julgou-se um
poder forte e irresistível encarando o abrigo que podiam encontrar
nestes desordeiros no povoado de Canudos afrontando as autoridades e ao
próprio governo, não consentindo que ali entrem senão os seus adeptos
fanáticos" (in MAVilla, ps. 69/70). A pedido do governador baiano
Rodrigues Lima, uma missão de três padres visitou Canudos em 1895,
tentando convencer seus habitantes a se dispersarem, mas encontrou
resistência em Antônio Conselheiro e nos seus seguidores. Frei João
Evangelista do Monte Marciano apresentou relatório de sua visita, onde
anotou que `` a seita político-religiosa, estabelecida e entrincheirada
em Canudos, não é só um foco de superstição e fanatismo e um pequeno
cisma na igreja baiana; é, principalmente, um núcleo, na aparência
desprezível, mas um tanto perigoso e funesto de ousada resistência e
hostilidade ao governo constituído do país. Encarados o arrojo das
pretensões e a soberania dos fatos, pode-se dizer que é aquilo um estado
no Estado: ali não são aceitas as leis, não são reconhecidas as
autoridades, não é admitido à circulação o próprio dinheiro da República
(…) O desagravo da religião, o bem social e a dignidade do poder civil
pedem uma providência que restabeleça no povoado de Canudos o prestígio
da lei, as garantias do culto católico e os nossos foros de povo
civilizado. Aquela situação deplorável de fanatismo e de anarquia deve
cessar (…). Dessa forma, a Igreja Católica denunciou `` o estado no
Estado`` que Canudos significava, em sua opinião, e aconselhou as
autoridades governamentais a tomarem providências para restabelecer a
lei, a ordem e a civilização naquele local do sertão que representaria a
anarquia, a desordem e a barbárie. Foi a Igreja Católica que rompeu com
Antônio Conselheiro, e não o contrário.
JUÍZOS SOBRE ANTÔNIO CONSELHEIRO ANTES DA GUERRA
Desde 1874, Antônio Conselheiro vinha sofrendo os
juízos mais diversos por parte de seus inimigos (padres, fazendeiros,
militares e autoridades) ou dos poucos simpatizantes. Vejamos alguns
desses juízos, destacando os autores e as datas em que foram emitidos:
`` aventureiro santarrão``, ``misterioso personagem`` (1874, jornal ``O
Rabudo, de Sergipe); `` Será um criminoso?`` (1876, jornal ``A Província
de São Paulo``), `` fanatizador do povo ignorante`` (1876, delegado
Francisco Pereira Assunção); `` indivíduo criminoso do Ceará`` (1879,
Silvio Romero); "não é outra coisa senão um emissário protestante ou um
refinado maçon", "falso profeta", "matou a própria mulher e tentou a
vida da própria mãe", "apóstolo de Satanás" (1881, padre italiano Júlio
Fiorentini); "virtuoso dizem, mas ignorante e arvorado em pregador"
(1882, padre Vicente Ferreira dos Passos); " todos os seus trabalhos é
servir a causa da religião, deixando obras pelos lugares por onde tem
andado", (na) "doutrina por ele anunciada, nada encontrei de ofensivo à
Religião, antes pelo contrário as suas explicações não são mais do que a
verdadeira lei de Deus, sua vida não é mais do que uma verdadeira
penitência" (1883, padre Antônio Porfírio Ramos); "Conviria ou que se
fizesse dispersar o grande grupo que o acompanha, ou que submetido ao
poder clerical o empregasse na espécie de vida que ele para si escolher,
ao contrário será a anarquia e a confusão" (1886, capitão José Geraldo
de Aragão, de Inhambupe); Antônio Conselheiro "faz um grande mal à
Religião e ao Estado, distraindo o povo de suas ocupações e
arrasatando-o após si, procurando convencer de que é o Espírito Santo,
insurgindo-se contra as autoridades constituídas, as quais não obedece e
manda desobedecer", `` tem pregado doutrinas subversisvas`` (1887,
Arcebispo D. Luiz Antonio dos Santos); `` lôbo devorador de almas``,
``novo herético, herege furibundo e e ferino``, ``energúmeno chefe de
horrorosa quadrilha de ladrões e assassinos`` (1887, padre italiano
Júlio Fiorentini); `` verdadeiro penitente que tem feito (…) obras de
grande utilidade `` (1892, Jornal de Notícias da Bahia); `` esse
indivíduo, longe de ser um facínora perigoso, é apenas um inofensivo
ente devotado a uma mania religiosa, que procurava sempre prestar algum
serviço na edificação ou reedificação de templos e cemitérios`` (1893,
tenente Durval Vieira de Aguiar); `` retirante de saco às costas (…)
Conselheiro Antônio da malvadeza`` (1894, coronel José Américo Camelo);
"chefe sedicioso" (1894, João Cordeiro de Andrade); `` ele é o Governo
desta terra sem lei, pior governo`` (1896, coronel José Américo Camelo);
"um maluco acabado e um refinadíssimo patife" (1896, Olavo Bilac); "Quem
quiser remédio santo/ Lenitivo para tudo/ Procure o Conselheiro/ Que ele
está lá nos Canudo" (1896-97, quadra popular); "sentia que lidava com um
profeta, com um dominador de multidões (…) O hábito de comando tinha
temperado o misticismo" ( 1897, Genes Fontes, juiz de Direiro de Monte
Santo ); `` vaidoso aventureiro`` (1897, João e César Cordeiro de
Andrade); `` Antônio Conselheiro é alguém`` (1897, Machado de Assis);
"tétrico fanático" (1897, Silvio Romero); "É de esperar que o Governo do
Estado dê algumas providências para fazer desaparecer deste Estado a
suprema vergonha de estar um fanático levantando barreiras à ação da lei
e se constituindo em potência independente de toda hierarquia social (…)
Enfim, a autoridade eclasiástica já cumpriu o seu dever, procurando
remediar o mal no que dependia de si. Resta agora que o Governo civil
cumpra o seu, fazendo desaparecer, pelos meios que lhe faculta a lei,
este opróbio social, verdadeira mancha negra ao sol de nossa
civilização" (1897, Leituras Religiosas, Bahia).
A POLÍTICA BAIANA DA ÉPOCA (1889-1897)
Em 1889, a Bahia era predominantemente monarquista.
Só existiam sete políticos baianos importantes que militavam no
republicanismo. Por isso, não houve receptividade à proclamação da
República. A Câmara Municipal de Salvador repudiou-a nos seguintes
termos: "Povo baiano! Esta província não pode ser enfeudada às
precipitações de um general que queira, de um dia para outro, por
arbítrio seu, por pesadelo ou por ambição, uma situação nova para o
país, contra a opinião geral dele, dispensando o concurso dos
representantes naturais e legais (…) Este sistema oriundo da surpresa e
da traição não pode continuar, porque não pode ser apoiado pelos amigos
das liberdades públicas e dos direitos do povo" (in MAV, p.110). O
governador Almeida Couto telegrafou a Deodoro declarando: "declaro
respeitar e manter a Constituição e as leis do Império" (idem, p. 111).
Militares republicanos, contudo, fizeram uma manifestação a favor da
República no Forte de São Pedro e o novo governador Virgílio Damásio
pode assumir o cargo (uma semana), logo passado a Manuel Vitorino (cinco
meses), depois ao marechal Hermes Ernesto da Fonseca , novamente a
Virgílio Damásio (dois meses) e finalmente ao nomeado pelo Legislativo
Estadual e depois eleito indiretamente, José Gonçalves da Silva. Este
indicou Luis Viana para ser o presidente da Assembléia Constituinte
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